A
NOITE É UMA CRIANÇA
Não
lembro o horário em que eu ia para a cama quando era criança, mas era cedo.
Bem antes das 21h. Lembro que eu tomava banho, jantava e, às vezes, dava uma rápida
espiada na televisão. Rápida mesmo, pois ela não era lá muito atrativa, nem
cores tinha. Recordo vagamente de uma novela chamada Nino, o Italianinho, mas
preferia ver o programa do Topo Gigio. No entanto, nada disso exercia sobre mim
uma paixão que justificasse lutar por mais horas desperta. Minha mãe dizia que
bastava por hoje, e essa era a senha para eu ir para o banheiro escovar os
dentes, o que eu fazia sem revolta, pois o mundo dos sonhos me parecia bem mais
divertido.
Hoje,
para conseguir fazer uma criança ir para a cama antes das 21h, só colocando
anestésico no nescau. A noite é delas. É quando elas podem conviver com o pai
e a mãe, que passam o dia inteiro trabalhando. É quando, finalmente, podem
brincar, já que passaram o dia na escola, na natação, na aula de inglês, na
terapia. E é quando assistem a televisao, que está ali mesmo na sala para quem
quiser ver.
Alterar
o horário de exibição de uma novela e retirar do elenco os menores de idade não
salvará a infância de nossos filhos. O mundo mudou. Está mais cru, menos romântico.
Mais urgente. Mais violento. Por outro lado, menos hipócrita, mais
transparente.
Com
a mudança do mundo, mudou a família, que hoje é formada por adultos mais
independentes e informados, que trocam mais facilmente de idéias e de pares. Se
mudaram os pais, mudaram também as crianças, que hoje são menos preservadas,
passaram a ser testemunhas da vida e dormem mais tarde. Ilusão nossa achar que
as novelas permaneceriam água-com-açúcar num mundo que se tornou tão mais
amargo.
Concordo
que alguns programas abusam. Quadros como o da banheira do Gugu e baixarias
estilo Ratinho não são ficção. Você não pode dizer para uma criança que
aquelas pessoas que se estapeiam em frente à câmera são atores e que aquele
homem grosseirão de bigode é o Tarcísio Meira disfarçado. Novela, ao contrário,
é uma história. Pode ser forte, exagerada, inconveniente, mas é uma história,
e criança é pós-graduada no assunto.
Os
nossos laços de família são mil vezes mais fortes que os da Helena e os da
Capitu. Nosso ibope é maior que o de todas as emissoras somadas. O que os pais
dizem e fazem é mais influenciador do que dizem e fazem os personagens criados
pelo autor Manoel Carlos. Televisão só é bicho-papão quando o pai e a mãe não
entram em cena.
O
que acontece dentro de casa é responsabilidade nossa. Estou certa de que as
crianças ainda preferem Pokemón a Laços de Família, mas se realmente
acreditamos que uma novela é capaz de dar um nó na cabecinha delas, então há
três saídas: ou a gente desliga a tevê, o que me parece radicalismo, ou a
gente assiste junto e dá as explicações devidas, o que as livraria de traumas
irreversíveis, ou manda a criançada pra cama mais cedo, o que eu pago pra ver.
Martha Medeiros
Publicitária e Escritora Gaúcha