Ter um filho ou ser mãe?

As questões relativas à infertilidade encontram na atualidade um lugar de destaque. Apesar de envolver uma problemática do casal, a mulher, instituída socioculturalmente como responsável pela procriação e a maternidade, sofre de forma mais contundente as conseqüências decorrentes do fato de não conseguir gerar naturalmente um filho.

Através de uma experiência clínica com a equipe médica do ambulatório de infertilidade da Divisão de reprodução Humana do Instituto de Ginecologia da UFRJ, no Rio de Janeiro, pode ser constatada que a fertilidade na mulher serve de suporte subjetivo para sua representação simbólica enquanto ser-mulher, e que a vivência da infertilidade, a apreende em suas garantias e ganhos no seu vir-a-ser feminino, comprometendo sua auto-imagem e sua auto-estima, assim como sua qualidade de vida como um todo.

Sem desconsiderar a importância do corpo biológico no processo da concepção, entendemos que a concepção, mais do que exigir um funcionamento anatomofisiológico (orgânico) harmonioso, encontra-se relacionada também a múltiplos fatores que se conjugam em uma trama subjetiva na qual, todas as respostas e explicações podem ser pertinentes, porém nenhuma delas contempla ou esgota toda a complexidade inerente à condição humana.

Assim, temos que a ocorrência da infertilidade feminina, não fica circunscrita apenas a fatores biológicos, ao saber e a atuação médica. Esta se encontra remetida também a aspectos subjetivos fundamentais que marcam a diferença da existência da pessoa e, mais especificamente da construção da mulher e o seu vir-a-ser no mundo.

Como bem ressalta o Dr. Paulo Olmos, especialista em reprodução assistida: 

 “Às vezes, parece que há algo subjacente ao problema da infertilidade (...). Mexer na infertilidade mobiliza emoções complexas. Cada um tem as suas culpas, as suas relações de causa e efeito. É tipo um purgatório”. (Zache, J. & Tarantino, M., 2000:10)

O cotidiano das mulheres que vivenciam a infertilidade é permeado por freqüentes e sucessivas frustrações no objetivo de engravidar, trazendo como conseqüência um permanente estado de ansiedade, angústia e expectativa que, muitas vezes, prejudicam sua vida sexual e conjugal.

Isto porque, a imposição sociocultural determina para a própria mulher o caráter anormal da não procriação, estando esta inscrita na vida da mulher desde o seu nascimento como um evento natural à sua condição de fêmea.

Frente à impossibilidade de gerar filhos, parece que todas as realizações, feitos e conquistas, pessoais e sociais da mulher sucumbem, não lhes servindo como referenciais para validar sua capacidade, condição e potência enquanto ser-mulher.  Mesmo que ela, por escolha ou opção, não queira ter filhos, a fertilidade, enquanto potencial de gerar um novo ser parece configurar-se como uma matriz sob a qual toda a representação subjetiva de sua condição de mulher está cunhada. Esta afirmativa pode ser ilustrada pelo caso de uma mulher que, optando conscientemente por não ter filhos, diante de uma situação, na qual parte de seu útero teve de ser retirado, comprometendo assim sua fertilidade, vivenciou uma crise, exatamente por não poder mais gerar filhos.

Assim, mais do que apontar uma falha biológica para a reprodução e/ou uma falta social que materializa um impedimento à procriação, a infertilidade feminina parece afetar um imaginário constituído na subjetividade da mulher, exigindo dela uma reconstrução psíquica que lhe dê a possibilidade de suportar o confronto com a falta de uma condição que já lhe era garantida enquanto sujeito-feminino, devendo, para tal, inaugurar respostas que possam fazer frente a esse impedimento.

A partir desta visão sobre a infertilidade feminina, criou-se um espaço de fala para a mulher que vivencia esta problemática. A experiência deste tipo de atuação no ambulatório de infertilidade mostrou que neste espaço, se fez emergir a conjugação de sentimentos, lembranças, demandas e queixas permitiram às mulheres uma reconstrução de suas histórias de vida, dando acesso, pela via da linguagem, ao aparecimento de uma trama atualizada transferencialmente das suas vivências cotidianas. E como ressalta TORT (2001), a palavra “é o único acesso que dispomos ao desejo de filho nas situações de infertilidade ou esterilidade, na medida em que a dimensão do inconsciente pode nela exprimir-se”. (p.179).

Este espaço, no qual as mulheres podiam falar livremente sobre aquilo que sentiam, pensavam ou imaginavam. Através destes encontros semanais era viabilizada, através da fala, um rearranjo, uma reconstrução psíquica, a qual possibilitava à mulher meios de suportar o confronto com a vivência de sua problemática, permitindo a inauguração de novas respostas que pudessem fazer frente ao impedimento gestacional que se apresentava.

Para exemplificar nosso trabalho cabe citar o caso de uma paciente que, com uma dupla obstrução tubária, via-se impotente em seu desejo de ser mãe. A adoção, era descartada como uma possibilidade de exercer a maternidade. Para ela seria a marca viva de sua impotência e fracasso como mulher. Porém, reconstruindo sua história de vida, pode descobrir o quanto ela já exercia, em sua forma de ser e de se relacionar uma maternagem, independentemente de nunca ter gerado um filho.

Meses após o término de nossos encontros, recebo uma ligação desta mulher dizendo o seguinte:

“Dra., tenho uma notícia..., ‘estou grávida’..., eu e meu marido resolvemos adotar um bebê, já estou comprando o enxoval, ele deve nascer mês que vem... É um menino. Estou tão ansiosa pra ver a carinha dele, pegar no colo... Acho que é isso mesmo, para ser mãe não é preciso que o neném saia de dentro da minha barriga, ele tem que sair do meu coração, e acho que ele sempre existiu, eu é que não sabia. A gente fica só escutando o que os outros dizem e acaba deixando de escutar o que tem dentro da gente. Obrigada, assim que nascer vou levar meu filho para te conhecer”. (M e S, casal com 32 e 33 anos respectivamente – 2002).   

Assim, devemos valorizar não apenas o desejo de ter um filho e seu impedimento no que diz respeito à possibilidade da maternidade “biológica” mas, sim, transcendendo esta delimitação do problema, considerar à maternidade para além dos restritos limites da biologia. Não basta engravidar e parir um filho para ser mãe.  

Jorgina Teixeira Lobo -  Psicóloga

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