Quem
ama, educa!
A ligação da mãe com o filho é tão
forte que supera a razão. Ela tende a perder um pouco a objetividade na hora
de avaliar o que a criança está fazendo por causa do “instinto” materno.
Dentre muitas espécies de mãe que existem, destaco dois tipos extremos:
* Superprotetoras: acham que tudo o que o filho faz é
maravilhoso; ele é a melhor criança do mundo. Os errados são os outros, a
escola, o mundo.
* Cobradoras: só reparam no que o filho faz de errado.
“Para os outros brigarem com você, é porque deve ter aprontado alguma,
como sempre”, diz essa mãe. Ela não agüenta ser criticada pelo que o
filho faz.
As superprotetoras correm maior risco que as cobradoras de não educar bem os
filhos.
As crianças precisam ser protegidas e cobradas de acordo com suas
necessidades e capacidades. Protegidas nas situações em que elas não
conseguem se defender e cobradas naquilo que estão aptas a fazer.
Geralmente a mãe abre mão da razão em defesa do filho, mas essa atitude
pode provocar muitos desarranjos no relacionamento. A criança se aproveita.
Sente-se liberada para cometer uma grande delinqüência, porque depois é só
agradar um pouco a mãe e nada acontece.
Todo delinqüente só vai em frente porque encontra o terreno livre e é um
sedutor. Mas, como tem total incapacidade de tomar conta da própria vida,
muito provavelmente será incapaz de ajudar outras pessoas, até mesmo a própria
mamãe quando ela se tornar uma velhinha.
O medo de traumatizar a criança às vezes é tão grande que acaba
traumatizando mais por falta de uma ação corretiva, responsabilizadora.
Há crianças que batem nas mães. Só fazem isso depois de xingar. E só
xingam depois de desobedecer. Quanto mais a criança for educada em seus
primeiros passos, maior será a eficiência da educação. Portanto, a mãe não
deveria permitir desobediência. Para isso, o maior segredo é a mãe obedecer
a seus próprios “nãos”. Significa que só deve proibir algo que ela
realmente possa sustentar, sem logo transformá-lo em “sim” ao menor
motivo.
A obediência fica garantida pelo respeito que a mãe exige do filho.
Defender-se dos maus tratos, inclusive vindos da criança, é um gesto
tremendamente educativo, além de ser ético e próprio de um verdadeiro cidadão.
A mulher precisa tomar muito cuidado para não transformar seu amor de mãe
numa doação que atropela o filho, em vez de educá-lo.
Educar dá trabalho, pois é preciso ouvir o filho antes de formar um
julgamento; prestar atenção em seus pedidos de socorro (nem sempre claros)
para ajudá-lo a tempo; identificar junto com o filho onde ele falhou, para
que possa aprender com o erro; ensiná-lo a assumir as conseqüências em
lugar de simplesmente castigá-lo, por mais fácil que seja; não resolver
pelo filho um problema que ele mesmo tenha capacidade de solucionar; não
assumir sozinho a responsabilidade pelo que o filho fez.
A omissão, que permite à criança fazer tudo o que tem vontade, ou a explosão
diante de qualquer deslize do filho, além de não educar, distorcem a
personalidade infantil, tornando a criança folgada (sem limites) ou sufocada
(entupida, reprimida, tímida). No futuro, ela poderá se revoltar quando for
contrariada ou tiver forças suficientes para se rebelar contra o opressor.
Portanto, é importante que os pais busquem ajuda quando não conseguem fazer
o que sabem que tem de ser feito.
O mundo é a realidade onde convivem o “sim” e o “não”. Tem crianças
que desconhecem o “não”. Tudo é permitido. E a permissividade não gera
um estado de poder. Essas crianças têm baixa auto-estima porque foram
regidos pela educação pelo prazer. Muitos pais acham que dar boa educação
é deixar o filho fazer o que tiver vontade, isto é, dar-lhe alegria e
prazer. Não é isso que cria a auto-estima.
O respeito à criança lhe ensina que ela é amada não pelo que faz ou tem,
mas pelo simples fato de existir. Sentindo-se amada, ela se sentirá segura
para realizar seus desejos. Portanto, deixá-la tentar, errar sem ser julgada,
ter seu próprio ritmo, descobrir coisas permite à criança perceber que
consegue realizar algumas conquistas. Falhar não significa uma catástrofe
afetiva. Assim, a criança vai desenvolvendo a auto-estima, grande responsável
por seu crescimento interno, e fortalecendo-se para ser feliz, mesmo que tenha
de enfrentar contrariedades.
O princípio educativo é que os filhos sejam pessoas felizes, e não
simplesmente alegres. A alegria é passageira e a capacidade de ser feliz deve
pertencer ao filho. O prazer do “sim” é muito mais verdadeiro e
construtivo quando existe o “não”.
Crianças gostam de um elogio merecido, pois esse é o verdadeiro alimento da
auto-estima. Elogiar gratuitamente desvaloriza a pessoa.
Aprovar tudo o que a criança faz ensina-lhe que quem a ama satisfaz todas as
suas vontades. Mas a própria vida vai se encarregar de contrariá-la. Nunca
poder é ruim, mas poder sempre também não é bom. O “sim” só faz
sentido se existe o “não”.
Saber a diferença entre “sim” e “não” confere à criança poder de
decisão sobre suas escolhas, poder que alimenta sua auto-estima. Portanto, não
são o “não” e nem o “sim” que traumatizam a criança, mas o mau uso
deles.
Não é o “sim” que alimenta a auto-estima nem o “não” que a
enfraquece. O que deixa a criança feliz é o saudável poder de decisão
entre o “sim” e o “não” que ela desenvolve.
Quem não tem limites sofre pelo que não tem, pois acha sempre que poderia
ter mais. A criança que desrespeita o “não” da mãe ou do pai tende a
desrespeitar o “não” de outras pessoas. Além do mais, desenvolve a
incapacidade de se controlar, isto é, não consegue dizer “não” a si
mesma.
A criança que costuma desacatar o “não” torna-se voluntariosa,
impulsiva, instável, imediatista e intolerante, prejudicando os outros e também
a si própria. Sua personalidade fica tão frágil que não suporta ser
contrariada. Daí insistir, teimar, fazer birras e chantagens para conseguir o
que quer.
É uma criança infeliz, pois nunca fica satisfeita. Despreza logo o que
custou tanto a conseguir. O brinquedo que ela “mais queria na vida” é
jogado fora sem remorso. Em seguida volta a usar o esquema que todos conhecem
para obter outro “sonho da sua vida”. É assim que os pais criam as “crioncinhas”,
que depois se transformam em “aborrecentes” não só em casa mas também
na escola e na sociedade.
Muitos pais acreditam que seu filho jamais usará drogas, porque recebe muito
amor. Mas só amor não educa. O que educa é deixar a criança assumir, desde
pequena, a responsabilidade pelo que faz.
Educar é uma obra-prima, uma obra realmente artesanal, cujo resultado é a
futura felicidade dos filhos e de todos a sua volta.
Lembre-se: A auto-estima é a principal base para encontrar um bom lugar no
mundo.
Adaptação do
livro “Quem ama, educa!”, de Içami Tiba, da Editora Gente.