GENTE PEQUENA

Pois é mãe, eu sei que você também fica confusa. Mas acredite, gente pequena também sofre, quer entender. Você me proíbe de mexer nas suas coisas, nas suas gavetas, de tocar seus objetos preciosos. Mãe, você mexe nos meus brinquedos, você joga fora muitos dos meus tesouros, dizendo que são porcarias...porcarias? As minhas folhinhas secas que levei tanto tempo colecionando pra dar pra você! Sabe mãe, eu aceitei não ter você toda para mim, divido com o papai, divido com a irmã...com o mundo, não me condene quando faço cenas de ciúme, você não tem ciúme do papai? Não revele meus segredos, não ridicularize meus deveres escolares ou minhas brincadeiras; você não gosta de ser ridicularizada. Não me diga que sou preguiçoso nem use rótulos definitivos; eu posso me convencer disso, agir de acordo com esses rótulos e deixá-la sem querer, ainda mais irritada. Não me chame de incapaz, mesmo sutilmente, ao me obrigar a fazer o que você não faz, a comer o que você não come, a entender o que você não entende!

    Ah, mamãe querida, você vê...a vida inteira é pequena para a gente dizer o que sente. Meu coração é cheio de perguntas, que se misturam com medos, remorsos, vergonhas, nem sei que ordem. É um esforço que faço, cada dia, para me integrar nesse universo ainda caótico para mim. Não me diga mamãe, a todo instante, que estou falando muito, se alguma coisa for importante para você, fale comigo de um jeito que eu entenda. Explique com calma porque sou obrigado a comer beterraba e o papai não! Porque devo ir para a cama e você não, porque vocês podem gritar comigo, me bater, invadir meu quarto - isso tem explicação? Eu não posso, não devo fazer o mesmo com você. Convença-me mesmo das coisas absurdas, com doçura, deixando-me tempo para falar também. Ouça a minha voz. Não me deixe com essa idéia de ter vindo de outro planeta. Eu quero acertar no aprendizado da vida. Talvez não me torne o filho com que você sonhou, mas dentro dos meus limites, com sua ajuda e seu respeito, posso dar o melhor de mim. 

    Com todo meu respeito, seu (sua) filho (a).

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