
TIA DITA
No dia da eleição, um bebê foi abandonado na Vila Santo
Agostinho, na zona norte da Capital. Fui informado da ocorrência
por uma parente que mora naquelas bandas da cidade, passei a
pauta para o jornal e esqueci o assunto, pois, infelizmente,
episódios deste tipo são rotineiros no dia-a-dia de um
jornalista. Tanto é assim que, no jornal da manhã seguinte,
saiu apenas uma notinha pequena num canto de página, informando
que o menino encontrado no gramado de um prédio tinha
aproximadamente três meses de idade, era moreno de olhos claros
e vestia um tip-top verde. Dizia ainda que a criança fora
encaminhada a um abrigo especializado e que, caso os pais não
fossem localizados, o Juizado da Infância e da Juventude poderia
autorizar uma adoção.
Por que entregar o filho em adoção? era o título de uma
reportagem que eu havia lido no dia anterior. Intrigada com esta
questão, uma psicóloga paulista fez uma cuidadosa pesquisa com
mães, instituições sociais e juízes, elaborando um trabalho
de mais de 400 páginas denominado sugestivamente de Bendito Seja
o Fruto de vosso Ventre. A pesquisadora acabou chegando a uma
inacreditável conclusão: muitas vezes, as mães dão os filhos
por amor.
Sei que é difícil de acreditar, mas o relato das mães que a
sociedade considera desnaturadas é quase tão comovente quanto
encontrar um bebê de tip-top verde chorando de fome. Afirma a
psicóloga que essas mulheres desesperadas por não terem
condições para criar os filhos tentam iludir o próprio
coração com reações instintivas, como não olhar para o bebê
depois do nascimento, nem pronunciar o seu nome na hora de
confirmar a entrega. Ainda assim, desestruturam-se emocionalmente
e entram numa espécie de luto não-reconhecido pela sociedade.
Fico imaginando que o abandono, da forma como ocorreu com o
moreninho de olhos claros, deve ser uma decisão ainda mais
dolorosa. Que tortura deve ser dar as costas para uma criaturinha
indefesa, sem saber que destino terá! A que aflição extrema
terá chegado uma mãe para tomar tal atitude?
Mas nem todas as notícias sobre a infância são dramáticas.
Casais brasileiros, a exemplo do que já fazem há mais tempo os
europeus, começam a adotar crianças com problemas físicos e
mentais, em vez de entrar comodamente na fila das loirinhas de
olhos azuis. Mais: multiplicam-se as mães coletivas. O mesmo
jornal que trazia a reportagem sobre doações contava a
história de Tia Dita, uma mulher pobre que trabalha como
doméstica na periferia da capital paulista e que, aos 51 anos,
já criou 32 filhos, dois naturais, os outros todos deixados com
ela por mães desestruturadas. Ao ler uma declaração de Tia
Dita sobre a sua anônima obra, minha angústia dissipou-se:
Fico com dó. Quando o bebê tá bem cuidadinho, as mães
já têm juízo e estão com a casa montada, dou de volta.
Se o abandono é amor, como definir isso?
Nilson Souza
Jornalista Gaúcho do Jornal Zero Hora