
PARA
MINHA FILHA QUE JÁ "VOA" SOZINHA
"Não sou escritor, sou apenas um médico. Mas sinto tanto
tua falta, filha, enquanto viajas, que resolvi te escrever.
Dezoito anos atrás, eu era um menino de 23 anos, estudante de
Medicina, recém-casado e cheio de incertezas. Com nove meses de
casados, tua mãe ficou grávida. Foi um choque para mim. Nossos
planos não incluíam um bebê tão cedo. Eu nem sabia ser marido
e já precisava ser pai.
À medida em que a barriga crescia, cresciam minhas
preocupações. Tinha medo de não ser bom pai, de não poder
sustentar a família, de não saber te amar, ou segurar, ou dar
banho. Tive todos os tipos de medo. Quando chutavas minha mão,
eu sabia que tinhas forças, e me perguntava se também teria.
Quantas incertezas...
Depois, a noite em que vieste ao mundo. Quando o médico disse
que precisaria fazer uma cesárea, senão não sobreviverias,
chorei de medo. Mas aí, então, tive uma certeza: eu queria ser
teu pai, teria forças para te proteger, mas precisavas viver
para eu te provar isso. Rezei então uma prece, inventada por um
coração apertado de medo de te perder. Deus precisava me ouvir,
mas já fazia tanto tempo que eu não falava com Ele! Assim
mesmo, ousei pedir. Ele me ouviu.
Te achei tão linda. A mais linda das crianças que já vira. E,
daí para a frente, comecei meu aprendizado de pai.
Foram tantas as descobertas, prazeres, angústias, preocupações
e orgulhos. Não pensei que um ser tão pequenino me ensinasse
tantas coisas a maioria, sobre mim mesmo. Quando me
chamaste de pai pela primeira vez, teus primeiros passos, tua
presença na minha formatura, teu primeiro dia de escola: todas
essas emoções estão gravadas no meu peito.
E os primeiros boletins, as doenças, a primeira bicicleta, o
primeiro tombo, as primeiras desilusões, tua atitude quando
soubeste que ias ter uma irmãzinha. Pude então te ajudar nos
teus medos, pois um dia já tinha vencido os meus. Nossas
primeiras brigas.
Teu primeiro amor... meu primeiro ciúme. Tuas formaturas e,
agora, teu desejo de cursar Medicina, como eu meu maior
orgulho. Tua primeira ausência, a primeira aventura sem mim: ver
os Estados Unidos pela mão dos avós. Como custou a passar o
tempo! Aprender a dividir, a deixar ir, não é fácil.
Quando chegaste, com quinze anos, já eras uma mocinha. Eu ia
fazer quarenta e tu ainda me ensinavas. Teu primeiro namorado,
dez anos mais velho, foi outra dessas lições. Tiveste que me
ensinar a confiar em ti, nos valores que eu mesmo te ensinei.
Teus dezoito anos chegaram tão depressa. Parece que foi ontem
que rezei por ti, na maternidade. Sinto-me feliz pela tua
educação. Penso que tua mãe e eu acertamos. És nossa amiga e
nosso relacionamento é melhor do que o que tivemos com nossos
pais. Eles fizeram o melhor, dentro da geração deles, e
plantaram a semente para que pudéssemos fazer mais.
Agora foste para a Europa, para depois retomar o esforço para
passar no vestibular. Estás com teu namorado, amigo e cúmplice
nessa aventura. Sinto tua falta, mas sei que estás feliz. Eu te
criei para o mundo e estás dando teu primeiro vôo
"solo". Ainda assim me preocupo, sabendo que não estou
aí para te proteger. Ainda não me sinto preparado para não me
preocupar, para não sofrer.
Filha querida, tenhas paciência com este pai "de primeira
viagem". O ditado certo deveria ser: "Pais criados,
trabalhos dobrados." Voltes logo para continuar a me ensinar
a melhor forma de te amar."
Walter Pasqualin
de Campos, de Porto Alegre, RS
Médico