O
MELHOR PRESENTE
Fitas de vídeo, cd-roms, bonecas, livros, roupas: criança
adora receber presente, e não raro interessa-se mais pelo pacote do que pelo
conteúdo. Criança nasceu recebendo: a vida, o peito, a atenção. Desenvolve
tendências egoístas e custa um pouco a repartir, até que acaba aprendendo que
o mundo não gira em torno de si. Mas segue pedindo, pra não perder o hábito:
quer o disco do ET & Rodolfo, quer um cachorrinho, quer a sandália da Angélica,
quer a sua Caloi. Conforme o poder aquisitivo dos pais, levam. Mas no dia-a-dia
o que as crianças mais precisam sai de graça e pode-se fabricar em casa:
respostas.
Há uma corrente de pensamento por aí divulgando uma idéia inquietante: a de
que a influência dos pais na formação dos filhos é mínima. Nossos filhos
seriam fruto apenas da herança genética e das experiências que dividem com os
amigos. Pai e mãe serviriam apenas para pagar as passagens para a Disney.
Trafego pelos dois universos, o de mãe e o de filha, e acho essa teoria um
convite ao "lavemos as mãos". Educar filhos é uma tarefa estressante
e ininterrupta. Muitos pais acham que basta ensinar-lhes as quatro palavrinhas mágicas
– por favor, obrigado, com licença e desculpa- e do resto a Internet se
encarrega. Mas que resto?
Os ídolos do seu filho são o Ratinho e a Carla Perez. Ele vê um tal Rafael,
ex-artista, roubar para comprar drogas e com isso voltar ao estrelato. Seu filho
brinca no computador sem desconfiar que outros meninos da idade dele não têm
luz elétrica em casa. Seu filho quer saber se aborto é nome de ilha, se sexo
é doce ou salgado e em que banda a Monica Lewinsky toca. Seu filho tem olhos,
ouvidos e, lá dentro, neurônios. Ele sabe que a vida é o nosso brinquedo
favorito e está louco para aprender a jogar.
As regras desse jogo são complicadas, e deixar que elas sejam ensinadas pelo
destino, e só por ele, é um descompromisso imperdoável dos pais. Achar que
nosso exemplo não serve pra nada, que nossas palavras serão sempre
questionadas e que nossa severidade será confundida com desamor tem servido de
justificativa para abandoná-los à própria sorte. Seria muito prático se
nossos filhos fossem movidos à corda ou obedecessem a um controle remoto,
podendo ser desligados quando estivéssemos cansados. Mas eles são pessoas de
verdade, curiosas e apreensivas. Para eles não existe assunto proibido, a menos
que a censura familiar seja instaurada. Suas intermináveis perguntas merecem
respostas claras e orientadoras, sem preguiça de nossa parte. A vida é um jogo
cheio de macetes: tem vezes em que a gente avança duas casas, tem vezes em que
se é obrigado a voltar ao ponto de partida, tem hora que não se quer mais
brincar. É difícil e não dura pra sempre, portanto, antes que eles dominem as
regras, é bom não deixá-los jogando sozinhos. A vida é o único brinquedo
que eles não podem estragar.
Martha Medeiros
Publicitária e Escritora Gaúcha