Oi, meu nome é Luka, sou um menino de apenas dez dias de vida, mas tenho um  monte de coisas pra contar. Tem história do meu nascimento, tem coisa pra contar do dia em que eu recebi alta do hospital e vim pra casa e muitas outras coisinhas. Mas eu tenho que contar a minha história desde o começo, e essa parte é sobre a mamãe e o papai.

          Minha mamãe se chama Karina. Ela sempre foi uma garota muito divertida e alegre, sempre gostou de conhecer pessoas, falar com todo mundo, e com a modernidade dos tempos ela conheceu a internet e as salas de bate-papo. Ela adorava conhecer as pessoas e fazer amizades com pessoas do mundo inteiro, ela diz que era viciada, que não passava um dia sem se conectar e poder conversar com os amigos virtuais, dos quais eram muito poucos os que ela conhecia pessoalmente. E um dia ela conheceu um rapaz que dizia que morava em Gunma e que aparecia raramente nas salas de bate-papo. Ela sempre achou ele muito simpático e educado, apesar de não conhecê-lo direito. Mas sempre que se encontravam se cumprimentavam e conversavam "sobre o tempo". E o tempo foi passando e minha mamãe conhecendo mais gente. Até que num show em que ela tinha combinado ir assistir com os amigos virtuais ela viu meu papai. Mas não pensem que foi amor à primeira vista não. Foi bem diferente. Deixa eu antes contar sobre meu papai.

       Meu papai se chama Luiz Fernando. A mamãe sempre me dizia enquanto eu estava na barriga dela que ele era uma pessoa legal, boa e sensível. Então, desde dentro da barriga eu já tinha me decidido que assim que eu nascesse eu queria ser como ele. Gostar das mesmas coisas pra poder fazer tudo com ele. Bom, quanto a gosto musical meu pai já está me encaminhando. Coloca sempre alguma coisa decente pra eu ouvir em casa ou no carro. Meu pai curte metal, e meu avô sempre provoca chamando ele de "cabeludo", mas quando eu crescer também vou ter cabelo comprido, como meu pai. Sempre que eu procuro ele, deitado do meu bercinho, eu vejo ele no computador, a mamãe me contou que ele gosta de ficar procurando, descobrindo as coisas, que meu pai é muito inteligente e curioso. E foi usando o computador que meu pai conheceu a minha mãe virtualmente, porque pessoalmente foi um desastre. Deixa eu contar.

         O show em que eles se encontraram foi numa disco, e estava lotado de gente. Meu pai estava lá com a irmã dele, a tia Anny e com uns amigos dela, quase todo mundo internauta também. E a mamãe e os amigos dela chegaram pra ficar com eles, afinal, também eram internautas. Mas ninguém apresentou um ao outro, e eles também nem imaginaram que um era outro. E ficaram lá curtindo o show, até que a mamãe começou a ficar nervosa com um cabeludo chato que ficava dançando na frente dela, jogando o cabelo no rosto dela e pisando no seu pé. Ela estava quase xingando o cara, mas como todo mundo aqui em casa é contra a violência, não deu em nada e todo mundo voltou direitinho pra casa depois do show.

        Na semana seguinte é que contaram pra mamãe que aquele "cabeludo chato" era o rapaz de Gunma. Quando se encontraram a mamãe xingou ele tanto que ele ficou tão sem graça que pediu o número do telefone dela pra pedir desculpas. Daí começou a amizade, que pro romance foi um pulinho. A mamãe e o papai foram feitos um para o outro. Depois de se encontrarem e se conhecerem de verdade rolou muita coisa e no fim eles se separaram. Eles até tentaram namorar outras pessoas, mas depois de oito meses eles estavam juntos de novo, e desta vez pra sempre. Logo a mamãe veio morar com o papai, dando um susto na vovó e no vovô. Todos achavam que era loucura eles morarem juntos, mas eles tinham decidido não se perderem mais.

         Desde o início meu pai queria que eu aparecesse na vida deles, mas mamãe achava cedo. Então no Natal (dia do aniversário do papai), a mamãe decidiu que já era hora de encomendar um presente pro papai, eu no caso. Parou de tomar remédio e ficou só esperando, mas nada acontecia. A mamãe já estava ficando paranóica com a história até que ela conseguiu engravidar. Ela ficou tão feliz! O papai ficou meio perdido, meio bobo. Mas coitadinho do bebê, morreu com apenas alguns dias. A mamãe ficou arrasada e o papai super preocupado com o estado da mamãe. Mas eles superaram todos os problemas e alguns dias depois estavam me encomendando. A mamãe diz que lembra direitinho da noite em que eles me fizeram, mas o papai não acredita muito não. No feriado de verão eles iam pra praia, mas mamãe estava um pouco enjoada e muito ansiosa, no fundo ela já sabia que eu estava a caminho. Compraram um teste na farmácia e fizeram durante a viagem mesmo. Quando a mamãe voltou pro carro, com aquele sorriso enorme no rosto, o papai sacou na hora, e ficaram muito felizes, fazendo mil planos. E lá estava eu, crescendo dentro da barriga da mamãe. Ela me conta que se sentiu sozinha e insegura durante a gravidez, que sentia que o papai estava distante da gente. Eu não percebi nada, mas notei quando estava chegando a hora do meu nascimento que o papai ficou muito mais atencioso com a mamãe e muito mais presente. Eu podia sentir a mamãe mais calma e segura. Papai, obrigado por ter feito a mamãe feliz tá!

          E foi nesse clima de felicidade que eu resolvi nascer. Todo mundo não parava de ligar pra mamãe perguntando se nascia ou não. É que estava tão quentinho dentro da barriga da mamãe que eu não queria sair de lá, mas a curiosidade era enorme, de poder conhecer a minha família, conhecer o sabor das coisas, as sensações que a vida aqui fora proporciona. Só esperei meu pai voltar do show que ele queria tanto ir pra dar sinais da minha vinda. A mamãe ficou com dores durante um dia e uma noite, e só no outro dia, de manhãzinha é que eu resolvi nascer mesmo. Foi uma grande alegria pra mamãe e pro papai. Ele ficou com a mamãe desde o início até o final, ajudando, incentivando, acariciando. E a minha primeira foto foi tirada no colo do meu paizão.

          Depois que nasci eu fiquei 6 dias no hospital, só com a mamãe, e sempre que o papai aparecia por lá eu estava dormindo. No dia em que eu vim pra casa, a mamãe foi fazer compras e me deixou com meu pai. A mamãe diz que dava pra ouvir os meus gritos da esquina! Coitado do papai, não sabia o que fazer. E eu estava assustado, não conhecia a casa, o colo dele. Aprontei o maior berreiro. Mas assim que a mamãe chegou eu me acalmei. Hoje eu estou com dez dias. Passo o dia inteiro dormindo no meu bercinho, sonhando com a minha próxima mamada. Já acostumei com o colinho do papai. Ele até me dá mamadeira quando a mamãe não está por perto. O papai diz que, quando eu crescer vou ser guitarrista, porque eu tenho os dedos da mão compridos. Já a mamãe diz que eu vou ser cantor, porque fico o dia inteiro cantando no berço. No fundo eu sei que eles querem que eu seja sadio, esperto e feliz. Espero atender as expectativas de todos. Mas podem ter certeza de uma coisa, sempre vou me lembrar o quanto fui querido e esperado por todos.

                                                                                   
                                                                                        Karina, mãe de Luka
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