/ X/ Turma da Fuzarca / X/
n.41 - 02/01/2001
/+/ A FINAL SEM FINAL!!!
(cena 1: antes)
Quinta-feira, dia 27/12/2000, 11:30hs. Lá estava eu no final da gigantesca fila em São Januário para comprar os ingressos para a decisão do Campeonato Brasileiro. Era o início do que eu imaginava que seria, finalmente, a realização de um sonho antigo: ver o VASCO ser campeão brasileiro no nosso maravilhoso estádio. Desmarquei todos os compromissos e lá fui aguardar a minha vez debaixo daquele sol escaldante. Mais de mil vascaínos na minha frente. Todo mundo entusiasmado. E entre um e outro gole d'água o assunto não poderia ser outro: o empate de 1x1 na noite anterior contra o modesto São Caetano que nos colocava com a mão na taça. Otimismo geral. Entretanto, quanto mais a fila andava e mais o sol fritava as nossas cabeças, outro assunto começava a tomar conta das discussões: a liberação do Edmundo pelo Santos e o seu possível retorno ao VASCO. E, para minha surpresa e decepção, a esmagadora maioria dos presentes ao meu redor era favorável a volta imediata do Edmundo e a expulsão do "flamenguista" Romário do clube. Ainda tentei argumentar que este "flamenguista" nos deu o título da Mercosul há uma semana atrás mas foi em vão. Eu era minoria. Não imaginava que houvessem tantos vascaínos contrários ao Baixinho mesmo ele estando fazendo um caminhão de gols pra nossa alegria. Os ânimos então começaram a ficar tão quentes quanto o sol e eu resolvi me calar até mesmo para não sair dali todo quebrado direto para o hospital e acabar sem dente e sem ingresso. Às 14:30hs (três horas depois) finalmente chegou a minha vez. Segunda decepção: os ingressos aumentaram, agora custavam R$ 15,00. Apesar da surpresa de última hora acabei concordando que era a medida mais acertada até mesmo para reduzir um pouco a demanda, só que não custava nada isto ter sido anunciado antes. Comprei e, ao chegar em casa, comentei com os amigos internautas das listas de discussão Casaca e Vasconet esta minha surpresa ao ver uma grande quantidade de "anti-Romário" (ou viúvas do Edmundo) na fila. Eu não sou Romário nem Edmundo, sou VASCO. O que me interessa é quem veste a nossa camisa, o resto não importa.
(cena 2: durante)
Sábado, 30/12/2000, 13:30hs. Apesar do início do jogo ser somente às 16:00hs, o trânsito já estava totalmente parado nas intermediações do estádio. Era carro que não acabava mais como há muito tempo não se via, ainda mais num horário desses. Acabei estacionando a quase um quilômetro de distância e fui andando. Centenas de cambistas no caminho oferecendo ingressos que variavam de R$20,00 a R$50,00 e mais centenas de torcedores sem ingresso pechinchando desesperadamente. E, como se não bastassem os ingressos que sobravam nas mãos dos cambistas, mal eu poderia imaginar que até mesmo sem ingresso qualquer um poderia entrar. Bastava dar R$10,00 ou até mesmo R$ 5,00 nas mãos dos caras que controlavam as roletas na entrada das arquibancadas que você tinha direito a pular a roleta e participar da festa. Uma vergonha, um crime e uma aula de irresponsabilidade numa tacada só pois, se os ingressos já estavam esgotados, não era para entrar mais ninguém pois o estádio não comporta estes bicões a mais. Mas a irresponsabilidade e a oportunidade dos roleteiros faturarem um "troco fácil" aliada a irresponsabilidade desses torcedores que se sujeitaram a isto para ficarem espremidos como sardinhas em lata lá na arquibancada acabou falando mais alto e eu acho que, quem estava na rua antes do jogo começar, mesmo sem ingresso, só ficou de fora porque quis ou não tinha R$5,00. Um verdadeiro absurdo e falta de respeito com todos aqueles que encararam as filas na véspera para conseguir o seu ingresso.
Mas lá dentro tudo era festa, muitas crianças, famílias inteiras, mulheres em profusão, balões, cornetas, faixas, bandeiras, bandeirões e bandeirinhas colorindo de preto e branco a nossa casa. Às 14:30hs o estádio já estava praticamente lotado e cada vez chegava mais gente. O sol também estava implacável e eu acabei ficando no meu lugar "da sorte", sem aperto, lá no alto atrás do gol, onde é sempre sombra e de vez em quando bate uma brisa agradável. Era a hora de relaxar e aguardar o início do jogo.
A bola rola e o São Caetano parte com tudo pra cima do VASCO mas esbarra, mais uma vez, no nosso excepcional goleiro Hélton que impediu por duas vezes, no mesmo lance, um "gol feito" do Adhemar. O VASCO atacava pouco mas tinha o domínio defensivo do jogo já que, em 23 minutos, esta foi a única chance real do São Caetano. Estava fácil para o VASCO, era só apertar um pouquinho que o nosso gol era questão de tempo. Mas nem deu tempo pra isso. Bastou ali por volta dos 20 minutos do primeiro tempo o Romário , maior artilheiro do planeta Terra em 2000, sentir uma fisgada na coxa e sinalizar para o Joel substituí-lo que São Januário começou a virar um caldeirão de "bate-bocas". O Viola entra e, enquanto o Romário vai caminhando mancando em direção ao túnel, a torcida na arquibancada se dividiu e começou a pipocar novamente aquelas mesmas discussões que eu havia ouvido na fila na quinta-feira passada. "Tá vendo, Romário é flamenguista... se fosse o Edmundo em campo...", foi a frase que mais ouvi... e não era de um cara só!!! Parecia que o jogo não tinha mais importância. As "viúvas do Edmundo" não calavam a boca, como se o Edmundo fosse resolver o problema naquele instante (aliás, ele até teve a oportunidade de ter resolvido em outros jogos mas não quis...) e as discussões continuaram. Bastou o Romário ter descido para o vestiário (a entrada fica ali embaixo de onde fica a torcida Força Jovem) para se ouvir um misto de palmas e vaias vindas daquele canto do estádio. Foi a gota d'água. Se no resto do estádio onde eram só famílias o clima já estava tenso e muita gente quase chegou às vias de fato, ali na Força Jovem então, onde qualquer tipo de contra-argumentação é normalmente seguida de um soco na cara devido a enorme concentração de notórios "valentões", não podia dar outra coisa. Uma "viúva do Edmundo" deve ter chamado um "Romarista" de flamenguista e aí o tempo fechou de vez já que um deles puxou (pasmem) um revólver no meio da torcida e aí o pânico foi geral. (Aliás, é impressionante como com tanta PM fazendo a segurança e a revista do estádio deixam entrar um sujeito armado para por em risco milhares de vidas.) Normalmente no meio das torcidas organizadas é onde fica um número muito mais concentrado de torcedores já que eles assistem ao jogo em pé e, onde deveria estar sentada uma pessoa comum, cabem, no mínimo, 4 em pé. Ainda mais numa final. Então, logo depois que o sujeito sacou a arma todo mundo em volta resolveu, óbvio, correr pra longe daquele local para não tomar uma bala perdida. Mas como ali havia muita gente concentrada, os que estavam embaixo dos dois valentões quando começaram a pular em pânico pro degrau de baixo, acabaram tropeçando e literalmente se "amontoando" nos que estavam mais abaixo. Foi como se fossem pedras de dominó caindo umas por cima das outras em direção ao alambrado. Até que chegou num ponto em que a pressão foi tão grande que o alambrado não resistiu a pressão e arrebentou, jogando dezenas de pessoas dentro do gramado. Aliás, se o alambrado não tivesse arrebentado com certeza dezenas de pessoas iriam morrer ali esmagadas pois este "efeito dominó" ocorreu DE CIMA PRA BAIXO (as pessoas tropeçaram na parte alta da arquibancada e caíram por cima das outras até arrebentar o alambrado) e não de baixo pra cima (o alambrado arrebentou e as pessoas caíram) como a FLAPRESS vai divulgando insistentemente por aí. O jogo então foi interrompido devido às dezenas de feridos que começavam a entrar no campo.
Numa verdadeira operação de guerra, em minutos se montou um esquema para socorrer os feridos mais graves ainda no gramado e os outros foram enviados para os quiosques improvisados atrás das arquibancadas próximo aos campos de grama sintética. Dezenas de ambulâncias invadiram o gramado para recolher os feridos assim como vários helicópteros pousaram no gramado para fazer a remoção. O Batalhão de Choque "fechou" numa barreira humana aquele trecho de arquibancada sem grade e o Major Braga, Comandante do Grupamento Especial para Policiamento de Estádios, após inspecionar o local autorizou o reinício da partida pois, segundo ele que era a autoridade máxima de segurança no local, havia condições para isso. Então todos começaram a tratar de evacuar do campo os curiosos e acabar de remover os últimos feridos para a partida reiniciar.
Tudo pronto e em segurança para o reinício do jogo e eis que, após 1:10hs depois do acidente, exatamente às 17:45hs o Governador Garotinho manda suspender o jogo e aumenta a tensão de todos os presentes no estádio. Felizmente a torcida se comportou bem e não resolveu invadir o campo ou protestar de forma violenta. Agora o mais curioso disso tudo é que o Governador só foi interferir (segundo as pessoas que viram o jogo pela tv Globo) DEPOIS que o Galvão Bueno começou a clamar pelo não-reinício do jogo em nome do "bom senso". E ele, como não perde uma, ainda mais depois do crime do ônibus 174, foi logo metendo o bedelho e suspendendo o jogo para se transformar em "herói nacional". Curioso mesmo é que o acidente foi por volta das 16: 35hs... e a decisão só foi tomada às 17:45hs (horário em que normalmente o jogo deveria estar acabando para começar as novelas). Pergunta: por quê a decisão só foi tomada UMA HORA depois mesmo depois do Major ter autorizado por volta das 17:00hs que o jogo poderia recomeçar depois da chegada do reforço do BOPE??? Não seria de "bom senso" cancelar logo tudo ali mesmo antes das 17:00hs e evitar que mais policiais e bombeiros fossem para o estádio à toa deixando outras áreas da cidade sem suporte??? Sinceramente, é muita coincidência... Conta outra, Governador!!!
(cena 3: depois)
Partida suspensa (não vou nem comentar aquela volta olímpica ridícula que eu tive o desprazer de ver), metade da torcida saiu gritando "Tetra-campeão", a outra metade saiu calada. A grande verdade é que não havia clima para comemoração pois parece que ficou todo mundo com aquele "gosto de guarda-chuva na boca" não só pelos nossos "irmãos vascaínos" que saíram feridos (felizmente ninguém morreu) mas também porque todos tinham a certeza que o título seria conquistado no campo se não tivessem aparecido "ordens superiores" OPORTUNISTAS para colocar de vez água no chope da galera.
Que fique então a lição: enquanto a PM não fizer uma revista adequada na entrada dos estádios, ainda veremos por muito tempo em TODOS os estádios brasileiros essas pessoas mal-intencionadas entrando armadas e pondo em risco a vida de milhares de pessoas. Infelizmente. E enquanto os torcedores vascaínos que forem aos estádios não torcerem única e exclusivamente para o VASCO, periga daqui a pouco vermos as mesmas cenas de selvageria tão comuns na torcida do Flamengo.
(cena 4: e agora?)
Com o jogo suspenso, agora não temos mais datas disponíveis para a realização de uma nova partida, o que na minha opinião seria o correto. O VASCO, aliás, até já deu férias para os seus jogadores e o São Caetano já vendeu o time inteiro. Dessa maneira, o Clube dos 13 deve tomar a decisão política (e ridícula) de dar o título para os dois a não ser que os advogados do São Caetano consigam provar que a culpa pela paralisação do jogo foi do VASCO. Nesse caso, o São Caetano é que seria declarado o vencedor pelo placar de 1x0. Mas até esta hipótese eu acho difícil já que o jogo iria ser reiniciado sem maiores problemas; ou seja, não foi o acidente que acabou com o jogo, mas ele foi "determinante" para que uma instância superior que nada tem com o jogo (o Governador do RJ) fizesse o cancelamento para posar de herói. Assim, acredito que os dois serão declarados campeões mas como o VASCO é da primeira divisão, será ele quem ficará com o primeiro lugar até mesmo para definir as chaves para a disputa da Libertadores da América.
EM TEMPO: nos dois únicos campeonatos organizados pelo Clube dos 13 não houve um campeão definido no campo. Vão ser ruins assim lá na Conchinchina!!!
E DÁ-LHE VASCO!!!