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n.23 ano III - 01/10/2002

(próxima edição: 08/10/2002)

 

/+/ VALDIVINO!!!

 

"Somente um cara com muita coragem pode chegar numa terra de flamenguista e dizer que é vascaíno." (Luís Inácio "Lula" da Silva, candidato à presidência da República, na coletiva de imprensa após o comício realizado em Botafogo (RJ) no último dia 25, quando fez questão de frisar junto ao público que "estava em Botafogo mas era Vascaíno")

 

Já dizia o velho sábio chinês que "as mães têm sempre razão". Sim, porque haja o que houver, não vale a pena nunca discutir com esses verdadeiros seres mitológicos da criação porque elas, como possuem o dom divino de enxergar o futuro pra preservar o presente, num piscar de olhos já sabem de cor e salteado o que vai ocorrer. E não adianta discutir porque o final da história é sempre o mesmo: o sujeito, que insiste sempre em fazer o contrário da sábia orientação, com cara de tacho ouvindo por horas a fio o tradicional "não te disse?".

 

Por isso até estranhei que no domingo, após colocar a camisa cruzmaltina para o tradicional almoço com a família, minha mãe não tenha falado o já tradicional "vai lá se estressar de novo"? Fiquei encucado. Ninguém, e principalmente uma mãe, conseguem ficar indiferentes a ver alguém, em qualquer lugar da galáxia, com a camisa de um clube de futebol prestes a partir pra um estádio. Inclusive meu pai, quando reparou no fato, imediatamente abriu o verbo com aquela vasta coleção de "tu é maluco" & frases afins, xingando do presidente ao faxineiro do clube, mas a minha mãe permanecia na dela, só olhando.

 

Curioso, entre uma sobremesa e outra, pedi um tempo pro meu pai e perguntei pra ela: "E o Bigode, será "O" terror ou "UM" terror"? Ela riu e mandou a sentença fatal: "pelo menos agora o VASCO tem um matador de verdade que é a cara do clube". Verdade. Se o VASCO sempre foi um clube mestiço, guerreiro e suburbano, o "anti-marketing" de tão low-profile que é, onde os torcedores até hoje são tachados de "brega" pela pseudo-elite-zona-sul, nada mais pra personificar com tanta propriedade e riqueza de detalhes esse ar suburbano, guerreiro e brega do que a figura do Valdir. Sim, a começar pelo nome: Valdir! Fala sério, desde que ele começou nas categorias de base do VASCO, jamais havia visto alguém tão jovem chamado Valdir; pelo contrário, achava até que Valdir fosse sobrenome de "Seu", porque todo Valdir de que me lembrava era sempre o "Seu Valdir" - o aposentado, o mestre-de-obras, o mecânico, o porteiro! Todo Valdir já nascia adulto!!!

 

Mas o nosso Valdir, que de brega já tem o nome (que aliás começa com o V de VASCO, o V da Vitória!), a timidez e o indefectível bigode (que faz parecer que ele parou no tempo em algum lugar nos anos 30), surgido no bairro humilde de Santíssimo, de onde, contra tudo e contra todos, conseguiu a grande chance da sua vida num clube de ponta como o VASCO (onde mais?) e acabou, com muita luta, garra e gols, como artilheiro e nos ajudou a conquistar o Tri-Carioca. Obviamente, acabou virando uma figura folclórica, presença obrigatória em qualquer roda futebolística quando o assunto é futebol nos anos 90 e que, após sair do VASCO, parecia que estava morto e enterrado. Parecia.

 

Por isso que quando ele reapareceu em São Januário, após 14 meses sem ver a cor da bola, a torcida torceu o nariz, apesar da saudosa lembrança de quando ele destroçava as redes rubro-negras e tricolores. E quando o Lopes, irado com a falta de pontaria do Souza, logo no segundo dia de treino pega a camisa 7 e dá na mão do velho matador, aí que metade da nação vascaína enfartou. Inclusive eu pois, afinal, nunca mais se ouvira falar no Bigode. E se ele estava parado há tanto tempo, é porque não "servia mais".

 

Mas o futebol é apaixonante justamente por causa disso: é imprevisível. O VASCO acabava de entrar na zona do rebaixamento após apanhar de 4 sem dó pro Cruzeiro e o Lopes achou que era a hora do Valdir. A flapress foi ao delírio sacaneando durante a semana inteira o "Salvador da Pátria da Colina" que estava há mais de 1 ano sem saber o que era jogar futebol. E o Valdir, sob os olhares tortos da desconfiança geral, foi. Aliás, não só foi como literalmente acabou com o jogo. Meteu 2, deu passe pra outro e infernizou a defesa da Portuguesa enquanto teve pernas. Ganhamos de 4x0 e o até então "matador aposentado" foi o destaque absoluto pra surpresa de todos os presentes naquela tarde ensolarada em São Januário.

 

"Milagre?", irão perguntar os que até agora ainda não conseguiram digerir o resultado, mas eu diria que é sina. Ele pode não ser um primor de craque mas tem a cruz de malta nas veias, joga com amor à camisa, com raça, e provou que tem estrela. E isso contagia não só a torcida, que delirou e incentivou do início ao fim do jogo e estava em total sinergia com o time como há muito não se via, como também os jogadores que finalmente incorporaram a garra e a vontade "valdirianas" de dar a volta por cima.

 

Que isso seja o começo de uma grande e histórica reação pois, como todos estamos carecas de saber, o VASCO é o time da virada. Faltava apenas alguém que se identificasse com a camisa e com a torcida pra conduzir a Nau de volta a mares mais tranquilos. Afinal, há algo mais VASCO do que o Valdir correndo totalmente desengonçado, com o barrigão pra fora e rodando a camisa com a mão, mostrando, contra tudo e contra todos, o sorriso largo de quem é de fato VENCEDOR?

 

EM TEMPO: é óbvio que as "marmotas histéricas" (belíssima definição do Cláudio Lopes), mesmo com a vitória acachapante, já começam a vir com carga total dizendo que a vitória "não serviu pra nada porque vem Guarani e São Caetano pela frente". É óbvio que quem diz isso não é torcedor de arquibancada, quiçá sabe onde fica o estádio do VASCO, e não faz a menor idéia de como é bom voltar pra casa após assistir a uma vitória ensurdecedora do time. E além do mais, depois que eu "vi com estes olhos que a terra há de comer " o Valdir ressuscitando em São Januário, com toda aquela sorte e estrela do mundo, e apesar destes dois jogos fora serem duas pedreiras, não duvido que possamos ganhar. Afinal, quando parecia que engrenaríamos com aquela sequência de jogos em casa não acabamos tomando porrada atrás de porrada? Quem sabe agora com essa sequência de jogos fora não seja justamente a sequência da virada? O futebol é um baú de surpresas e parece que a urucubaca mudou de lado e acabou indo esgoto abaixo com as últimas chuvas...   

 

EM TEMPO I: e o Géder, hein? Tudo bem que eu sou suspeito pra falar dele já que pareço ser o único torcedor vascaíno que, a exemplo do Lopes, não o tira do time. Mas a fera fez um golaço de cabeça (ainda que se apoiando sobre o zagueiro, mas dane-se) e teve uma atuação impecável no clássico luso. Pena que sentiu a coxa e teve de sair mais cedo, mas pelo menos acabou fazendo as pazes com a Força Jovem já que teve seu nome gritado pela galera no final. Aliás, porque a FJV queria bater no Géder, hein? Verdade seja dita e ele foi um dos únicos neste time que sempre jogou com raça e disposição.

 

EM TEMPO II: e o Pet, hein? Já está quase "estreando" e tenho certeza de que ele nos reservará boas surpresas nestas próximas rodadas. Aguardem.

 

EM TEMPO III: e o Fábio, hein? É disparado o melhor goleiro do mundo e a flapress já aparece aí começando a soltar notinhas de que ele está sendo "contestado em São Januário". Depois essa galera fica "revoltadinha" quando o Eurico bota eles pra correr. É impressionante.

 

EM TEMPO IV: e parece que a minha última coluna sobre o "Double W" (Wellington e Wederson) deu resultado. O Wellington foi sacado do time e o Wederson foi devolvido ao Americano. Assim, o troféu Hidrante de Aço acaba ficando "mais pobre" mas as atuações deles continuam registradas na memória e, mesmo que não joguem mais até o final do campeonato (caso do Wellington), a votação continua e eles podem faturar o Hidrante como pior do ano.

 

EM TEMPO V: e o grande Maganha só pode estar de sacanagem com a minha cara nessa zoação aí do "quer casar comigo". É um brincalhão. Ele até hoje não digere aqueles dois vices campeonatos mundiais na sinuca e fica tentando armar alguma pra cima de mim. Mas o tiro pode sair pela culatra... enfim, deixa quieto porque vai ter volta.

 

EM TEMPO VI: os cães ladram e a CARAVELA passa...

 

E DÁ-LHE VASCO!!!

www.turmadafuzarca.com

 

 

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