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n.07 ano III - 14/05/2002

(próxima edição: 21/05/2002)

 

/+/ PRAGA PAULISTA!!!

 

"Tem dias que a gente se sente / um pouco, talvez, menos gente / um dia como esse sem graça / de chuva cair na vidraça / Um dia qualquer sem pensar / sentindo o futuro no ar / o ar, carregado, sutil / um dia de maio ou abril / sem qualquer amigo do lado / sozinho, em silêncio, calado / com uma pergunta na alma / por que nessa tarde tão calma / o mundo parece parado?"  (trecho de uma música de Raul Seixas)

 

Cá estou eu enfurnado num quarto de hotel em algum lugar na capital paulista, totalmente entregue à própria sorte, acompanhado de um senhor resfriado, e à deriva entre uma espiada na televisão pra ver a final do torneio RJxSP e outra na telinha do laptop pra terminar esses malditos relatórios e apresentações.

 

E entre um espirro e outro (que COM CERTEZA foi praga de paulista), e vários gritos de "Timão eô" vindos de todos os cantos após o Corinthians faturar o título em cima do São Paulo, me deito no sofá e fico lá estático, olhando o nada pela janela, enquanto a minha cabeça roda e a boca segue absorvendo doses cavalares de aspirinas, vitaminas "C" e afins, sigo na "trincheira do inimigo" fazendo um retrospecto pra tentar entender o porquê de todo esse auê da mídia paulista que, não satisfeita em exaltar o futebol da sua terra, tem que ficar espezinhando o nosso. E o que é pior, acompanhada da mídia carioca que insiste em repetir o mantra "com sotaque" de que o futebol carioca está morto e enterrado. Fazer o quê?

 

Bom, como não posso sair na rua e enfiar a mão na cara de toda essa paulistada (até mesmo porque não iria adiantar grande coisa), só me resta ficar quietinho aqui no meu canto, "stranger in a strange land" (dá-lhe, Iron Maiden!), olhando o nada, espirrando e refletindo.

 

Aliás, o tema da coluna de hoje é justamente sobre isso: REFLEXÃO. Claro que o fato de estar em SP e doente ajuda muito mas, como pelo andar da carruagem os amigos assinantes já sentiram que este que vos escreve está mais pra refletir do que escrever, sem condições físicas e mentais, peço licença então pra continuar deitado tentando curar a dor de cabeça e a gripe já que amanhã tenho que estar em forma (ou o que sobrar dela) pra encarar os desafios profissionais desta nossa querida multinacional, que estampa o uniforme do Schumacher e do Rubinho, e continuar garantindo o leitinho das crianças.

 

Mas como quem tem amigo não morre pagão, pros amigos assinantes "não perderem a viagem" desta terça-feira, vos deixarei na excepcional companhia de um dos maiores colunistas esportivos desta galáxia - Rafael Moreira Fabro - que, nesta semana no site CASACA!, já havia abordado de maneira soberba (pra variar) este mesmo assunto. E eu, pra variar, em todas as colunas que ele escreve, assino embaixo e bato palmas de pé.

 

/+/ PAUSA PRA REFLEXÃO!!!

 

por Rafael Moreira Fabro

 

"Nesses dias em que os acontecimentos me deixaram órfão, só me sobra uma pausa para reflexão: o futebol carioca morreu como querem? Por que tantos porteiros, garçons, pedestres, bebuns, populares em geral repetem a mesma tecla batida por toda a imprensa? Por que razão uma notícia seguida de matérias, pesquisas, resenhas, reportagens “completas”, faz com que uma massa considerável de pessoas acredite piamente que o futebol de um estado tenha morrido? Como se deu em poucos dias tal fenômeno?

Começo a croniqueta desta quinta com tais idéias pois talvez não haja tema mais digno de pontapés no estômago do que esse. Digo isso por ser essa minha vontade ao ler cada artigo que tende a ser a última grande descoberta sobre as mazelas do futebol do Rio. Em que estômago investir minha raiva aí independe. Vale a intenção.

Mas, vamos aos fatos. Primeira cena: um sujeito, chamado Marcos Senna, pega a bola do meio da rua, mete no ângulo de Murilo e faz com que o Fluminense seja desclassificado das finais do torneio Rio-Sp aos 47 mins. do segundo tempo. Segunda cena: o Vasco perde do Corinthians com um gol também no fim de jogo e um pouco antes, teria um pênalti a favor escandaloso, porém não marcado. Terceira cena: o futebol carioca morreu.
Simples assim.

Foi assim o roteiro surrealista criado pelos magos da informação que decretaram o óbito. Se um dos dois cariocas houvesse passado de fase o alarde praticamente não existiria, o que configura, então, má fé ou pura burrice no decreto mórbido. Escolham.

Veio a final da Copa do Brasil e o Brasiliense, um time bem armado, mediano, assim como o São Caetano, que nascia para a fama em 2000, recebe da mídia uma divulgação insossa, insípida e inodora em comparação ao seu “primo” da Paulicéia Desvairada. Ah, vejamos: o adversário da final em 2000 era o Vasco, tido como o inimigo de todos os torcedores do país. O de hoje é o “Timão”, inimigo? Segundo os magos, não. Nem fazem aquelas pesquisas sorrateiras, do tipo “Você está torcendo para quem: Corinthians ou Brasiliense?”, assim como fizeram na época da final do Brasileiro de 2000. Diferenças estabelecidas, ficam as escolhas entre a má fé e o esquecimento puro e inocente em divulgar um clube pequeno que sobe rapidamente.

E a famosa reunião entre os dirigentes dos quatro grandes clubes cariocas para sair da Liga e se prontificar a participar de um campeonato só organizado pela CBF? Foram manchetes e mais manchetes ao fato. Achincalharam, fizeram piadas de todos os quilates, jogaram pedra de todos os tamanhos até o dia em que sai uma nota minúscula no jornal dizendo: “Os clubes de São Paulo também saem da Liga”. Piadas? Nenhuma.

Fico me lembrando às vezes do tempo em que tínhamos uma saudável concorrência nas transmissões de TV. O campeonato começava a ser visto como é hoje (ou seja, como uma negação ambulante) no início da década de 90, época em que uma concorrente menor mas simpática aos olhos dos torcedores ganhava audiências com jogos às segundas, por exemplo, com partidas épicas como Vasco x Campo Grande ou, quem sabe, Nova Cidade. Todos assistiam, todos comentavam no dia seguinte de trabalho ou estudo. Mas aí começaram a dizer que mesmo com um público em grandes clássicos sempre superior a 50000 pagantes, sendo 30000 um público para dias de chuva ou de menor importância, o campeonato começava a falir. Ninguém mais queria aquilo. A fórmula foi vendida e acabou pegando. Bateram tanto que tempos depois adquiriram o produto bem baratinho e de repente, não mais que de repente, a gata borralheira vira Cinderela. Aquilo que era criticado na outra emissora, vira artigo de luxo e de grande audiência no fim da década de 90. O círculo tende a se tornar vicioso. Produto ruim = preço mais baixo. Simples. Para fazer o produto ser ruim, jogadores ruins? Não. Só marketing negativo com pitadas de reportagens bem incluídas na programação.

E o pior é ver como há tanta gente que engole a mesma história de uns dez anos atrás. Vocês lembram do nosso título invicto em 92? Pois bem, não valeu nada aos olhos dessa mesma escumalha, mesmo tendo Roberto em fim de carreira fazendo gols importantes, Edmundo comendo a bola e tantos outros craques.

Para essa gente o futebol carioca morre de acordo com o vento financeiro. É o tipo do morto que ressuscita de acordo com as necessidades do momento. Estamos vivendo agora a era da morte, daqui a pouco compram de novo o morto por uma pechincha e estabelece-se o ciclo de cinema dos mais podrões, estilo Re-Animator.

Que há dificuldades no nosso futebol estadual não há por que negar. Mas as situações vividas são tão parecidas em tantos lugares, não só daqui, mas dos mais distantes, que há de se perguntar: será que a causa batida, pela grande imprensa, de má administrações e corrupções em larga escala é a fundamental mesmo? Quando há uma derrocada em massa de grandes e pequenos clubes na Inglaterra por conta de direitos de transmissão que não são pagos, o tema central é má administração e corrupção tão somente?

Podemos sim, nos mirar também aos fatores de gerenciamentos equivocados e atos ilícitos os mais variados, mas será que nos esqueceremos do que vem acontecendo em todo o mundo? É simples: não há mais como conviver com o modelo apresentado. Os clubes “sobrevivem” hoje com os direitos de transmissão de seus jogos. É pouco e já se sabe, afinal as próprias redes que compram tais direitos já se vêem em dificuldades enormes, pois o mercado publicitário também anda em baixa. O que fazer? O primeiro passo é negar o atual modelo, como se fosse uma espécie de redenção ou de tábua da salvação, e repensar novos.

Trabalho para longuíssimo prazo, mas que há de começar logo."

 

EM TEMPO: os cães ladram e a CARAVELA passa...

 

E DÁ-LHE VASCO!!!

www.turmadafuzarca.com

 

 

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