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Crítica Literária
"Como o ser humano é um só, não há criador que não seja um crítico latente, como não há crítico que não possua em si os elementos de um criador. O gênio literário é aquele que se move indistintamente nos dois terrenos e em ambos se sente perfeitamente à vontade."
TRISTÃO DE ATAÍDE
É importante frisar, antes de passar para o papel a conclusão que tive ao analisar o texto “O cavalo que bebia cerveja” de João Guimarães Rosa tirado da Obra Primeiras Estórias, que talvez a minha maior dificuldade em concluir o trabalho foi à maneira de iniciá-lo. Mas com um pouco de sorte obtive a resposta em aula, quando foi dada a sugestão de explicitar a analise crítica de forma corrida, sem se preocupar com tópicos, elaborando um texto mais dinâmico, menos mecanicista e mais pessoal. Dando ao elaborador a chance de usar de sua própria narrativa para chegar a conclusão.
Provavelmente, os que utilizarem dessa técnica de analise, tenderão a errar muito mais (tanto em grafia quanto em conteúdo) , porém darão ao leitor de seu trabalho algo maior que uma simples transcrição literária ou pedagógica.
Entrando no tema em si, pode-se perceber que Guimarães Rosa usa de um estilo próprio que é difícil de ser criticado e impossível de ser copiado. Onde a forma de sua escrita é muito cativante, mas ao mesmo tempo traiçoeira, permitindo ao leitor tanto entrar num mundo completamente contrário ao terreno, quanto pode permitir aos mais despreparados (ou desinteressados) a oportunidade de interpretá-lo com a mesma facilidade que interpretasse um livro em “Javanês” (sem saber a língua) . Deve-se ler Guimarães Rosa com um olhar crítico e analisar letra por letra daquilo que ele escreve, caso contrário, o livro em Javanês lhe será mais útil.
Existem traços do autor pertinentes a todas as suas obras, que fazem dele objeto de análise, tão importante (ou mais) quanto qualquer gênio literário que passeia por salas de aula do mundo inteiro. Ao ler sua obra, foi impossível não se interessar por sua biografia. E por esse motivo, percebi que é observada no artista alguma característica como fatos banais que se condensam aos olhos do leitor e do personagem, transformando momentos simples em momentos de beleza e magia; são narrados em primeira pessoa (como é o caso do Cavalo que bebia cerveja), mas também são narrados em terceira pessoa e algumas vezes apresentando alternância de foco; normalmente suas narrativas mostram um ambiente rural, levando o leitor a um local de cultura própria; o tempo cronológico perde toda sua importância nos contos de Guimarães Rosa, só se dando enfoque ao tempo psicológico do personagem; seus personagens têm uma realidade diferente da habitual: a violência aparece com freqüência em seus contos, no caso do texto analisado, ela aparece misturada a outros temas.
Deve-se observar nos contos de Guimarães Rosa, a angústia dos personagens que não são conduzidos pela aquela lógica racional. A linguagem usada pelo autor desce às matrizes do sistema lingüístico, dando-nos múltiplas possibilidades de significação.
Ao analisar o título , cheguei a uma conclusão: a interpretação literária é algo individual de cada leitor. E que Guimarães Rosa já nos dá uma mostra da força do estranhamento na Literatura, causando ao leitor um impacto inicial, que além de aguçar a curiosidade de quem está lendo, obriga-o a tentar desvendar o título antes que as páginas finais o façam. E a cada trecho lido, a pessoa tem uma nova interpretação sobre o “Cavalo que bebia cerveja” e no final chegando à conclusão onde alguns ficam mais centrados no sentido denotativo, outros no sentido figurado, metaforizando tudo desde o cavalo até a cerveja.
Mas vou mais a fundo.
Quando o título é analisado existem fatores externos a ele. Não com relação ao texto, mas sim com relação a entendimento individual do leitor. Esse é apenas um dos (no mínimo) quatro interessados em desvendar esse enigma que é o título. Podemos analisar da seguinte forma:
O leitor tem sua opinião com relação à frase. No meu caso (o eu, leitor), vejo realmente o aparecimento de um cavalo que bebe cerveja e que por ser algo diferente, causa o estranhamento e a descrença pelo óbvio que é um animal tomar cevada fermentada. Ao criar a frase “Cerveja, Irivalíni! É para o cavalo...”, o seu Giovânio não tinha em mente a idéia de construir um texto metafórico ou capcioso. O homem buscava apenas dar ao rapaz a chance de fazer parte de sua realidade, ou talvez, causar inveja ao ajudante, que supostamente, nunca teria em sua vida chances de possuir um cavalo ébrio como o dele.
Concluindo o ponto de vista do misterioso italiano, fica difícil afirmar alguma coisa. No parágrafo acima coloquei duas possibilidades, de infinitas outras, referentes ao pensamento do mesmo.
Já com relação ao Reivalino, a idéia daquele homem que possuía dinheiro e estado, e vinha comprar terra cristã, sem honrar a pobreza dos outros, era bem óbvia (à primeira vista). Ele não acreditava que existisse cavalo algum , pelo menos que bebesse cerveja, e que o imundo comedor de rãs e caramujos queria apenas enganá-lo, se desfazendo de sua inteligência.
Ao imaginar o que o subdelegado Priscílio pensou ao ouvir a estória do cavalo, deduzi que o mesmo teria que se enveredar pelo caminho da desconfiança, própria dos homens ligados à lei, supondo talvez existir algum código por trás daquelas simples palavras.
Não posso deixar de levar em consideração a visão do autor, que não é melhor em nada que todas as outras. Pois é notório que a personalidade e a vida dos personagens vão mudando com a construção da obra, a idéia que o autor tem de um elemento da estória, vai mudando de acordo com o desenvolvimento da trama. E ele, o personagem, passa a tomar vida própria.
Talvez a mudança seja pequena em relação ao plano inicial, mas sem dúvida ocorre.
Um delicioso equivoco que nos faz passar Guimarães Rosa é com relação a maneira com que ele escreve sua obra, dando ao leitor (leigo) a idéia de linguagem extremamente clássica e rebuscada. Quando na verdade esse efeito “impactual” vem única e simplesmente da variação diatópica da região que o protagonista vive. Daí a necessidade de entrar nesse mundo paralelo ao terreno, dando ao leitor a obrigação de viver (enquanto leitor) naquele lugar, guiado pelas tradições daquela região criada pelo autor e vivida pelos personagens.
Como Michael Riffaterre disse:
"Estilo é o realce que impõe à atenção do leitor certos elementos da seqüência verbal, de maneira que este não pode omiti-los sem mutilar o texto e não pode decifrá-los sem achá-los significativos e característicos...”
É interessante também mostrar a sensação de revolta que Guimarães Rosa cria no personagem Reivalino, com relação à vinda de um estrangeiro ao seu país, comprando suas terras e usando o próprio dinheiro sem nem ao menos dividir com os pobres. Vale ressaltar que nem quando colaborou com o tratamento de sua mãe, o seu Giovânio foi absolvido por Reivalino, que aceitou o auxílio sem se quer agradecer.
A obra se torna mais próxima do leitor a partir do momento que ele faz um comparativo com a situação atual do país, onde as classes sociais ficam cada vez mais distantes, dando a impressão de existirem dois mundos diferentes. E mais ainda se imaginarmos que, como Reivalino, aquele pobre trabalhador tem de viver diariamente com a realidade do mais favorecido, tanto no ambiente de trabalho (patrão) quanto no dia a dia (mídia em geral). No primeiro caso, o empregado também espera (inconscientemente) que o seu próprio “Giovânio” dê a ele uma gratificação, ou pelo menos se envergonhe por ter aquilo que a maioria não tem. A única diferença é que o “Reivalino” da atualidade não demonstra sua insatisfação e aceita tudo que o patrão impõe, e este suga o pouco de esperança que ainda lhe resta. E o pior é no final das contas ninguém lhe presenteará com heranças ou presentes. Talvez nem lhe reconheceram, não sei se por desfeita ou se por ofensa.
O autor enfatiza as características lingüísticas da região, por intermédio do protagonista. Mas também joga com o atrito de culturas, fato significante entre a relação dos dois personagens (Reivalino e Giovânio).
A primeira demonstração já ocorre no início, quando o rapaz se admira dos hábitos alimentares de seu patrão.
Depois é Giovânio quem demonstra o impasse cultural, ao não conseguir falar corretamente o nome do rapaz, “...Irivaníli...”. Ao contrário do que o rapaz pensa, a pronúncia errada é dada provavelmente pelo fato de ser o nome Reivalino algo bastante complicado para o velho italiano.
Pode-se observar ainda, o atrito cultural em forma de deboche usado por Reivalino, nesse trecho abaixo:
“Irivalíni... que esta vida...bisonha. Caspité?”
E o rapaz responde: “Cá eu pisco..”, demonstrando a tentativa de resposta usando como base o entendimento fonológico e não seu significado.
A relação entre os dois é algo interessante de analisar, fazendo-nos pensar como somos tão diferentes, mas ao mesmo tempo com tantos traços de identificação com terceiros. As pessoas têm tristezas, alegrias, medos, metas. Uns demonstram mais seus sentimentos, outros omitem. No caso dos dois personagens principais é a mesma coisa, existindo uma carga enorme de sentimentos em torno do texto. Onde amor e ódio andam juntos, e admiração e repulsa se confundem dando ao leitor a possibilidade de tirar suas próprias conclusões sobre a relação entre o patrão e seu ajudante.
Da parte do Giovânio, acredito que haja um grande carinho pelo rapaz, sendo mostrado de maneira diferente, própria da criação do homem que provavelmente passou por várias situações em sua vida, não lhe dando margem para se preocupar com tratamento carinhoso ou coisa assim. A sua história de vida, um irmão morto em combate, a “fuga” para um país estrangeiro, a solidão, tudo isso colaborou para que aquele homem se tornasse uma pessoa reservada. Lembrando que a simpatia também não era marca registrada de Reivalino.
Há uma possibilidade (eu disse, possibilidade) da mãe do rapaz ter tido algo além de uma simples amizade pelo italiano. A admiração mútua, o tratamento benevolente de Giovânio, a mulher defendendo-o em uma conversa com o filho, o apoio financeiro na hora da doença, a quitação das despesas com o enterro e a oferta de emprego ao rapaz após o falecimento de sua mãe, davam a entender que algo acontecia entre a mulher e o italiano além da amizade. E por falar nisso, em nenhum momento comentou-se sobre o pai do rapaz. Será que algo tão pertinente à história ficaria omitido pelo autor sem algum motivo a mais?
Não é difícil imaginar que um pai queira recompensar a sua ausência física de longos anos ou talvez o velho homem quisesse apenas ajudar aquela pobre família que perdera seu patriarca de uma forma não explicada, como tantas outras perdas que acontecem diariamente. Talvez a figura paterna do rapaz não fosse tão pertinente assim à estória.
Interessante também é a presença dos homens do Consulado, que mesmo sem serem muito comentados pelo autor, causam arrepios cada vez que aparecem para o rapaz. Dá-se a impressão que eles possuem autoridade maior que a do próprio sub delegado da cidade. Fato contestado pelo próprio Reivalino, que chega a conclusão que “os de fora” não poderiam pressioná-lo em sua própria pátria. Ele era filho daquela terra, eles apenas visitantes, se alguém tinha que dominar a situação, esse alguém era ele.
O sentimento de patriotismo é enfatizado pelo autor, com relação ao personagem de Reivalino. A “pátria amada Brasil” e o “em teu seio, oh liberdade..” são levados a sério pelo rapaz, que com muita segurança, não consegue aceitar que um estrangeiro enriqueça em sua terra e muito menos que o desafiem em seu próprio país.
A demonstração real do carinho do rapaz pelo velho só apareceu realmente no final, quando ele (o rapaz) conteve-se para não chorar. Talvez nesse momento, finalmente Reivalino reconhecesse aquele homem que tanto lhe causara nojo e ódio, como seu único amigo e protetor naquela vida. Vindo a ser confirmado isso após a informação da herança.
Devemos nos apegar aos detalhes, principalmente quando se trata de um autor como João Guimarães Rosa, pois como já dizia Spitzer, que todo detalhe deve permitir que penetremos no centro da obra, aliás, isto é uma coisa natural do leitor, em qualquer motivo, índice, informe, etc, este procura a chave da trama, acabando por adentrar até o âmago da obra.
Dentro do texto existem varias motivações para se ler atentamente e diversas vezes a obra, com uma linguagem rica em detalhes típicos da região a qual o autor se propôs a escrever. Onde muitas vezes causava encanto, mas também estranhamento.
A riqueza da obra também esta na naturalidade e na simplicidade de seus assuntos (como já foi dito acima), dando realmente a sensação de egresso a outro mundo.
Caberia analisar o texto por sua literariedade, onde a preocupação maior não seria a em juntar um conjunto de procedimentos formais que transformam um texto em um texto literário. O Formalismo Russo.
O texto cotidiano, automatizado e de percepção massificada não pode ser considerado Literatura. A literatura é composta de mensagem rara, é estético e desautomatizado. Isso pode ser visto na obra de João Guimarães Rosa, onde cada leitor tem uma percepção singular do texto, a pessoa precisa de um olhar desconfiado, um olhar diferenciado.
Quando lemos no texto Arte como fundamento que o que modifica é a forma com que a obra é escrita, passamos a observar e comparar estilos de textos, além de fazer comparação entre as próprias obras do autor. Nessa hora podemos afirmar que o autor utiliza uma forma própria para escrever seus livros.
A estética usada pelo autor é a posteriori, requer conhecimento. Ao contrário da comunicação que é pragmática, imediata.
O estilo do ciclo formado por Obras heterogênicas de Guimarães Rosa é representado como um sistema de procedimentos estilísticos comuns a toda sua obra.
Ocorre uma constante preocupação com a parole e diria que principalmente com o idialeto de cada personagem.
Por exemplo, as variantes diatópicas são presentes em seus textos, o mesmo acontece com as variantes diastráticas, onde geralmente a classe social é baixa.
Se fossemos utilizar os quatro discursos de Lacan para analisar o texto, iríamos nos deparar com a idéia bem definida que todos possuem um pouco dos quatro discursos.
Seria correto dizer que Reivalino assume a figura da histérica, onde tem como senhor a figura de seu Giovânio. Apesar de viver reclamando, o jovem sempre precisa da ajuda do italiano. No início para a mãe e no final para ele mesmo, além de sutilmente começar observar e a aprender com a experiência do mestre. Nessa hora ele deixa der ser a histérica e passa a ser o universitário, e por esse motivo passa a admirá-lo, passa a querer o que é dele (trecho do texto: ´Tu espera...mais dia menos dia, eu não estou bem aí, no haja o que há!`) a partir desse momento ele passa a desejar a morte do mestre.
A idéia da perseguição do pessoal do Consulado e a imigração, devem ter tido pelo menos um pouco de influência do episódio verídico da vida de Guimarães Rosa que, embora consciente dos perigos que enfrentava, protegeu e facilitou a fuga de judeus perseguidos pelo Nazismo; nessa empresa, contou com a ajuda da mulher, D. Aracy. Em reconhecimento a essa atitude, o diplomata e sua mulher foram homenageados em Israel, em abril de 1985, com a mais alta distinção que os judeus prestam a estrangeiros: o nome do casal foi dado a um bosque que fica ao longo das encostas que dão acesso a Jerusalém.
Se resumido friamente podemos dizer que em "O cavalo que bebia cerveja". Giovânio era um velho italiano de hábitos excêntricos: comia caramujo e dava cerveja para cavalo. Isso o tornara alvo da atenção do delegado e de funcionários do Consulado, que convocam o empregado da chácara de "seu Giovânio", Reivalino, para um interrogatório. Notando que o empregado ficava cada vez mais ressabiado e curioso, o italiano resolve então abrir a sua casa para Reivalino e para o delegado: dentro havia um cavalo branco empalhado. Passado um tempo, outra surpresa: Giovânio leva Reivalino até a sala, onde o corpo de seu irmão Josepe , desfigurado pela guerra, jazia no chão. Reivalino é incumbido de enterrá-lo, conforme a tradição cristã. Com isso, afeiçoa-se cada vez mais ao patrão, a ponto de ser nomeado seu herdeiro quando o italiano morre.
Mas quem realmente lê a obra como deve ser lida, não fica preso a esse pequeno resumo. A obra vai além das folhas de papel, além de uma simples leitura de entretenimentos.
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Conhecido como o maior fabulista latino da Antiguidade, Fedro terá nascido entre os anos 10 e 70 da nossa era. Todavia os dados que se conhecem as sua vida são poucos e talvez de pouca autenticidade. Apesar disso, através de informações dadas pelo próprio nas suas obras, sabe-se que nasceu na Macedónia e era filho de pai escravo, que obteve a liberdade para si e para a sua família. Por isso, Fedro chamava-se a si próprio liberto de Augusto. Recebeu uma esmerada educação, provavelmente na sua terra natal e foi para Roma muito jovem, dedicando-se à poesia. Refira-se, porém, que foi com as fábulas que Fedro se destacou, porque com a sua criatividade e imenso talento, conseguiu impelir um vigor único à fábula, o que fez com que esta adquirisse valor de arte e como tal, passasse a ser respeitada. Também Fedro foi colher influências à cultura grega. Sabe-se que o fabulista foi buscar a maior parte dos assuntos ao grego Esopo, transformando-os e enriquecendo-os de modo a poderem considerar-se uma novidade. Curiosamente, sabe-se que as muito conhecidas fábulas de La Fontaine são "cópias" das fábulas de Fedro. A diferença é que La Fontaine, aclamado desde a Idade Média até aos nossos dias, introduziu nessas fábulas, aspectos mais próximos da sua realidade social, destacando-se, assim!
A sua forma de escrever destaca-se no meio literário da altura porque Fedro esforça-se por exprimir as coisas de maneira breve o que dá à sua linguagem um vigor extraordinário. O seu estilo é notável pela clareza e pela versificação correta e original.
Apesar de todo o talento, Fedro viveu pobremente e sofreu perseguições, especialmente por parte de Seyano, favorito de Tibério. Na verdade, Fedro era um poeta satírico e a sua obra está cheia de alusões e ataques pessoais, por isso, Seyano, julgando-se atingido por algumas das composições do poeta, enviou-o para o desterro e condenou-o a uma pena infamante. Permaneceu, então, afastado de Roma por algum tempo e não lhe foi permitido dar a conhecer nenhuma das suas obras. Após a morte de Seyano, em 31 d.C. Fedro conseguiu regressar à capital.
Relativamente à obra que Fedro nos deixou, esta consta de cinco livros. Os dois primeiros apareceram juntos e segundo aquilo que o próprio Fedro nos diz, as fábulas destes livros foram compostas em versos de seis pés a partir de assuntos inventados por Esopo. Com estes livros, o autor pretendia provocar o riso e também dirigir a vida dos leitores com conselhos assisados. Efetivamente, Fedro procurava através das fábulas corrigir os erros dos mortais. No terceiro livro, dedicado a Euticus, seu amigo e protector, o autor aconselha a ter o espirito livre de modo a sentir a magia da sua poesia. Por seu turno, o quarto livro dedicado a Particulon, assistimos a um reinicio da escrita de Fedro, depois de Particulon o ter insistentemente motivado. Supõe-se que o quinto foi composto durante o reinado de Nero ou de Vespasiano.
Fedro foi pouco conhecido na Antiguidade e só o mencionaram alguns autores, entre eles Marcial e Prudêncio. Contrariamente, na Idade Média a sua influência foi enorme.
Em suma, Fedro foi um importante impulsionador da introdução da fábula na literatura, elevando-a a um nível nunca antes alcançado. A sua obra tem sido alvo se inúmeras traduções e adaptações que têm sido utilizadas como textos na disciplina de latim e que são também lidas por milhares de pessoas ao longo de todos estes séculos.
Fedro e a fábula
medieval
O segundo período da fábula se inicia com as inovações formais de Fedro. Ao fabulista latino é atribuído o mérito de ter fixado a forma literária do gênero, o que garante para ele um lugar na poesia. Escritas em versos, as histórias de Fedro são sátiras amargas, bem ao sabor do gosto latino, contra costumes e pessoas de seu tempo. Mas tanto Fedro quanto Bábrio (século III da era cristã) partiram dos modelos de Esopo, que reinventaram poeticamente.
A Idade Média cultivou com insistência a tradição esópica. Entre as muitas versões da época, divulgadas sob o nome de Ysopets (Esopetes), a mais famosa ficou sendo a de Marie de France, do século XII. Os fabliaux (fabuletas) medievais, embora não sejam propriamente fábulas, guardam com elas algumas analogias. Por meio dos personagens animais, os poetas fazem críticas e pretendem instruir divertindo.
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A
RAPOSA E O CORVO ( Livro I )
Nada mais traiçoeiro do que um adulador
Aquele que gosta de ser louvado com palavras enganosas sofre castigos vergonhosos, com tardio arrependimento.
Como um corvo, pousado no alto duma árvore, quisesse comer um queijo roubado duma janela, a raposa viu este corvo, e em seguida começou a falar assim: - Ó corvo, que esplendor é o das tuas penas! Quantas graças ostentas no corpo e no rosto! Se tivesses voz, nenhuma ave te seria superior! Mas, enquanto aquele néscio quer mostrar a voz, soltou da boca o queijo que a raposa astuta rapidamente agarrou com os dentes ávidos. Somente então é que a estupidez do corpo ludibriado gemeu.
A
RAPOSA E A CEGONHA (Livro I)
Amor com amor se paga
A ninguém se deve fazer mal. Se alguém, porém, nos tiver lesado, a fábula aconselha que deve ser castigado com igual direito.
Diz-se que uma raposa convidou primeiro uma cegonha para uma ceia, e lhe pusera num prato chato um caldo líquido que a cegonha, faminta, de nenhum modo pôde saborear. Como esta tivesse convidado a raposa, colocou-lhe diante uma garrafa cheia de comida migada. Ela própria satisfaz-se, metendo o bico nesta garrafa, e atormenta com a fome a convidada. Como a raposa lambesse em vão o gargalo da garrafa, ouvimos dizer que a ave de arribação falou assim: - Cada um deve sofrer com igual ânimo os seus exemplos.
O
CORTADOR E O MACACO (Livro III)
As aparências iludem
Um certo homem viu que um macaco estava dependurado à porta de um carniceiro num açougue, entre outras mercadorias e comestíveis. Perguntou a que sabia. Então o cortador, gracejando, disse: - Garante-se que o sabor é tal e qual a cabeça.
Julgo que isto foi dito mais por gracejo do que por verdade, visto que por um lado tenho encontrado muitas vezes homens formosos que são péssimos, e por outro lado tenho conhecido muitos de semblante feio que são ótimos.
A
IRMÃ E O IRMÃO (Livro III)
É muito belo tudo o que é muito bom
Aconselhado por este preceito, examina-te muitas vezes.
Um certo homem tinha uma filha muito feia e o mesmo tinha um filho admirável pelo belo rosto. Estes, brincando puerilmente, viram por acaso um espelho como foi posto no toucador da mãe. Este se gaba de ser formoso; aquela se zanga, nem suporta os gracejos do irmão, gloriando-se, como quem tomava tudo por injúria. Corre, portanto, para o pai a fim de ferir por sua vez o irmão, e com grande rancor acusa o filho, porque tendo nascido homem, tocou num objeto das mulheres. Aquele pai, abraçando um e outro e colhendo beijos, e repartindo por ambos o doce amor, disse. - Quero que vós useis do espelho todos os dias. Tu, filho, para que não corrompas a beleza com os vícios da maldade. Tu, filha, para que venças esta fase feia com os bons costumes.
ESOPO
RESPONDE A UM PALRADOR (Livro III)
Homens que parecem e não o são
Como Esopo fosse o único criado para seu senhor, foi mandado preparar a ceia mais cedo. Procurando, pois, o fogo, percorreu algumas casas, e encontrou finalmente onde acendesse luz. Então tornou mais curto o caminho que fora mais longo para ele à volta, procurando o lume; porquanto, começou a voltar para casa em linha direta através da praça. Então um certo palrador da multidão diz: - Ó Esopo, o que fazes tu com uma luz, estando o sol em meio dia? Responde Esopo: Procuro um homem; e, apressando-se, foi para casa. Se aquele importuno refletiu isto na sua mente, certamente compreendeu que ele, que intempestivamente tinha escarnecido de Esopo ocupado, não pareceu homem ao velho.
A
VELHA, A RAPARIGA E O HOMEM (Livro II)
Acautela-te com as mulheres
Aprendemos sem dúvida pelos exemplos que os homens de todas as maneiras são roubados pelas mulheres, quer amem, quer sejam amados. Uma mulher não grosseira, que oculta os anos com elegância, amava um homem de meia idade; e uma formosa donzela também granjeara os afetos daquele mesmo homem. Enquanto ambas querem parecer iguais a ele na idade, começaram a arrancar alternadamente os cabelos ao homem. Como julgasse que ele se adornava com o cuidado das mulheres, tornou-se repentinamente calvo, por a rapariga arrancara totalmente os cabelos brancos e a velha, os cabelos pretos.
O
PAI DE FAMÍLIAS E ESOPO (Livro V)
Como se deve domar a juventude fogosa
Um pai de famílias tinha um filho cruel. Quando este se tinha afastado da vista do pai, maltratava os servos com muitos açoites e dava livre curso à impetuosa juventude. Esopo, por isso, conta ao velho isto abreviadamente.
Um certo homem jungia um boi velho com um novilho. Como este, afastando o jugo do pescoço desigual, alegasse, para escusa, as lânguidas forças da sua idade, aquele camponês disse: Não há motivo por que temas. Não faço isto para que trabalhes, mas para que domes este que com os pés e com os chifres torna muitos inutilizados.
Também tu, se não retiveres cuidadosamente contigo este filho, e não lhe reprimires com clemência o gênio feroz, toma cuidado em que não acresça a queixa da tua criadagem.
A mansidão é um remédio para a crueldade.
A
LEBRE E O BOIEIRO (Livro V)
Vêem-se caras, não se vêem corações.
Como uma lebre fugisse dum caçador com pé ligeiro, e, vista por um boieiro, se escondesse num silvado, disse: Ó boieiro, peço-te pelos deuses e por todas as tuas esperanças que não me descubras; nunca fiz nenhum mal a este campo. O camponês, porém, diz: Não tens que temer; esconde-te tranqüila. E logo o caçador, perseguindo-a: Ó boieiro, pergunto, por favor, acaso a lebre veio para aqui? - Veio, mas foi-se por aqui, para a esquerda; e com o aceno indica o lado direito.
O caçador, de apressado que ia, não compreendeu, e afastou-se da vista. Então o boieiro assim disse à lebre: Acaso é grato a ti o fato de eu te ter ocultado?- Não nego inteiramente que tenho e dou os maiores agradecimentos à tua língua; pelo contrário desejo que seja privado dos teus pérfidos olhos.
ACERCA
DO JOGO E DA SEVERIDADE (Livro III)
Descansa, para melhor trabalhares.
Como um certo ateniense tivesse visto Esopo jogando às nozes, num grupo de rapazes, parou e riu-se como de um louco. Logo que o velho Esopo, antes que escarnecedor do que digno de ser escarnecido, viu isto, pôs um arco afrouxado no meio do caminho e disse: Olá sábio, explica o que fiz. Aquela matuta e inquiete-se por muito tempo, e não compreendeu a causa da pergunta feita. Finalmente dá-se por vencido. Então o sábio, vencedor, disse: Depressa partirás o arco, se o tiveres sempre retesado; mas, se o afrouxares, será útil, quando quiseres.
Deste modo, deve dar-se algumas vezes recreio ao espírito, para pensar melhor, logo que volte a ti para pensares.
AS
RÃS PARA O SOL (Livro I)
De mau pai, maus filhos.
Esopo viu as bodas muito concorridas dum seu vizinho ladrão, e imediatamente, começou a contar:
Um dia como o sol quisesse casar, as rãs levantaram um clamor até aos astros. Júpiter, muito impressionado com o barulho, pergunta à causa do queixume. Então um certo habitante da lagoa diz: - Agora um só sol, seca todos os lagos e obriga-nos a nós, desgraçadas, a morrer numa habitação seca. O que sucederá, se criar filhos?
Tradução: Nicolau Firmino 1990