Crônicas:

                             A coruja                        

"...divertir as pessoas em pequenos fragmentos de histórias é dom de poucos. E o cronista consegue em poucas linhas, fazer-nos rir e chorar."

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  • O dia F
  • O despertador acordou-me bruscamente com sua barulheira implicante e  desnecessária. Afinal de contas, era sábado! Isso antes de eu perceber que o calendário, que se encontrava a minha frente, era do mês anterior. Era quinta! E segundo meu amigo despertador, eu já estaria atrasado para a prova na Faculdade.

    Já vi que irá ser um dia daquele. Se bem que em minha vida, todo dia é um dia daqueles. Mas  apesar de minha maré, contínua, de falta de sorte, não posso reclamar de uma coisa: Rotina.

    Todo dia acontece algo diferente em minha vida. De certo que cinqüenta por cento dessas coisas são ruins. Mas existem os outros cinqüenta: Que são péssimos!

    Naquele dia não poderia deixar de ser diferente.

    Após uma pequena discussão com o maldito despertador, corri para o banheiro no intuito de tomar aquela deliciosa ducha quente. Chegando lá, o chuveiro estava queimado.

    Não tinha importância, pelo menos eu não precisaria tomar banho. Mas não é disso que quero falar.

    Continuando com minha “desrotineira” (acredito ter adicionado uma nova palavra ao “Novíssimo Dicionário dos Idiotas Metidos a Lingüistas”) passagem de dia, encaminhei-me ao elevador (data de fabricação: 12/01/1938) no intuito de chegar a tempo para fazer a tão esperada prova. Aliás, rege a lenda que no período passado, dois alunos saíram dela (a prova) direto para a Colônia Juliano Moreira e outros quatro tentaram o suicídio. Mas eu acredito que o número seja bem maior.

    Britanicamente, o elevador parou quatro palmas abaixo do seu real destino, como diariamente acontece. Mas como eu já estava acostumado com o mesmo, e ainda por cima atrasado para a prova, decidi fazer uma pequena escalada ao elevador.

    O saldo final de minha aventura foi satisfatório: apenas uma calça branca completamente escurecida na região glútea. Acho que nada tão ruim quanto o grau de “amarrotamento” de minha camisa, já que minha mulher havia escondido a droga do ferro em algum lugar da casa para eu não causar um novo incêndio (É incêndio! Mas isso eu conto em outra oportunidade) na mesma.

    Após várias rezas de várias culturas e em várias línguas, cheguei ao destino sem ser lançado ao poço (do elevador, é claro).

    Fiquei extremamente feliz, pois a portaria estava vazia. E eu, obviamente, não gostaria que meu vizinhos me vissem com a bunda preta e a camisa mais amassada que roupa de secretária após vinte minutos à sós com o patrão na sala dele. Mas meu estimado porteiro (data de fabricação: 01/03/1915) não deixaria isso passar em branco, e colaborou com o aparecimento de uma pequena multidão a minha volta: “Meu Deus do céu! Menino, o que aconteceu contigo? Você caiu na ‘fossa’?”.

    Olhando meu estado, realmente, até eu, fiquei na dúvida se caí ou não na tal fossa.

    Nisso, um pequeno grupo já vinha ao meu socorro.

    “Quer que eu chame ambulância, meu filho?” - perguntou uma velhinha.

    “Você está mal, cara!” – despejou um transeunte que, estranhamente, colou atrás de uma mulata, toda boa, que também apreciava meu “acidente”.

    “Ele não está conseguindo se mexer; Acho que vai cair!” - informou um negão de dois metros que me segurou pela cintura (fiquei quase dois meses com dor de coluna por causa do negão) .

    “Ele ta cagado!” – disse um moleque que morava no 1006, fazendo com que o negão me jogasse ao chão.

    “Que merda! Acabei de limpar o chão”.– lamentou-se o faxineiro.

    Após várias explicações e preciosos minutos perdidos, consegui me livrar daquela gente. E corri para atravessar a rua.

    Para piorar as coisas, metade do material que estavam em minha bolsa caiu no meio da rua e eu não vi.  Entrei no ônibus acreditando que meu desespero havia terminado. Quando olhei para trás do veículo, percebi vários papéis voando em plena Presidente Vargas. Imaginei o que deveria conter naquele monte de papel e quem seria capaz de jogar tamanha quantidade de lixo no meio da rua.

    “É lamentável a falta de educação desse povo! Se a pessoa faz isso na rua, imagine como deve ser em casa”.– debati com um rapaz que se sentou ao meu lado e também apreciava tal manifestação de falta de respeito. Só que o garoto começou a gargalhar e berrou quase sem conseguir respirar de tanto rir:

    “Senhor, aqueles papéis eram seus...” - minha vontade foi de matar o idiota, mas eu já tinha problemas demais naquele momento. Tive que ficar olhando horas e horas de material escrito por mim voando pala cidade.

    “Não há de ser nada. Semana que vem eu tiro cópia do material com algum colega e pronto”.– indaguei comigo mesmo, para tentar amenizar tal situação. O ônibus já estava chegando, eu faria a prova, voltaria para minha casa e nunca mais me lembraria deste dia terrível.

    Nesse momento a prova já havia começado a mais de meia hora e eu adentrei a sala em frangalhos: sujo, amarrotado, fedendo, suado, com um extremo mau humor e quase sem tempo para fazer a prova. Mas alguma coisa pareceu-me estranha.

    Os colegas estavam com seus livros e apostilas sobre a mesa, e o pior, na frente da professora. Imaginei das duas uma: ou a turma fez um bom rateio e ofertou a ela. Para a mesma ficar “displicente” em sala de aula enquanto todos colavam, ou nossa a professora estaria fazendo uso de drogas pesadas em sala de aula.

    “Que papelão, rapaz! Além de chegar atrasado, ainda se apresenta a um professor dessa forma.” – exclamou a educadora olhando-me de cima a baixo. “Eu não deveria permitir. Mas já que fiz com toda a turma, não seria justo excluí-lo desse benefício: vocês todos foram autorizados a consultar qualquer material de auxílio para fazer a prova. Porém, essa ajuda não mais será dada, entendeu?” – parecia que minha sorte finalmente mudara. Além de chegar a tempo de fazer a prova, ainda poderia consultar. “As coisas vão mudar em minha vida a partir de agora.”

    Lentamente, sentei-me em uma carteira à frente da professora, (afinal de contas, o que poderia dar errado em uma prova com consulta) abri minha bolsa, com um enorme sorriso no rosto, e enfie a mão vagarosamente na mesma, talvez para mostrar ao mundo todo o domínio da situação, pelo menos uma vez na vida.

    De repente, percebo que o material que caíra de minha bolsa, fora toda a matéria da prova. Não sobrara nem uma folha de resumo se quer.

    Minha cabeça começou a rodar: imaginei o meu elevador, meu centenário porteiro, o garoto que ficou me sacaneando no ônibus, lembrei até de Dona Margarida (professora do primário que vivia dizendo que eu não seria nada na vida). Fiquei em transe! Minhas mãos não se mexiam e minha cabeça não respondia. As únicas coisas que me diferenciavam de uma porta, era que eu estava sujo e não servia para nada.

    Esse bloqueio mental durou até o momento que a professora tirou a prova de minha mesa.

    “Pronto minha gente, a prova acabou. Espero que todos tenham se saído bem. E lembrem-se. A próxima será chumbo grosso”.– nada falei, levantei da cadeira (agora toda suja de preto), recolhi o que sobrou de meu material e fui para casa.

    No caminho, achei uma moeda de um real. Peguei-a, parei no primeiro bar que avistei e pedi uma média com pão.

    Saboreei o lanche como se fosse a melhor coisa do mundo. Mas só teve um problema...

    A refeição custou um real e vinte centavos. E eu lembrei que havia acabado de perder a carteira.

                                         Por: Roosevelt A.G.Araújo ([email protected])                        

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  • A entrevista
  • Enfim chegara o tão esperado dia, finalmente Adão fora chamado para a entrevista de emprego em um grande jornal da cidade, onde se inscrevera para a função de office boy.

    Seis horas da manhã o aspirante a trabalhador já estava de pé: deu um trato no cabelo, engraxou o sapato do pai, fez a barba e tomou banho, coisa que não fazia a quatro dias. Tudo isso para a sua primeira entrevista de emprego. Talvez representasse o início de uma vida nova e, principalmente, a chance de comprar aquele fusquinha 68 que o Jonas andava anunciando lá na rua.

    __ E aí mãe, como eu estou? – perguntou o rapaz já premeditando a resposta.

    __ Tá lindo meu amor! O patrão que não te quiser como empregado só pode ser maluco. Não é papai? – seu Nestor, o avô de Adão, já beirava os oitenta anos, mas parecia ser a pessoa mais lúcida daquela casa. E com o seu já conhecido sarcasmo, opinou sobre os trajes do neto:

    __ Claro que sim! Inclusive por essa combinação de calça verde, camisa vermelha e sapato marrom. Tomara que o seu empregador seja daltônico. – concluiu o velho. Que logo foi repreendido pela filha.

    __ Papai! Assim o senhor assusta o menino. Vai filho, seu avô ta caducando. Você está lindo!  - retrucou Dona Flora, tentando mantê-lo calmo. Se bem que ela também achara muito engraçado o estilo de Adão, mas isso a alegrava. Talvez assim seu filhinho não fosse aprovado na tal entrevista, por conseqüência não entraria nesse emprego e ela poderia continuar a tê-lo sempre por perto. Por Dona Flora, o menino só trabalharia depois que terminasse a faculdade. O único problema é que Adão já fizera o vestibular quatro vezes, e seus resultados pioravam a cada ano.

    O rapaz deu os últimos retoques no cabelo, esticando-o com um gel, mais ou menos, um palmo acima da testa, causando uma crise de risos no avô. Aliais, nem a própria mãe conseguiu se conter. E soltou furtivamente uma desconcertante gargalhada. Mas é claro que ficou se culpando a tarde toda, por tão desumana reação. E pensou: “Quem nunca fez algo ridículo, só para ficar na moda?” Ela mesma fizera coisas muito piores na época do colégio! Lembrou-se do dia que tomou um porre de cuba por influência das amigas e vomitou a roupa inteira do pai de Adão, que na ocasião ainda era seu namorado.

    __ Mãe me libera uma grana para o ônibus? – solicitou o rapaz, que prontamente foi atendido.

    __ Claro filhinho! De quanto você precisa? – perguntou a mulher, já abrindo a carteira.

    __ Vinte mangos. – respondeu o rapaz, fazendo o avô quase cair da cadeira de balanço.

    __ Vinte mangos? Você vai procurar emprego ou comprar a empresa – berrou o velho, que sem sucesso tentou impedir a filha de praticar tal ato de desperdício. A filha já havia entregado o dinheiro ao rapaz, e ainda complementou com três vales transporte. Causando mais revolta ainda ao velho.

    Adão deu aquele sorriso debochado, beijou a mãe, e virando-se para o avô disse:

    __ Vovô, se tudo der certo eu te compro uma dentadura nova. A sua antiga, o Salomão pegou para brincar. – cantarolou o garoto, saindo em disparada, rumo ao seu fusquinha 68, ou melhor, a sua entrevista.

    “Eu ainda encho tua comida de laxante, seu pestinha!” – pensou o velho, arquitetando um plano de vingança.

    No caminho para a tão sonhada entrevista, Adão avista César que percebe o estilo do amigo:

    __ Cara, irado! Que beca invocada!  Vai pra onde vestindo assim? – admirou-se César, vidrado na roupa de Adão, que prontamente respondeu-lhe.

    __ Eu estou indo para uma entrevista de emprego. Ligaram lá para casa ontem, me implorando para trabalhar no “Jornal da cidade” e eu resolvi aceitar.

    __ Caraca maluco! Tu vai trabalhar no Jornal da cidade? Sinistro! Além de ganhar uma grana preta, ainda vai poder ler a parte de esportes todo dia, e de graça. – César admirava-se da sorte do amigo, gostaria de estar em seu lugar agora. Já se imaginava ganhando uns três mil reais, trabalhando num jornal daqueles, namorando todas as gatinhas de lá. Em no máximo em dois meses seria promovido à jornalista e um ano após teria seu próprio jornal.

    “Caraca maluco! O Adão vai ficar rico!” – pensou o companheiro, vendo seu mais novo ídolo, com seu traje de gala, marchando em direção a ponto de ônibus. Esboçou um grito de apoio ao colega, mas era tarde. Ele já havia entrado no ônibus.

    Quatro horas após a saída do filho, Dona Flora já estava impaciente:

    __ Esse menino que não chega. Papai que horas são?– o velho já não agüentando mais os resmungos da filha fingiu não ouvi-la, afinal de contas já era a oitava vez que ela perguntara as horas e isso em menos de sessenta minutos, pegou seu chapéu e foi para o bar do Neco.

    Chegando lá, quem ele vê no fliperama?

    O seu querido neto! Que segundo Flora estaria “sofrendo na mão daqueles jornalistas malvados”. O velho se aproximou lentamente para não ser notado e lançou um berro no ouvido do garoto:

    __ Bonito heim! Sua mãe preocupada em casa e o senhor aqui brincando nesses joguinhos. Eu sabia que esse negócio de emprego era tudo conversa fiada. – o rapaz quase desmaiou de susto, mas quando viu o avô quase o ignorou. Causando estranhamento ao velho.

    __ Amado e desdentado vovô. Eu realmente fui na tal entrevista. Chegando lá fui diretamente para uma salinha onde respondi algumas perguntas bobinhas, depois fui para outra sala onde uma mulher fez as mesmas perguntas que eu havia respondido no papel. Na terceira sala um homem aplicou um tal de teste de “psicodérico”, ou algo parecido, onde eu também fui perfeito. E por ultimo, a mesma mulher que me atendeu na recepção mandou-me escrever uma redação sobre minhas pretensões na empresa. Disse que se eu fizesse bem a redação, a vaga seria minha. – o rapaz calou-se, aguçando a curiosidade do ancião.

    __ E aí? Não gostaram? Chutaram-te de lá? Tu mal sabes escrever teu nome! – interrogou o velho, completamente absorvido pelo desfecho da história.

    O rapaz olhou-o nos olhos e sussurrou:

    __ Adoraram! Mostraram para todos os diretores da empresa. E esses mostraram para seus subordinados, que mostraram para os colegas. Não sei por que, mas acho que minha redação chamou muita atenção. – disse o rapaz, orgulhando-se de seus louros.

    __ Então você conseguiu a vaga de Office boy? – perguntou, ainda aflito, o velho.

    __ Na verdade, não! Eles acharam tão interessante minha redação, que vão publicá-la em uma seção do jornal e ainda me pagaram por ela. O diretor me pediu para toda semana levar redações parecidas com a que eu fiz na entrevista. Como o senhor pode ver, agora eu sou escritor.

    No dia seguinte, na seção de crônicas do jornal sai o texto de Adão em destaque, com o título: “Quero comprar meu fusquinha.”

                                       Por: Roosevelt A.G.Araújo ([email protected])      

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  • Reconciliação
  • Após uma pequena discussão com minha esposa, decidi dormir no escritório. Estava chateado e um pouco triste. Afinal de contas, por menos que fosse a briga, o simples fato de dormir longe dela me faz um mal terrível.

    Já passavam das quatro da manhã, minha cabeça doía em doses homeopáticas (como diria uma professora minha), meus olhos pareciam querer fechar-se, mas o sono não vinha.

    Acho que a solidão que senti, exclusivamente essa, foi tão intensa que me fez falar sozinho com meu teclado. Fez-me lembrar de momentos em minha adolescência. Fez-me lembrar das coisas boas da vida e das coisas que nos levam a esquecer delas.

     

     

    Adoro música! Talvez por meu pai ser músico e eu tê-lo acompanhado em suas apresentações quando era mais jovem. Não eram pontos espetaculares, mas ver pessoas aplaudindo-o, elogiando-o, namorando ao som de sua música. Isso me encantava, me fazia feliz. Imaginava como deveria ser bom fazer algo parecido. Gostaria de cantar para pessoas que nunca vi na vida, causar emoção e incendiar corações apaixonados.

    Via como as pessoas fechavam seus olhos e o acompanhavam em canções imortalizadas em seus corações. Pessoas que se imaginavam (como eu) naquele palco, cantando e encantando os presentes.

    Eu adorava quando ele cantava uma canção italiana que já não recordo mais o nome.

    Cara, aquela era a minha música! E ele sabia, e fazia questão de cantá-la quando eu aparecia no canto do palco para ouvi-lo. Era um sonho alguém cantar uma música em minha homenagem. E quando eu crescesse faria o mesmo para o meu filho, daria a mesma sensação de total superioridade perante todos os seres do Universo. Aquela música, tão bem interpretada era minha. Só minha!

    Alguns anos se passaram e meu interesse passou a ser outro, as idas aos shows de papai já não me davam tanto prazer. Deixei de vê-lo como o artista que encantava o público e passei a vê-lo como um simples empregado que satisfazia os luxos de ricaços desocupados.

    Ao invés de superior perante as pessoas, me sentia pequeno. Sentia-me inferior perto daquele mundo tão distante do meu. Onde dinheiro e poder se misturavam, onde um simples músico não era mais importante que um copeiro ou garçom.

    Passei a me esconder atrás dos palcos, a não querer mais acompanhá-lo, a sentir vergonha dele ser o que é. Passei a negar esta minha situação tão infeliz com relação aos que ali se divertiam.

    Nada me fazia mudar de idéia, nem os agrados do meu velho, nem suas homenagens a mim, e muito menos os aplausos ao fim do show.

    Um dia me neguei a ir com ele a uma apresentação, falei-lhe que me envergonhava em ir a uma festa que não fora convidado e que não era interessante ir a um lugar, como ajudante de empregado. Várias outras coisas foram ditas, mas graças a Deus foram apagadas de minha memória. Só não se apagou a lembrança do olhar de meu amado pai, que justamente naquela noite havia gravado para mim uma fita cassete com uma bela coletânea, inclusive com a minha música.

    Meio sem jeito, meu herói entregou a fita que tinha um bilhete escrito: “Ao melhor filho do mundo e alguém maior que eu, um beijo. Te amo muito. ”

    Aquilo foi a pior coisa que poderia ter acontecido em minha vida. Eu conseguira estragar em uma só noite a vida dele, a minha, a alegria de seus olhos e principalmente um pouco da magia, que era nossa amizade. Naquela noite pedi a Deus que voltasse no tempo e deixasse eu desfazer aquela besteira, mas nada aconteceu. Fiquei a noite toda ouvindo a fita que ele me dera. Sua música parecia incrivelmente superior a tudo que eu havia ouvido antes, naquele momento existia ninguém melhor que papai e ninguém se sentia mais orgulhoso que eu. Confesso que chorei a noite toda, e aquela lembrança custou a passar.

    Hoje me sinto realizado. Não conseguir acompanhar os passos de papai, é preciso ter dom para isso. E é lógico não pude dar ao meu filho a sensação de prazer que eu sento ao ouvir seu pai cantar. Mas não precisa...

    Meu neném tem ao vivo e a cores o maior músico de todo o mundo, tocando e cantando para ele sempre quando ele quiser e eu também. Que tenho mais que um pai. Tenho um ídolo em minha vida.

    É, após essa lembrança não consegui resisti. Corri para o quarto e me joguei apaixonadamente aos braços de minha mulher, pedi-lhe mil desculpas, beijei-a apaixonadamente e disse que a amava mais que tudo na vida.

    Acredito que ela também estivesse tendo bons pensamentos, pois a intensidade que eu fui ao seu encontro foi proporcional a que ela foi a mim. E naquela noite percebi que o tempo é pequeno e que perdê-lo, por menos que seja, não vale a pena.  

                                                   Por: Roosevelt A.G.Araújo ([email protected])      

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  • Um dia como outro qualquer
  •  

    É, parecia um dia como outro qualquer. Lá estava eu, após um árduo dia de trabalho. Finalmente aproximava-se a hora de encerrar o expediente, me imaginava tomando aquela “gelada” que escondera, da mala da minha sogra, no freezer, atrás da embalagem do fígado de frango.

    De repente adentra o estabelecimento uma figura conhecida do bairro. Zeca Apagadinho: sorriso fácil, corpo franzino, barba e cabelos sujos e a fazer, além de meia dúzia de dentes espalhados pela boca. Um indiscutível cheiro de álcool impregnava os locais por onde passava e aquela musiqueta...Era pior que um chute no saco:

    __ "Lá vem chorando...", e aí "Dotô" Faustão, tudo na boa?- Dotô é o cacete e Faustão é a velha! Pensei eu.

    __ Muito bem, Zeca! E você como vai? E a família?- tentei ser agradável, mas internamente minha vontade era de enfiar um litro de formol, goela abaixo daquele elemento mal cheiroso.

    Do nada, o alucinado cliente dá-se a chorar. Eu ainda achei que era brincadeira, mas quando começaram os soluços já passei a me preocupar.

    __ Que isso Zeca? O que houve?- o gerente havia subido para fazer o caixa e se ele visse aquela sessão frescuragem, meu emprego ia para brejo.

    __ Minha maj@8#hdk fuiem@3#...! - respondeu ele, ou pelo menos tentou.

    __ Não estou entendendo Zeca, repita, por favor. - meu desespero aumentava, uma pequena multidão já se formava na porta da loja e o ébrio não falava coisa com coisa.

    __ Minha maj@8#hdk fuiem@3#...- respondeu novamente nosso herói. Só que o pior estava por vir.

    De lá de trás da multidão, um baixinho com a camisa do Vasco gritou:

    __ A culpa é do Dotô ai, deve ter enxotado o pobre do Zeca. Olha como ele está chorando. Covarde!!- "Dôto é o cacete anão vascaíno de merda" (pensei novamente).

    __ De forma alguma senhor, do nada ele começou a chorar. Eu só perguntei como ele estava passando de nada adiantou a minha educação, além de não convencer o baixinho, eu ainda arrumei outro inimigo.

    __ Cachorro, além de covarde é mentiroso. - gritou uma velhinha que acabara de entrar e provavelmente nem sabia do que se tratava.

    __ Minha Senhora eu não fiz nada, só perguntei se estava tudo bem com ele. - o tumulto aumentava, parecia que o mundo todo estava contra mim. Era neguinho metendo a mão no meu peito, criança chutando minha canela, aquela velha desgraçada gritando no meu ouvido, mas a gota de água foi quando uma bichinha mais feia que a Erundina virou para mim e falou:

    __Olha, só por que é Dotô não vai querer ficar pisando em todo mundo não, entendeu? - não resisti, enlouqueci na hora. Arranquei o Jaleco e pulei em cima da bichinha e comecei a apertar a garganta dela (ou dele, sei lá) e gritava como nunca gritei:

    __Dotô é o cacete sua bicha! Eu sou balconista, porra! Eu vou te matar. - o povo ficou tão bestificado, com tamanha violência, que ninguém teve coragem de interceder pela bichinha que desfaleceu ali mesmo. Dois dias depois foi enterrada (causa da morte: Infarto fulminante).

    A polícia foi chamada, mas tiveram que pedir reforços para me levar. Diziam que eu parecia um monstro. Minha foto apareceu em mais de quinze emissoras internacionais.

    Chamavam-me de "Doutor Monstro" e o pior que nem doutor eu sou. Mas tive que conviver com o cargo pelos longos 15 anos que me "hospedei na prisão".

    Zeca foi convidado a trabalhar no meu lugar. Ótima maneira do gerente se desculpar com a sociedade e promover a farmácia, que passou a vender 200% mais produtos do que quando eu trabalhava lá. Ele parou de beber, passou a ganhar "gordas" comissões e quatro anos depois comprou a farmácia. Tornando-se o homem mais poderoso do bairro. E é isso aí!

    E por incrível que pareça, o motivo disso tudo foi que ele começou a chorar quando perguntei como estava a família. Só que não eu sabia que sua mãe havia morrido e fiz ele lembrar do fato, mas um detalhe. A mamãezinha de Zeca Apagadinho já havia morrido a mais de oito meses.

    É, coisa que acontecem em um dia como outro qualquer.

                                           Por: Roosevelt A.G.Araújo ([email protected])      

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  • A fantasia
  • Após uma bela jornada de trabalho, Tiãozinho conta o dinheiro que arrecadara e comenta com o amigo João:

    __ Olha João! Do jeito que estão indo os negócios, acho que consigo comprar ainda esse mês aquela fantasia de palhaço igual a do Batata.

    O amigo também contabilizava seus rendimentos, mas um tanto quanto avexado, por causa da expressiva inferioridade monetária com relação aos frutos do companheiro.

    __ Pô, Tião! Do jeito que “ocê” joga essas “bolas”, é capaz de comprar o circo inteiro. – afirmou o jovem malabarista, enfiando os trocados no bolso.

    Os dois se despediram . Já eram quase dez da noite e Tiãozinho ainda teria que pegar carona em um ônibus para a Central e o parador para Nova Iguaçu. Pois o rápido parara às 9:30 hs.

    O estômago do rapaz roncava, mas nosso pequeno herói não podia desperdiçar um centavo se quer. Tinha que juntar o máximo possível para comprar a fantasia de palhaço.

    “Depois que o Batata passou a usar a fantasia, não tirava menos de R$20,00 por dia”.

    Por volta de meia-noite Tião adentra o barraco e já é enquadrodo por Jéssica, sua irmã caçula:

    __ Titi! Que cê troxe pra mim? – interrogou a irmã, tentando ver o que o Tião trazia nas mãos.

    Sorridente, o rapaz entrega um embrulho mal feito, amarrado com uma fita rosa achada no meio da rua e nele estava uma bonequinha de plástico. A menina ficou enlouquecida, pulando e dançando com sua nova amiga.

     

    O menino ao perceber a presença da mãe, corre ao seu encontro para abraçá-la. No bolso, coberto por um pedaço de papel toalha, o jovem presenteia a mãe com um salgadinho comprado na Central. Seu estômago continuava a roncar, mas dois salgados já seriam esbanjar demais. E além do mais, a roupa de palhaço custava caro.

     

    De longe a mãe observava com um orgulho inenarrável o seu menino, com os olhos cheios de lágrimas que denunciavam sua comoção. A viúva que aprendeu a costurar para manter seus filhos, tinha um único objetivo na vida: criar aquelas crianças de forma digna e honesta, para que eles no futuro sejam adultos respeitáveis e educados. E naquele momento percebera que seus esforços não haviam sido em vão.

    O rapaz ao perceber a presença da  mãe, corre ao seu encontro para abraçá-la. No bolso, coberto por um pedaço de papel de pão, o jovem trazia um salgado que gentilmente oferecera para a mãe. Seu estômago ainda roncava, mas comprar dois salgados já seria esbanjar demais. A roupa de palhaço custa caro!

    __ Mãezinha, hoje os negócios foram de vento em popa. – dona Rita se admirava com as frases de seu guri.

    __ Teve uma dona que me deu 2 reais. – informou o rapaz separando uma parte do dinheiro, a maior, para a mãe.

    __ Filho, aqui tem muito dinheiro! Você não queria juntar uns trocados para comprar a tal fantasia? – perguntou dona Rita.

    __ Que nada mãe, amanhã eu faço mais. Trate de ir bem cedo a venda do Seu Carvalho e compra alguma coisa para botar nessa geladeira. Jéssica precisa de iogurte e leite, e a senhora faça o favor de comprar umas roupas novas. Onde já se viu trabalhar na casa de madame e ir toda mal vestida. – dona Rita corou na mesma hora, realmente ela precisava comprar roupas melhores, era uma vergonha entrar daquele jeito nas casas luxuosas onde entregava seus trabalhos de costura. Mas isso no momento não era o mais importante.

    Dona Rita beija-lhe a testa e chama Jéssica para acompanhá-la até o quarto, causando curiosidade ao rapaz que logo é advertido:

    __ Nem pense em entrar no quarto, rapazinho! Eu e sua irmã temos algo para te dar. – mesmo achando aquilo tudo muito estranho, Tião respeita a ordem da mãe e acaba se descontraindo com a televisão, que mesmo sem mostrar a imagem direito, tem um belo som.

    __ Parabéns pra você, nesta data querida. Muitas felicidades, muitos anos de vida... – a alegria de Tião ao ver sua mãe adentrar a sala com aquele bolo nas mãos, acompanhada de Jéssica com um embrulho de presente, só não foi maior que sua surpresa. Ele sabia a data de seu aniversário, mas o trabalho árduo e a vontade de comprar a tão sonhada fantasia, fizeram-no não dar tanta importância a tais coisas supérfluas, seu olhos encheram-se de lágrimas.

    Dona Rita havia feito um bolo de côco com recheio de leite condensado, o preferido do filho, pedira duas garrafas de refrigerante fiado na vendinha da favela, pegou também, na padaria, um galeto assado que logo se uniu ao salgadinho que Tião comprara. A mesa ficou cheia, causando um certo orgulho a mulher.

    Mas o melhor estava por vir. A mãe do rapaz pediu que Jéssica entregasse o presente ao irmão, e prontamente foi atendida. Quando o rapaz abriu o embrulho, teve aquele choque.

    __ O que é isso mãe? A minha fantasia! Aonde a senhora conseguiu dinheiro? – interrogou nosso herói, que mesmo preocupado, não parava de acariciar a fantasia, seus olhos brilhavam como a muito não se via.

    __ Que nada filho. Eu andei juntando uns “troquinhos” e aproveitei alguns retalhos. – os olhos de Tião já diziam tudo, naquele momento não existia alguém mais feliz que ele.

    Os três sentaram-se à mesa, fizeram uma bela oração ao comando de Dona Rita e em seguida comeram satisfeitos a maravilhosa ceia que tinham na mesa. Tião não conseguia esconder sua satisfação, na verdade nenhum deles conseguiu. Comeram e beberam, brincaram e cantaram a noite toda.

    No dia seguinte, mas um fato incomum aconteceu na vida do rapaz. Excepcionalmente, Dona Maria permitiu que Tião faltasse à aula naquela manhã. O rapaz tinha muito a fazer.

    Afinal de contas, ele estrearia a sua fantasia.

                                           Por: Roosevelt A.G.Araújo ([email protected])      

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  • O vendedor de limões
  • Rio de Janeiro, 24 de Dezembro de 1996.

    A temperatura beirava os 42 graus, Janderson se preparava para descansar um pouco na sombra. Era hora de almoço, mas o rapaz só tinha para comer duas bananadas que comprara na barraca de Dona Zica, um tomate e os limões que vendia. A essa altura o jovem vendedor de limões só desprezava suas mercadorias, não aquentava mais chupar limão com sal. Os beiços chegavam a sangrar por dentro de tanta que era a acidez.

    Agachou na biquinha do posto, bebeu um pouco daquela a  água que respingava lentamente, lavou o rosto e jogou-se no papelão. Lembrou que os limões estavam ficando tão secos que nem para limonada serviam mais.

    No corpo castigado usava o boné com o nome do posto que já não lhe protegia tanto, uma camisa social de manga cortada, que fazia um conjunto com a bermuda improvisada feita de uma calça jeans doada por um conhecido e nos pés uma sandália rasteira de couro que o acompanhava a mais de cinco anos. Nas costas, a mochila velha carregada de limões murchos.

    - Peste de vida! Só pode ser castigo de Deus ou ele se esqueceu de mim. – resmungava o andante, enquanto tentava se banhar no gotejo da biquinha.

    O frentista que lá trabalhava, conhecia o rapaz de longos tempos. Cumprimentava-o, admirava sua luta e tinha respeito por ele, mas nunca se aventurara a trocar mais de três palavras com Janderson. Porém decidiu chamá-lo com um assovio, e mas que depressa foi atendido.

    - O senhor me chamou, seu Antônio? – indagou o rapaz, temendo ter feito alguma besteira.

    - Claro que sim! Por acaso você consegue ver alguém além de nós dois nesse lugar? – o vendedor de limão pensou um pouco e respondeu com a cabeça que não.

    - Como é que vão as vendas? – puxou conversa seu Antônio. Espaçoso, rosto encardido de sujeira, cabelo grisalho, de aparência saudável e cheiro constante de gasolina no corpo. O velho sentia muita pena daquele jovem de no máximo quinze anos, isso se levarmos em conta o desconto pelo corpo franzino por causa da fome, caso contrário não daria mais de treze para o menino.

    - Hoje não está bom, mas ontem vendi quase dez reais! – gabava-se Janderson.

    - Olha, menino. Minha esposa fez duas marmitas para mim, sendo uma para comer agora e a outra para a janta. Se você quiser, pode comer uma delas.

    - De jeito e maneira! Se eu comer a outra marmita, o senhor passa a noite sem ter nada para mastigar. Vamos fazer uma coisa. Se o senhor quiser, nós dividimos uma marmita agora e de noite o senhor come a outra. – Antônio sorriu. É realmente não estava errado quanto à boa índole do rapaz.

    Antônio pegou a marmita, pôs para esquentar no fogão duas bocas que tinha no escritório do posto. Em seguida abriu a marmita, dividindo em partes iguais com Janderson, que ficou emocionado com tanta bondade. Para ele, o senhor Antônio seria seu eterno amigo e onde o frentista estivesse, poderia contar com seu apoio.

    __ Seu Antônio, que mal lhe pergunte. Seria possível o senhor me arrumar uma caneca e um punhado de açúcar? – o homem não entendeu bem o pedido do amigo, mas atendeu prontamente.

    Janderson pegou a caneca e o açúcar, tirou três limões da mochila, colocou a caneca embaixo da bica, teve de aguardar uns cinco minutos para encher a caneca de água. Espremeu os limões, misturou com o açúcar e presenteou o homem com a sua especialidade. Limonada.

    As horas correram, já passavam das 10 da noite. Janderson tinha conseguido vender umas três dúzias para um casal que parou para abastecer no posto. Agora faltava só o da passagem.

    Antônio chamou o rapaz no escritório, sabia que ele gostaria de voltar à pensão para encontrar-se com uma namoradinha da vila ao lado.

    __ Moleque, me arranja umas três dúzias, que amanhã eu quero levar para a mulher. – Janderson não era burro e percebeu que o amigo só estava fazendo aquilo para liberá-lo de passar a noite naquele local terrivelmente chato. As horas que passara com o rapaz foram ótimas, conversaram, contaram piadas, riram muito juntos, comeram a segunda quentinha de Antônio e tomaram umas dez canecas de limonada. Mas o frentista sabia que o garoto não era igual a ele. O homem já se acostumara a passar Natal, Ano Novo, Páscoa e outros feriados longe da família, só que o garoto era jovem, cheio de sonhos e desejos. Passar todo aquele tempo ali já era ruim, mas passar o Natal seria um pecado.

    Após muito relutar, Janderson aceitou o dinheiro de Antônio e por coincidência o ônibus para Pavuna, acabara de parar no posto, o velho praticamente jogou-o para dentro. O menino gritou algumas palavras indecifráveis ao homem que nada entendeu, mas acenou para ele até não mais avistar o veículo. Sentiu uma felicidade imensa, pediu a Deus que seu filho jamais sofresse como aquele maravilhoso rapaz.

    Janderson chegou na vila antes das 11 horas da noite. Ellen esperava-o com a família, que sabia das dificuldades na vida do rapaz e por esse motivo fizeram questão de tê-lo em sua mesa naquela noite de Natal.

    O jovem passou horas e horas falando do novo amigo e de sua caridade para com ele. Os pais de Ellen observavam atentamente o futuro genro, que em momento algum se envergonhara de sua vida.

    Já estava amanhecendo o dia, quando os mais velhos decidiram dormir, deixando o jovem casal conversando na varanda. Os dois realmente estavam se gostando muito e até assunto de noivado aconteceu naquele lugar.

    __ Janderson, o dia que a gente se casar você pode chamar o seu Antônio para ser nosso padrinho. – sussurrou a bela menina ao ouvido do rapaz.

    __ Mas você nem conhece ele! E se ele não for do seu agrado? – preocupou-se o nosso herói, já pensando no futuro. Quando de repente surge uma solução:  

    __ Já sei! Vou te levar para conhecer o meu amigo. O plantão dele deve terminar as nove, nós pegamos o ônibus e rapidinho chegamos lá. – o irmão da menina, que por acaso passava no local teve uma idéia melhor.

    __ Ellen, prepara um prato para o amigo do Janderson, que eu levo vocês lá. Mas não demora que eu vou sair com a turma daqui a pouco. – os dois vibraram com a ajuda do irmão de Ellen, ela preparou um belo prato para Antônio, deu um trato no cabelo (afinal de contas, a moça queria agradar o namorado) e partiram em direção ao posto.

    Chegando lá, Janderson percebe um movimento intenso de carros da polícia e de pessoas em direção ao local.

    Ao aproximar-se, o rapaz vê seu amigo estendido no chão com dois tiros no peito. Fora vítima de um assalto minutos após a partida de Janderson, ao lado do corpo estavam os três sacos de limão que o frentista comprara do amigo.

    Ellen e o irmão não sabiam o que fazer, o pobre rapaz estava desnorteado, não conseguia se mover, não conseguia nem chorar. Apenas olhava para o corpo do amigo, ficou pensando em como sua vida mudara naquela noite. Em um minuto não era ninguém, no minuto seguinte fora acolhido por uma família maravilhosa e conhecera seu melhor amigo e logo após perdera esse amigo. E, provavelmente nunca mais teria algum igual.

    Vários anos se passaram e Janderson jamais esquecera de seu amigo. Às vezes perguntava-se o que teria acontecido se não tivesse o abandonado. Mas logo é respondido quando recebe em seus braços o carinho do filho com a esposa Ellen.

     

    Seu nome? Antônio.

                                   Por: Roosevelt A.G.Araújo ([email protected])      

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  • Pobre menino dono das estrelas
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    Que lindo era aquele lugar! As lâmpadas de várias cores piscando freneticamente, chegando a cegar com sua ininterrupta força. Quando apagava era para fazer harmoniosamente um processo de coreografia com suas companheiras. Às vezes uma a uma, de repente todas, em seguida voltavam a acender, as vermelhas apareciam mais, porém as brancas lembravam, e muito, as estrelas que eu via da laje de casa. Deve ser bom poder ver as estrelas dia e noite, era só vir aqui, parar em frente a esse enorme Papai Noel, que parecia ser o guardião delas, e me deliciar com as estrelas que nunca iam embora.

    Marluce também estava admirada com tal beleza, acredito que de forma diferente, mas bastante impressionada. Afinal de contas, ele era uma criança, tinha somente cinco anos. Eu não, com todos os meus sete anos, já havia vivido o bastante para analisar aquelas lâmpadas. Lâmpadas não, estrelas.

    Não sei se foi pela admiração ou pela preguiça, mas o fato é que Marluce acabara se mijar toda (não disse que ela era criança) e isso significava perder tempo, ou seja, ficar longe de minhas estrelas. Eu sei que o enorme Papai Noel lhe protegeria, mas elas eram minhas e eu deveria tomar conta do que é meu. Papai sempre me dizia! E agora que ele morreu, eu nunca esqueço uma frase dele. Antes eu não dava muita atenção. Mas agora que ele está ao lado de Deus, eu não posso decepcioná-lo. Marluce que espere! Já está molhada mesmo...

    Continuei a observar a dança das minhas estrelas. Era como se fosse um ritual: uma a uma, todas acesas, todas desligadas, vez ou outra variavam o movimento causando uma desordem terrível. mas por incrível que pareça, minhas estrelas ficavam ainda mais bonitas.

    Que fedor de mijo está esse lugar!   

    Vi-me em situação difícil e o tempo para raciocinar era pouco. Ou eu levava Marluce ao banheiro e deixava o guardião das estrelas (É! o Papai Noel) tomando conta, ou ficava lá esperando minha mãe e aturando a chata da minha irmã, mas pelo menos perto de minhas amiguinhas. Optei pela segunda...

    Algumas crianças já começavam a fazer um pequeno tumulto à frente de minhas estrelas e eu como um bom rapaz, não me ofendi com isso. Porém o número de crianças ia aumentando e a minha visibilidade diminuindo cada vez mais. Ainda mais que além das crianças, diversos adultos se misturavam ao tumulto. Ora para ver as estrelas, ora para resgatar os filhos menores que estavam quase sendo pisoteados naquela bagunça. Começaram a observar a mim e a minha irmã, e ficavam fazendo comentários. Olhavam para a gente como se fossemos um punhado de merda no chão. Marluce era pequena. Será que os filhos deles nunca mijaram nas calças? Será que filho de rico não faz isso?

    Veja só, transformaram meus momentos de prazer inenarrável em um espetáculo circense, e nós éramos os animais expostos. Acho até que fizemos mais sucesso que as minhas estrelas e o guardião juntos. Eu comecei a ver aquilo como uma afronta. Afinal de contas, somos feitos de carne e osso como qualquer um deles.!

    Lembrei-me do morro, de quem eu era, percebi as pessoas nos olhando como se eu e Marluce fossemos animais perigosos prontos para atacar seus filhos. Eu não pedi para eles virem ver minhas estrelas, eu nem as queria aqui! Queria levá-las para casa. Bando de monstros, julgam-se melhores que eu? Acham que seus filhinhos ricos têm mais direito de verem minha estrela que eu, o dono? Um dia vocês hão de me pagar.

    Uma voz dentro de mim me mandava lutar pelo que é meu, igual aos garotos da comunidade que, se fosse o caso, até matariam para não perderem suas coisas. Se eu estivesse com a arma do pessoal lá do movimento atiraria em toda essa gente e levaria minhas estrelas para casa. O guardião ficaria aí, ele é muito grande e ficaria fácil para os “vermes” nos acharem.

    No morro é assim, se não der para levar a gente queima e deixa no asfalto.

    Alguns minutos depois, um homem de uniforme igual ao dos “vermes” me pediu delicadamente para sair, se não me engano foi mais ou menos assim: “Seu moleque f.d.p. dá o fora daqui do shopping com essa garota fedida, ou eu jogo vocês dois na vala” - se não foi isso foi bem parecido. Mas espera aí...

    Shopping?!? Ele disse, shopping? Então é assim? Bem que já haviam me falado de como era bonito esse lugar, mas mamãe não tinha me contado que aqui era um shopping. Que legal, hoje à noite na festa de Natal lá da comunidade vou contar para todo mundo que fui ao shopping, ver minhas estrelas e o meu amigo guardião. Aposto que todos vão morrer de inveja. 

    Mas o mais engraçado é que conforme eu ia saindo, escoltado pelos “vermes” (sem armas) eu não conseguia pensar nem na humilhação de sair escoltado, nem em minhas estrelas, nem no meu amigo guardião e muito menos na minha vingança futura. Eu só pensava em como Deus é bom para mim e para minha irmã, permitindo-nos além de ter nossas próprias estrelas, conhecer um shopping.

    Mamãe correu ao nosso encontro quando viu os “vermes” nos expulsando, porém nada pode fazer. Tentou esboçar alguma reação com pequenos xingamentos, depois desistiu, mas não sem antes fazer um belo gesto com os dedos para eles. Essa minha mãe!

    Saímos correndo pela rua, contei a ela das estrelas, do guardião e do shopping. Acho que ela sabia tanto quanto eu que aquilo era um shopping, mas deixe estar!  Ficamos andando, rindo-nos muito e  percebemos que esse seria um grande dia!

    E por essas e outras que eu adoro o Natal!

                                               Por: Roosevelt A.G.Araújo ([email protected])      

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    Tempos felizes

    Eu me lembro daquele dia como se fosse hoje! O pai do Marcelo  desesperado, ligando ininterruptamente para o celular do filho. Não era possível, seu filho não poderia ter feito aquilo com ele, Marcelo sabia que a vida de Seu Cássio não era a mesma desde o falecimento da esposa. E agora, o filho desaparece sem nada dizer.

    Realmente foi chocante! Tremenda festa de fim de ano, todo mundo chapado, uns de bebida, outros de pó. Marcelo estaria conosco naquela hora se não houvesse sido chamado para curtir a virada do ano na casa de um amigo lá na Barra da Tijuca.

    Pobre amigo! Ali, ele escrevia o fim de seus dias na Terra. Muito louco que estava, Marcelo queria acompanhar o ritmo dos grã-finos. Meteu a “napa” a noite toda e não se contentou, tomando meia garrafa de Chivas. Seu estado era precário, mas para o pessoal de lá, ele nada mais era do que um mulato pobre que veio animar a festa dos riquinhos.

    Marcelo não estava se aquentando, já havia vomitado três vezes e sempre que voltava cheirava e bebia mais ainda. Tony, o cara que havia lhe convidado, chegou até a tentar convencê-lo a parar, mas as gurias que vieram de São Paulo ficavam incentivando-o a cheirar mais. E ele, bobo do jeito q  eu era, aceitava a sugestão.

    Por volta das duas da manhã, Marcelo diz a Tony que gostaria de tomar um banho de mar. O colega não quis acompanhá-lo, porém ele decidiu ir sozinho mesmo. Desceu o elevador, atravessou a rua e pronto já estava na areia da praia. Mesmo completamente desorientado, Marcelo decide entrar no mar e dar seu ultimo mergulho do ano. Só que esse teria sido o ultimo mergulho de sua vida.

    Por volta das quatro horas da manhã, Tony sente a falta do amigo e decide descer para procurá-lo. Anda um pouco no calçadão, arrisca umas passadas na areia, mas nada de achá-lo. Foi quando avistou um grupo de pessoas amontoadas na areia, todos olhavam para o chão, mas Tony não conseguia ver nada. Quando se aproximou mais, o choque, Marcelo estava caído, seu corpo gelado, uma substância leitosa escorria de sua boca. Diziam que ele ainda estava vivo, mas tinha dificuldades em respirar e aquela gosma que saia de sua boca só piorava a situação.

    O rapaz ainda ficou agonizando por volta de meia hora, quando com as ultimas forças que ainda lhe restaram, gritou uma única palavra: “Pai!”, e faleceu logo a seguir. Tony ficou mais preocupado do que triste, as turistas de São Paulo riam-se desorientadamente, talvez pelo efeito  do ácido. As pessoas olhavam a atração circense e voltavam para suas orgias, uma mãe de santo que passava por lá acendeu uma vela para o rapaz, fez seu ritual e também foi embora.

    Algumas horas depois, o Senhor Cássio aparece na praça lá do bairro, onde estávamos bebendo. Já sabíamos do acidente, mas preferimos fingir que nada acontecera. A cocaína ajudava bastante!

    O homem me chama:

    __ Allan, por favor. – dizia Cássio falando de forma estranha, como se estivesse drogado.

    __ E aí Seu Cássio? O que está acontecendo? – perguntei eu já cansado de saber a resposta.

    __ Eu não sei meu filho, o Maurinho recebeu uma ligação de um amigo de Marcelo dizendo que ele havia se ferido e estava no Hospital Central da Barra. Eu estou com mau pressentimento. 

    O homem não conseguiu terminar de falar, não se conteve, blasfemando e xingando todo mundo, dizia que estavam lhe escondendo algo.

     Acho que ele havia bebido antes do telefonema e ,preocupado, Maurinho (irmão de Marcelo) deu-lhe um tranqüilizante antes de partir para o hospital.

    Após algum esforço, Seu Cássio continuou:

    __ Por favor, Allan. É que eu estou meu tonto e muito nervoso para guiar o carro e gostaria de lhe pedir para me levar até o hospital também.

    Era difícil negar um favor àquele pobre pai, e decidi levá-lo. Miriam, minha namorada também foi conosco.

    As ruas estavam vazias, facilitando a chegada. O pai desesperado desce do carro como um louco, todos já sabiam o que havia acontecido, inclusive ele, mas talvez naquele ultimo suspiro de confiança, Seu Cássio ainda acreditava na possibilidade de nada ter acontecido.

    Mas bastaram três palavras do médico que atendeu Marcelo, para o homem cair aos prantos. Ele não poderia estar morto, era apenas um menino. Dona Flora ficaria enlouquecida, ela era doente, não podia sentir emoções fortes.

    Quando por um segundo Seu Cássio lembra-se que a esposa falecera há alguns meses. Ele sentou no meio fio, pegou na carteira uma foto onde Flora e Marcelo estavam juntos. Acariciou a foto e sorriu. Não era possível entender o que estava acontecendo, a poucos segundos o desespero, de repente ao olhar a foto Seu Cássio se acalmou. Estávamos distantes do homem, mas eu tinha a nítida certeza que ele conversava com alguém. Devia ser impressão minha...

    Sete da manhã.

    Mirian dormia no banco de trás do carro, Maurinho corria atrás da papelada do enterro e eu fiquei sentado naquela calçada ao lado do pai de Marcelo. Lembrei de quando eu, Marcelo e Maurinho brincávamos todos os dias lá no prédio. Lembrei de Dona Flora preparando lanche para nós três. Aquelas lembranças fizeram-me ver o quão eram importantes àqueles simples momentos.

    Pensei em levantar o homem que por efeito dos tranqüilizantes desmaiara naquele chão, pensei em falar-lhe algo. Mas não tive coragem, olhei uma capela no alto do hospital, me aproximei e rezei, pela primeira vez na vida, pedindo a Deus que console aquele pai amargurado. E pedi também mais uma chance de eu voltar a viver aqueles tempos tão  felizes que nunca valorizei. Nem que fosse em um sonho, nem que fosse pela ultima vez.

                                       Por: Roosevelt A.G.Araújo ([email protected])      

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