Contos:

                                      A Águia

"...os contos que encantam quem conta e ouve, me caem com cantos. Doces cantos..."

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Casa de papai

Ela nem se deu conta das horas, e muito menos percebeu que era véspera de Natal quando ouviu os vizinhos se confraternizando. Olhou o calendário na mesa e sorriu: “É Natal!” – mas naquele momento, as lembranças boas não eram sua prioridade. De bom em sua mente, só a última festa que passara com Adriano.

Lembrou-se, emocionada, da noite que o Senhor Alberto se vestiu de Papai Noel e entrou pela janela do quarto. O falastrão do Adriano ficou apavorado e saiu gritando pela rua que um ladrão entrara em sua casa, foi uma confusão só. Naquele dia riram muito e passaram a noite toda conversando e devorando a deliciosa ceia de Dona Aurora. Talvez esse tenha sido o último momento de felicidade na família. Seu irmão Adriano faleceu dois meses depois, num acidente de automóvel, com apenas treze anos de idade. E tudo mudou naquela família.

Sem agüentar mais aquela vida triste e solitária, Flora decidiu se mudar. Na época já começava a receber propostas de emprego como modelo, e juntara o pouco dinheiro que seus pais lhe davam. Pois seu Alberto pedira demissão do emprego e as coisas começaram a apertar.

A sua mudança já havia sido anunciada com antecedência, e provavelmente a contento dos pais que sabiam que a vida da menina estava sendo estragada naquele ambiente infeliz. E no dia da mudança Dona Aurora presenteou-lhe com todas as suas economias, mesmo sobre protesto da filha que demorou a entender que o dinheiro nada mais significava para aquele casal.

“Nós te amamos, filha. Perdoe-nos por não te fazer feliz. Não foi por querer!”.– o coração de Flora sangrou naquele dia, sentiu-se uma traidora. Mas Adriano estava morto, seus pais em situação pior. E ela! Ela estava viva, precisava respirar. Precisava viver! Onze anos de sua vida haviam sido perdidos, com a morte do irmão; Ela já era uma mulher, e precisava viver como tal.

Como em todo início, as coisas não andaram muito bem. Mas logo, com sua determinação, Flora se ergueu e conseguiu vencer na Selva de pedras que é a cidade grande. Fez sucesso nas passarelas, ganhou prestígio e dinheiro, muito dinheiro. Porém um pouco tarde para ajudar os pais, que não tiveram tempo de dividir com ela esse sucesso; A única coisa boa nisso é que descansaram juntos. Como sempre viveram.

 

Mas voltando a noite de Natal...

Mesmo com todo sucesso, Flora não tinha amigos. Vivera solitária a vida toda, talvez tentando se castigar pela morte do irmão, ou pelo abandono aos pais. Uma coisa era certa: Ninguém se importava, realmente, com ela. O empresário queria seu dinheiro, as pessoas que a cercavam, seu sucesso. Ela só queria paz.

Flora teve vontade de gritar para os vizinhos pararem com aquela afronta; Aquela alegria desnecessária que tanto demonstravam. Queriam apenas denunciar-lhe que, mesmo sem ter o dinheiro que ela tinha, poderiam ser felizes, somente por serem unidos. Afinal, eles sabiam que ela estava passando por maus momentos, sabiam que a mulher abandonara a família; Flora percebia os comentários quando viam-na saindo de casa. Provavelmente pensavam: “Lá vai a doida!” Ou talvez: “Cuidado crianças, essa mulher deixou os pais morrerem na pobreza”.

A solitária mulher pegou o copo de uísque, separou quatro comprimidos de sua caixa de antidepressivo, olhou para casa – o engraçado é que desde pequena, ela sempre sonhou com uma casa assim – talvez querendo levar para a outra vida lembranças boas. Aproximou os comprimidos da boca e quando ia engoli-los, a companhia toca.

__ Que momento ruim para aparecer na casa de alguém. Principalmente se esse alguém está querendo tirar a droga da vida! – pensou a mulher, já ironizando seu fim. Naquela hora a bebida já dava provas de sua existência.

__ Quem é? – berrou a enfurecida mulher. Quando recebe a porta a visita do filho da sua vizinha (a mesma que a afrontara com sua medíocre felicidade) que com um belo sorriso entregá-lhe uma bandeja repleta de guloseimas.

__ Mamãe mandou lhe trazer essa ceia e disse que ficaria muito feliz se a senhora fosse comemorar o Natal conosco. – a poderosa mulher, sempre tão dona de si não se agüentou. Caiu em prantos, aos pés do menino, que por uma curiosa coincidência parecia-se com Adriano.

__ Me perdoe Adriano! – agonizava a mulher - Se eu soubesse que isso tudo fosse acontecer, nunca teria te deixado sozinho! – o menino não entendeu bem o que estava acontecendo. Afinal, seu nome nem era Adriano; Mas preferiu não contrariar a mulher.

O jovem levantou Flora, limpou seu rosto com a roupa do corpo e beijou-lhe a face. A mulher sentiu naquele momento a doce presença do irmão e acompanhou o jovem até sua casa, onde ansiosamente, a família dele lhe esperava.

__ Flora, que prazer em recebê-la aqui! Gostaríamos de tê-la convidado antes, mas achamos que você poderia não gostar da idéia. – todos vieram cumprimentá-la, deviam ter mais de dez pessoas naquela sala. Não eram tão ricas quanto elas, nem tinham uma casa tão bonita. Mas naquele lugar, Flora passou as melhores horas dos últimos dez anos.

Ela sabia que no dia seguinte voltaria a ser a mesma Flora de sempre. Solitária e amargurada. Mas, pelos menos naquela noite, seria feliz novamente.

                           Por: Roosevelt A.G.Araújo ([email protected])      

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A prisão

Eu só pensava em meus pais, o mundo girava ao meu redor e eu só pensava em meus pais, meu futuro comprometido e eu só conseguia pensar em uma coisa: neles.

Fiquei imaginando o que eles estariam fazendo naquele exato momento. Geralmente, assistiam  à televisão com uma bela panela de brigadeiro em um canto da cama e uma de pipoca, maior ainda, noutro. Já estava até vendo: todos no quarto de papai, o ar condicionado ligado, Rubens e Paula discutindo sobre a temperatura do ar, mamãe entrando com as panelas na mão. É engraçado como isso está me fazendo falta agora! Parece até que sinto o cheiro da pipoca.

Onde estou tudo é diferente. Um monte de gente mal cheirosa andando em minha volta. Alguns até me encarando, mas falar nunca!_ Acho que faz parte das regras daqui._ As horas parecem não passar, eu sinto um frio horrível, sinto falta de banho, sinto-me fedido também.

Será que mamãe fez pipoca doce? Não, papai odeia sujar as mãos com o melado do açúcar derretido. As de sal, vinham até com manteiga e todos ficavam satisfeitos.

Esse cheiro de pipocas não me deixa em paz!

Às vezes ouço vozes do lado de fora, mas são sempre passageiras e nunca endereçadas a mim. Dia desses ouvi gritarem: “Meu filho, eu te amo! Eu preciso de você.”, mas tenho certeza que não eram para mim, pois eu berrei de volta e não obtive resposta e o mais engraçado é que nesse dia o tal cheiro de pipoca que me perseguia, parecia ainda mais forte.

Aqui, eles nunca nos dão notícias da família. Eu ficava indócil sem poder ver mamãe. Por que ela ainda não veio me visitar? Será que também é proibido? E com a ausência deles, eu acabo tendo  tempo de sobra para pensar no acidente e me arrepender daquilo. Cretinos, além de sofrer aqui, ainda tenho que ficar lembrando daquela  garota que morreu por minha culpa. Cocaína é foda!

Pipoca doce! Definitivamente papai era um  louco em não gostar de pipoca doce.

Por acaso descobri que o meu amigo Lucas  morreu no acidente. E foi por acaso mesmo. Tinha um jornal rolando no chão, indo para um lado e para o outro, de repente ele cai bem na minha frente e como eu não tinha nada para fazer, resolvi lê-lo. Na primeira página já aparecia o carro, totalmente destruído, e do lado, a foto da menininha que falecera no acidente. Realmente era uma bela menina!

 

Alguém pode acreditar que uma pessoa não coma pipoca doce? Pelo menos o brigadeiro ele comia, e como comia. Era um tal de roubar brigadeiro um do outro. Eu era tão feliz! Quando sair daqui mando mamãe fazer um balde de pipoca doce para mim.

 

O jornal estava bem surrado e não deu para ver nem a minha foto, nem a de Lucas. Só consegui ler um trecho da notícia: “Um dos criminosos responsáveis pela morte da menina J.P.S de 8 anos, morreu na hora. O outro criminoso foi levado às pressas para o Hospital Central para receber os cuidados médicos.”

Pelo menos podiam me identificar! “O outro criminoso...” . Porra, se é para meter o pau, que faça da maneira certa. Até a menina teve seu nome exposto no jornal. “J.P.S”, fiquei horas tentando imaginar o significado daquelas siglas. Selecionei duas traduções: Janaina Paula e Souza ou Josiane Pereira Santos. Optei pelo Janaína, mas não sei nem por que. E a partir daquele dia, passei a imaginar a menina como Janaína Paula e Souza.

Lembrei do acidente, parecia cena de cinema! E mesmo muito ferido, eu conseguia ver tudo. Vi as ambulâncias, os médicos, a menina, a bicicleta, meu amigo, o carro que roubamos, vi um cartaz na minha frente que dizia: “O cigarro faz mal a saúde.”. Lembrei que eu nunca pus um cigarro na boca, baseado fumei mais de mil, mas cigarro nunca.

As pessoas ficaram chocadas com a morte da menina, gritavam para o meu amigo que ele era um assassino, tacavam-lhe pedras, chutavam-lhe o rosto como se fosse uma bola de futebol. Fingi-me de morte e acho que funcionou, pelo menos ninguém me chutou. Somente uma menina ficara perto de mim, estava parada, completamente imóvel a minha frente. Era difícil  ver seu rosto. Ela usava um vestido vermelho e tinha um urso de pelúcia nas mãos, o máximo que  consegui foi perceber que ela chorava. Completamente em silêncio, mas chorava. Fiquei imaginando como uma mãe permite que uma criança tão pequena presencie algo tão traumático.  Depois não vi mais nada e acordei aqui nesse lugar. 

 

Descobri uma forma de comer a pipoca doce sem incomodar papai. Bastava apenas mamãe fazer metade doce e metade salgada, assim poderíamos comer as pipocas doces e depois assaltaríamos as salgadas de papai. Ninguém havia pensado nisso, quando eu voltar, contarei meu plano para mamãe, deixarei papai feliz e voltarei a ser o queridinho da família, retornarei a faculdade, reatarei meu noivado com a Melissa e passaremos uma  borracha nessa história triste.

Mamãe vai adorar a minha idéia!

Esse cheiro de pipoca deve ser psicológico. Só pode ser...

Um grito desesperado de socorro ecoa pelo pátio, seguido por uma sucessão de outros gritos e xingamentos. Dava a impressão de ser uma briga feia e pelo pouco que consegui ver,  parecia que a ira de todos os detentos estava sendo despejada em uma única pessoa.

Não resisti e corri em direção a confusão, facilmente passei por todas aquelas pessoas, e para minha surpresa, a vítima do linchamento era Lucas. Não entendi nada! Como poderia ele estar naquele lugar? Senti-me angustiado, tentei achar alguma explicação, a sensação de pânico tomava conta de mim. Toda a minha vida passou em minha mente naquele momento: Lucas me chamando para sair, o roubo do carro, a bicicleta da menina, o acidente, a revolta das pessoas naquele momento, minha mãe gritando “Meu filho eu te  amo...”, a menina chorando ao meu lado no acidente. Eu tentava achar alguma explicação.

Fiquei transtornado, tentei falar com Lucas ou com qualquer um. Mas parecia que eu não estava lá, parecia que ninguém estava me vendo.

Corri atrás do jornal, não conseguia encontrá-lo e meu desespero aumentava ainda mais à medida que o tempo passava. Ninguém me ajudava, eu perguntava sobre o jornal, mas todos me ignoravam.

Finalmente avistei o jornal. Joguei-me ao chão para pegá-lo e logo visualizei a foto da menina exposta na primeira página. E lá estava, uma bela menina, de vestido vermelho e um lindo ursinho de pelúcia nas mãos.

Apartaram a briga, levaram  Lucas para a emergência e os detentos para suas respectivas celas. Eu continuei lá! Sozinho, completamente sozinho. Ninguém me tocou, também não poderiam. Finalmente, percebi porque todos me ignoravam.

Não mais vi meu amigo.

Dia desses, consegui sair. Não tinha mais razão de  permanecer naquele lugar. Passei por um grande rol e no final dele vi algo que me emocionou muito.

Vi mamãe abraçada a um túmulo, coberto de flores e fotos de toda a família. Ela suplicava meu nome, parecia pedir a Deus para ir comigo. E o mais curioso é que no meio de tantas lembranças, de tantas flores e de tantas fotos, havia algo muito familiar.

Um delicioso cheiro de pipoca...

Acho que era doce!

É, onde estou tudo é diferente. Um monte de gente mal cheirosa continua andando em minha volta. Alguns ainda me encaram, mas falar nunca! _ Acho que faz parte das regras daqui._ As horas parecem não passar, eu sinto um frio horrível, sinto falta de banho, sinto-me fedido também.

                           Por: Roosevelt A.G.Araújo ([email protected])      

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