Junte-se à Aliança Ur-Platônica!
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O que há com um nome? Eu sou um tomista não-reconstruído, mas eu seria o último a negar que é um erro pensar que um homem, Santo Tomás de Aquino, de alguma forma tenha acertado tudo sozinho. Aquino foi, é claro, parte de uma tradição muito maior que estende-se desde os antigos filósofos gregos. Muito de sua conquista é relacionada à sintetização dos melhores elementos de diferentes vertentes de pensamento que ele herdou de seus predecessores, especialmente as tradições platônico-agostiniana e aristotélica. E, é claro, seus sucessores adicionaram ainda mais elementos importantes à mistura.
Por isso, em alguns contextos, é útil empregar um rótulo que captura esta abrangência mais claramente que "tomismo" - tal como "tomismo aristotélico" ou, mais abrangente, "escolasticismo". De fato, eu mesmo sou especialmente afeiçoado pelo rótulo "escolástico", e eu estimularia sua adoção maciça por jovens filósofos e teólogos católicos - em parte por razões substanciais, mas também em parte como uma forma de mostrar solidariedade com um grupo de pensadores que foram os maiores que a Igreja já produziu, e ainda assim tem sido por tanto tempo injustamente demonizados até mesmo por seus compadres católicos.
Porém, especialmente quando as questões não têm a ver especificamente com a teologia católica, mas são de preocupação filosófica mais abrangente, mesmo o rótulo "escolástico" pode por vezes ser estreito demais. Existe um conjunto de ideias e argumentos que têm sua origem em Platão e Aristóteles e são de comum possessão de pensadores pagãos como Plotino, judeus como Maimônides, e islâmicos como Avicena e Averróis, bem como os Pais da Igreja e os grandes escolásticos. O rótulo "teísmo clássico" captura a teologia filosófica compartilhada por esse grupo diverso, e "lei natural clássica" captura sua perspectiva ética compartilhada. Mas ainda há outros temas filosóficos que não são capturados por esses rótulos.
O neoescolástico do século XIX Josef Kleutgen sugeriu outro rótulo no título de seu importante e recém-traduzido livro,Pre-Modern Philosophy Defended. Ainda assim outros rótulos algumas vezes usados durante a era neoescolástica incluíam "realismo clássico" e "a filosofia perene". O problema com esses dois últimos rótulos é que eles são um tanto quanto vagos, e têm sido desenvolvidos por outros em contextos muito diferentes para conotar ideias que não têm essencialmente nada a ver com os filósofos mencionados acima.
Agora, existe outra maneira de pensar sobre a tradição que estou descrevendo, que tem sido desenvolvida por Lloyd Gerson em seus importantes livros Aristotle and Other Platonists e From Plato to Platonism (que em breve se juntarão a um terceiro volume intitulado Platonism and Naturalism: The Possibility of Philosophy). Numa excelente palestra recente para o Thomistic Institute’s Student Leadership Conference na Dominican House of Studies, Fr. James Brent propôs adotar a moldura de Gerson como uma maneira de compreender o secularismo contemporâneo. Fr. Brent sugere que o conflito entre secularismo e crentes religiosos tradicionais não é meramente uma disputa sobre a existência de Deus, mas resume-se a um conflito maior entre o naturalismo filosófico de um lado e o que Gerson chama de "Ur-platonismo" ou "grande" platonismo de outro.
Como o título do seu primeiro livro acima referido indica, Gerson vê Aristóteles como parte da tradição platônica construída largamente, e este é de fato como muitos dos antigos também o viam. É claro, Aristóteles discordava de Platão em alguns pontos importantes, mas esta discordância tomava lugar em um pano de fundo de concordância nos fundamentos filosóficos. Gerson também argumenta por um retorno à antiga visão de que o pensamento dos assim-chamados "neoplatônicos" como Plotino (que pensavam de si mesmos como simplesmente platônicos e ponto, e que também consideravam Aristóteles como parte do clube platônico) foi de fato contínua com o pensamento de Platão, em vez de marcar alguma ruptura ou novidade. Gerson propõe um par de maneiras de falar da natureza da concordância geral que existia entre estes pensadores.
Em From Plato to Platonism, ele sugere que o núcleo comum do "ur-platonismo" pode ser caracterizado em termos negativos, como uma conjunção de cinco "antis": anti-materialismo, anti-mecanicismo, anti-nominalismo, anti-relativismo e anti-ceticismo. Juntos, eles elementos formam um sexto anti, a saberm anti-naturalismo. Pensadores da tradição ur-platônica compreendem as implicações da conjunção desses antis de uma maneira que difere em muitos detalhes, mas certos temas comuns tendem a emergir, como a tese de que a explicação última requer posicionar uma causa divina não-composta, a imaterialidade do intelecto, e a objetividade da moralidade. Em sua palestra, Fr. Brent segue esta abordagem para caracterizar a tradição.
Em Aristotle and Other Platonists, Gerson propõe uma caracterização da tradição, como compreendendo sete temas-chave:
- O universo tem uma unidade sistemática;
- Esta unidade reflete uma hierarquia explanatória e em particular uma abordagem de explanação descendente "de cima para baixo" (em oposição à abordagem ascendente "de baixo para cima" do naturalismo), especialmente nos dois aspectos chave que o simples é anterior ao complexo e o inteligível é anterior ao sensível;
- O divino constitui uma categoria explanatória irredutível, e deve ser concebido em termos pessoais (ainda que em alguns pensadores ur-platônicos o aspecto pessoal seja altamente atenuado);
- O psicológico também constitui uma categoria explanatória irredutível;
- Pessoas são parte da hierarquia e sua felicidade consiste em recuperar uma posição perdida nela, de uma maneira que pode ser descrita como "tornar-se como Deus";
- Valores moral e estético devem ser analisados em referência a esta hierarquia metafísica; e
- A ordem epistemológica está contida na ordem metafísica.
Se Gerson e o Fr. Brent estõ corretos, é de se argumentar que as duas visões competidoras na história do pensamento ocidental são representadas pelos ur-platônicos de um lado, e do outro lado pelos que defdendem as posições que os ur-platônicos se opõem (a saber, materialismo, mecanicismo, nominalismo, relativismo e ceticismo), e especialmente naturalistas filosóficos. (Eu não quero com isso negar que existem pensadores que não caem sem ambiguidadex em qualquer desses campos. É claro que existem. Mas eu penso que pode-se argumentar que estas são as principais tendências, e que mesmo pensadores que não caem claramente em uma ou outra ao menos tendem na direção de uma ou outra.)
O principal ponto negativo do rótulo ur-platonismo é que o termo "platonismo" nos nossos dias é usualmente empregado por filósofos acadêmicos para referir-se à tese que existem objetos abstratos (tais como as formas platônicas e os objetos matemáticos) existentes num "terceiro reino" distinto ou do mundo material ou de qualquer mente. Mas, como argumenta Gerson, historicamente falando esta é de fato uma maneira muito estreita de usar o termo. Por exemplo, não era isso que os Pais da Igreja queriam dizer quando falavam do platonismo, e não era isso o que os assim-chamados neoplatônicos queriam dizer quando falavam de platonismo. Considere também que quando pensadores naturalistas como Nietzsche e Richard Rorty usam "platonismo" como termo pejorativo descritivo daquilo ao que se opõem, eles não querem meramente dizer a tese que existem objetos abstratos. Em vez disso, o que eles querem se opor é precisamente a tradição mais abrangente que Gerson chama de "ur-platonismo".
Se os naturalistas são os vilões, então "ur-platônico' é um rótulo bom o bastante para os mocinhos. Eu recomendo ouvir a palestra de Fr. Brent, e todos os estudantes sérios de filosofia e teologia estão bem advertidos em estudar o trabalho de Gerson.
2 META
- Autor: Edward Feser
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