A Escritura descreve dois tipos de apostasia?
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Em minha série sobre perseverança dos santos eu lidei com as passagens de advertência de Hebreus. Eu mudei minhas visões sobre certos aspectos da apostasia enquanto estudava o assunto. Porém, minha visão que a apostasia de uma verdadeira fé salvífica é possível nunca mudou. Eu não posso simplesmente ler a Bíblia honestamente e negar tal realidade, mesmo se fosse bem mais reconfortante crer que verdadeiros crentes não podem abandonar a fé. Minha série sobre perseverança apresentou muito da base exegética para minha forte convicção de que verdadeiros crentes podem abandonar a fé e perecer eternamente. Eu não cobrirei esta base aqui novamente, mas redirecionarei qualquer um interessado a estas postagens a fim de examinar a forte evidência exegética.
Lidando com as passagens de Hebreus pode-se facilmente chegar à conclusão que a apostasia descrita aqui parece ser de natureza irremediável. Robert Picirilli e F. Leroy Forlines (entre outros estudiosos) fazem um caso forte sobre a apostasia ser irremediável baseados nas passagens de alerta de Hebreus. Ao lê-los, eu fui demovido da minha posição de que um apóstata pode sempre ser restaurado à fé. Porém, observando o contexto e considerando outras passagens da Escritura, cheguei à conclusão que há dois tipos de apostasia, uma irremediável e uma da qual a pessoa pode ainda recuperar-se. Eu descrevi esta possível distinção neste post. A ideia básica é que a apostasia descrita em Hebreus é a mais severa forma possível de apostasia. É um repúdio de todo coração da fé e da completa experiência espiritual uma vez experimentada pelo crente cheio do Espírito. De tal apostasia o escritor de Hebreus nos informa que "é impossível renová-los para o arrependimento". Este é o tipo de apostasia que os judeus de Hebreus provavelmente estariam encarando ao serem tentados a retornar para o judaísmo após tornarem-se cristãos. Em tal retorno é provável que o antigo crente teria publicamente repudiado Cristo como impostor e falso messias que corretamente sofreu morte por Sua blasfêmia como criminoso comum. Isto faz sentido na linguagem específica descrevendo o apóstata como um que crucificou novamente para si mesmo o Filho de Deus e O colocou em vergonha pública (6:6, cf. Hb 10:29, onde se diz que o apóstata "pisou o Filho de Deus, menosprezou o sangue do Testamento no qual ele foi santificado").
A forma menor de apostasia não envolve um repúdio do fundo do coração da fé em Cristo. Em vez disso, envolve um deslize numa atitude de descrença prática onde não se está mais preocupado com as coisas de Deus e se começa a viver a vida caracterizada por rebelião e pecado.Tal pessoa pode até acreditar que ainda é cristã, enquanto vive como um diabo. Esta apostasia não seria diferente que a outra no resultado em que um relacionamento vital com Cristo deixaria de existir, resultando em morte espiritual. Ela diferiria somente na extensão em que se afasta de Cristo, ainda não chegando a um completo repúdio de Cristo e da experiência cristã. Seria como aqueles que alegam conhecer Deus, mas cujas ações O negam. Eles não negam a Cristo completamente, mas não têm preocupação em viver para Deus ou manter um relacionamento com Cristo. A morte espiritual resultaria em qualquuer dos graus de apostasia, mas para o grau menor pode ainda haver esperança de um retorno a um relacionamento salvífico com Cristo. Porém, ao longo do tempo esta forma menor de apostasia, se não for devidamente tratada, levará a um coração de tal maneira endurecido que levará a uma irremediável e total apostasia como descrita em Hebreus 6 e 10.
Alguns adotam uma visão semelhante mas eles chamariam o que eu chamei de uma apostasia menor como "recaída" e mantêm que o relapso ainda está salvo (esta é a posição dos batistas livres Robert Picirilli e F. Leroy Forlines). Minha visão basicamente vê o relapso como não-salvo enquanto ainda numa posição onde a recuperação é possível. Eu nunca realmente ouvi minha posição sendo expressa antes, mas fiquei feliz em descobrir que Henry H. Halley chegou essencialmente à mesma conclusão em seu "Halley's Bible Handbook". A única diferença seria que ele parece ver uma possível descrição de uma apostasia parcial e uma total em Hebreus 6, onde eu vejo a passagem como descrevendo apenas a apostasia mais severa. Debaixo de Hebreus capítulo seis (pp. 650, 651) ele escreve:
A queda do cristão, dita no verso 6, pode ser parcial ou total; como a pessoa pode cair de um topo de um prédio até uma saliência, ou até o térreo. Enquanto a apostasia for parcial, pode haver esperança. Quando torna-se total, a recuperação torna-se impossível.
O pecado aqui falado pode ser semelhante ao pecado imperdoável mencionado por Jesus (Mt 12:31,32 e Mc 3:28-30), onde a implicação é que tal pecado consistia em atribuir os milagres de Jesus a Satanás, e que, em Lc 12:9-10, é conectado com a negação de Jesus. Ele poderia ser cometido por uma pessoa de fora da igreja. O pecado aqui refere-se a uma queda do cristão. A essência do pecado fatal, seja pelo cristão, seja pelo que está fora, é a rejeição final e deliberada de Cristo. É como se a pessoa no fundo do poço, para quem a corda é deitada, cortasse a corda para longe além do alcance, portanto cortando fora sua única via de escape. Para aqueles que rejeitam Cristo, não haverá nunca outro sacrifício para o pecado (10:26-31). Eles terão de sofrer pelo próprio pecado.
Além deste temeroso alerta contra cair de Cristo, o escritor é bastante positivo que, para aqueles que permanecem fiéis e verdadeiros a Cristo, a esperança da eterna salvação é absolutamente certa e firme, baseada na imutabilidade das promessas de Cristo àqueles que confiam nele (9-20). (Ênfase minha)
Descubro que minha visão é prática e teologicamente superior à de Forlines e Picirilli, onde ela não deixa espaço para a possibilidade de antinomianismo que pode resultar numa visão de "recaída" que mantém que o relapso ainda é salvo. Forlines e Picirilli mantêm que enquanto se é salvo a santificação está tomando lugar, mas é difícil encaixar com sua insistência de que um relapso ainda é salvo. Talvez apenas tenhamos visões diferentes do que um relapso é, mas se um relapso ainda está num processo de santificação é difícil entender por que ele seria considerado um relapso. Santificação é um processo progressivo. Enquanto alguém está neste processo progressivo, não vejo como se pode chamá-lo de "relapso". Isto parece uma contradição de termos. Pode também ser que minha visão veja na recaída como algo mais sério. Eu não consideraria frequentes lutas contra o pecado como recaídas. É possível que alguém esteja lutando contra o pecado e ainda esteja em processo de santificação. Que o crente esteja "lutando" é evidência suficiente que a santificação está tomando lugar. A "recaída" ou "apostasia menor" que estou descrevendo é caracterizada por uma atitude de despreocupação com a luta contra o pecado ou com o arrependimento.
Minha visão também adota que a descrença é o que ultimamente corta o relacionamento com Cristo. A diferença tem a ver com o grau da descrença. Uma é uma descrença prática onde se resulta uma vida de pecado e rebelião. A outra é uma descrença total e prática, caracterizada não apenas pelo pecado e estilo de vida vazio de fruto, mas um repúdio de Cristo e da experiência cristã. Seria similar à diferença entre descrença e rejeição. Um descrente pode ser qualquer um que não tenha fé em Cristo. Porém, existe uma diferença entre um descrente que ainda não ouviu o evangelho e um descrente que ouviu e rejeitou o evangelho. Igualmente, existe uma diferença entre um crente cuja vida não é mais caracterizada por um relacionamento vivo de fé em Cristo que resulta em santificação e um que uniu esta rejeição prática com uma aberta rejeição de todo coração a Cristo e à plenitude de bênçãos espirituais uma vez experimentada.
Para uma visão alternativa sólida de um estudioso arminiano, veja: Brian Abasciano, My Argument for Apostasy Not Being Irremediable in Hebrews 6
2 META
- Autor: kangaroodort
- Link: https://arminianperspectives.wordpress.com/2011/08/10/does-scripture-describe-two-types-of-apostasy/
- Arquivo: http://archive.fo/jRhEG