Lulu Santos

 

Luiz Maurício Pragana dos Santos, nasceu no dia 04 de maio de 1953, em Copacabana, no Rio de Janeiro. A profissão do pai – um brigadeiro engenheiro da Aeronáutica – obrigava a família a constantes mudanças. Aos 3 anos, Lulu (como sempre foi chamado) viaja para São Paulo e aos 5 anos vão para  Illinois, nos Estados Unidos, devido a profissão do pai, que acaba sendo transferido para lá. A ida para a América deixa pelo menos duas marcas: o aprendizado de uma segunda língua e o inicio do seu envolvimento com a música, através dos discos comprados pelo pai. “Foi lá que eu ouvi, pela primeira vez, um disco estéreo”. E o nosso artista, quando garotinho, viu o rock nascer "in loco". Ele cresceu sabendo que o seu negócio era música, de preferência com guitarras e baixos elétricos e muita amplificação, no melhor estilo "aumenta que isso aí é rock'n'roll'. O ano era 1964, quando voltou para o Rio de Janeiro, época em que juntou dinheiro suficiente para comprar um violão. “Mais tarde, meus pais compraram minha primeira guitarra, achando que eu ia ficar bonzinho e estudar. 

Mas aconteceu o contrário, me apaixonei definitivamente pela música. "Aderi ao rock como forma de negação patriótica do modelo cultural do governo pós 64", contaria depois. "O que pode fazer um garoto de 11 anos a não ser cantar numa banda de rock'n'roll, se não pode ser um guerrilheiro urbano". Na escola, porém, Lulu demonstra outra inclinação: a pintura. Com 12 anos, dedica-se à reprodução – o guache – de obras dos grandes pintores. Ao mesmo tempo, sente um interesse cada vez maior que aquele som que conhecera nos Estados Unidos: o blues e o rhythm’n’blues. “Amo blues e rhytm’m’blues desde moleque. Aos 10, 11 anos, eu cantava Wilson Pickett, Otis Redding, Arthur Conway...”, dizia Lulu mais tarde”.

A adolescência  foi difícil e rebelde. O inglês fluente o ajuda a curtir e entender os Beatles, que explodiam no mundo todo. Ao mesmo tempo, quanto mais ia mal em Física e Geometria, mais se dava bem nas provas de Francês e Literatura. Lulu pensou em fazer faculdade de Comunicação, mas a música veio primeiro. Isso foi entre os 12 e 13 anos, quando ele troca os pincéis pela guitarra e forma seu primeiro conjunto, que passa a animar as domingueiras dos clubes cariocas. O repertório, invariavelmente inclui canções dos maiores ídolos do adolescente Lulu:John, Paul, George e Ringo. “Os Beatles eram maus país, minha religião, minha família”.

Final da década de 60: época do flower power, da liberação sexual, da contracultura e dos hippies. Lulu Santos não deixa por menos. Aos 17 anos, abandona o ultimo ano colegial, sai de casa com sua mochila nas costas, pega a estrada e vai para a Bahia ser hippie, deixa o cabelo crescer, para viver de praia em praia, fazendo um som...  – dando um fim aos planos do pai, que queria Lulu na carreira militar. É um período conturbado, marcado por relações “promíscuas” com as pessoas do seu grupo e uma total alienação. Frustrado, Lulu desiste de ser hippie e decide prosseguir sua verdadeira vocação: a música.

Com 19 anos, forma seu primeiro grupo “sério”, o Veludo Elétrico. Em menos de um ano Lulu deixaria o Veludo,  para fundar sua primeira empreitada no mundo do rock, ao lado do baixista Fernando Gama, o Vímana. A estréia da nova banda – que tem ainda Candinho na bateria e Luís Paulo nos teclados – acontece em1974, abrindo para Os Mutantes e O Terço. Alguns meses depois, o grupo ganha dois novos integrantes: Candinho é substituído por Lobão, e Fernando Gama deixa a vaga aberta para a entrada do flautista e cantor Ritchie. No então sombrio panorama do rock nacional – confinado ao circuito underground e ignorado pelo grande público – , o Vímana é um dos destaques, com seu rock progressivo inspirado no Yes e suas letras em inglês. Chegaram a gravar um LP independente, que acaba não sendo lançado. Em vez disso, sai um compacto, “Zebra”, pelo selo independente Sigla em 1976. Época  que a música brasileira estava mais preocupada em protestar do que encontrar novos sons e ritmos. O som da banda era progressivo, influenciado por Yes e Pink Floyd. "Era uma exploração formal de uma coisa totalmente informal", diria ele mais tarde. O máximo da diferenciação absorvida pelas massas era Os Novos Baianos, escorados ainda no Tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil. O rock, por enquanto, ficava restrito a Raul Seixas e Rita Lee.  Tempos de dureza, e apostar todas as fichas no rock progressivo do Vímana, significava ficar sem dinheiro para o leite das crianças, pois nessa época Lulu já era pai e casado com a jornalista Scarlet Moon - que conheceu numa festa na casa de Caetano Veloso -  com quem dividia um pequeno apartamento no Rio.  Onde o grupo Vímana acabou se dissolvendo nesse mesmo ano - 1976. Após o lançamento, o grupo se dissolve. Lobão vai para a Blitz, Ritchie ensaia sua carreira solo e Lulu decide começar tudo da estaca zero, convencido de que ainda não encontrou o seu som. “O Vímana era um híbrido de nada com coisa nenhuma. A essência do rock é tribal, física, não tem nada de cerebral”. Decidido retomar com força total a carreira, ataca em todas as frentes. Compõe ao lado da Cor do Som, a trilha sonora do filme ‘Os Sete Gatinhos’, de Neville de Almeida; forma uma nova banda Uns e Outros, com Arnaldo Baptista (ex-Mutantes) e Pedro Fortuna (futuro baixista do Blitz).

Nesse meio tempo o jeito foi arrumar emprego de carteira assinada, e assim começou a trabalhar como produtor de repertório de novelas da Globo na gravadora Som Livre. Nessa época, a inflação e a recessão econômica começavam a fazer parte do vocabulário do brasileiro, e o chefe de Lulu, Guto Graça Melo, deu um ultimato a seus funcionários: si se dedicavam ao trabalho, pois aquilo lá não era bico para ninguém, ou caíam fora. Lulu Santos, que já estava com o sangue em ebulição para se jogar na carreira musical, caiu fora, e com o nome de Luís Maurício, arriscou o seu compacto pela Polygram. “Melô do Amor” não emplacou. A banda não dura mais de seis meses; o compacto com a música “Gosto de Batom“(de Pedro Fortuna e Bernardo Vilhena). "A gravadora dizia que eu não tinha nome de gente", explicaria Lulu. E no início da década de 80, época ele declarou sua opção pelo rock por ser esse ritmo a essência da mudança, extremamente libertário. Para ele, o Brasil é um país que não tem memória. "Eu recuso os valores nacionais porque eles não me atraem. Isso não é falta de patriotismo porque estou do lado de todos que ajudam a levantar o país, no caso da música, de todos que traduziram a postura do rock para uma atitude nacionalista", discursou. Arrisca ainda alguns textos para a revista Sombrês, como crítico de música.

Apesar do consagrado produtor musical Roberto Menescal, na época da Polygram, achar Lulu Santos um nome inexpressivo, ele entrou nos anos 80 abandonando o Luís Maurício e adotando o nome de guerra que usa até hoje. Jonh Lennon havia sido assassinado, e a tragédia acabou se transformando num marco na vida dele, que resolveu começar tudo de novo. Graças ao ex-chefe Guto Graça Melo, conseguiu um contrato com a WEA, que garantiu o lançamento de três compactos, onde emplacou seu primeiro hit no filme Menino do Rio, de Antônio Calmon. "Garota eu vou pra Califórnia/ viver a vida sobre as ondas/ vou ser artista de cinema/ o meu destino é ser star..." A música "De Repente Califórnia" era cantada pela moçada, que passava a consumir o novo rock brasileiro. A geração hoje chamada de B-Rock revolucionou o mercado fonográfico e a própria música brasileira. Blitz, Barão Vermelho, Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, Marina... Era um movimento sem nenhum manifesto, mas que estava pouco se lixando se eram taxados de alienados e/ou alienantes. A moçada queria fazer pop, e logo essa produção teve sua qualidade reconhecida. Lulu Santos não perdeu o trem, aliás, assumiu o posto na locomotiva como força propulsora do rock brasileiro, nos anos 80.

Em 1981, surge a primeira grande oportunidade, através de um convite do amigo Nelson Motta para compor a música de abertura do programa Mocidade Independente, da TV Bandeirantes. “Tesouros da Juventude” é uma das primeiras composições de Lulu com Nelson – que se tornaria um de seus parceiros mais constantes. O programa é tirado do ar, mas a música acaba fazendo sucesso nas rádios. O Compacto que sai pela WEA – lado B, está um ska chamado “Fricção Científica”. Ainda nesse ano, a dupla classifica-se no MPB 81, o festival da Globo. “Areias Escaldantes” não passa das eliminatórias, o que não impede que seja lançada em compacto e bem executada pelas FMs. (mais tarde em 1985, o diretor Francisco de Paula pediria a música “emprestada” para a trilha do filme de mesmo nome). Um terceiro compacto, dessa vez duplo, é lançado em 1981 – a gravação inclui as três faixas anteriores, mais “De Leve”, uma versão de Rita Lee e Gilberto Gil para “Get Back”, os Beatles.

Seu primeiro disco, Tempos Modernos, finalmente vingou, o álbum de estréia, emplacou três hits: Scarlet Moon, De Repente Califórnia  (que já ficara popular na voz de Ricardo Graça Mello – ator principal do filme “Menino do Rio”) e Tempos Modernos. As baladas pop, aliadas às letras românticas de Nelson Motta, Antônio Cícero e Fausto Nilo, entre outros parceiros, têm aceitação imediata do público. Mas as 50 mil cópias de Tempos Modernos são apenas um prenúncio do que viria a seguir. O sucesso fez com que viajasse pelo Brasil, fazendo shows em play-back (sem músicos, cantando com fita gravada). Mas ele não reclamava. "O robe de veludo, o charuto, o champanhe no camarim, vêm com trabalho", dizia.

Em 1983,o segundo, O Ritmo do Momento, lançou o maior sucesso de sua carreira, a música "Como uma onda", foi tocada exaustivamente nas rádios e cantada em coro pelos fãs. No lançamento do disco, Lulu lota o Maracanãzinho, no Rio – um salto e tanto para quem, há menos de um ano, fazia shows na periferia da cidade. A imprensa porém, não poupa fisgadas no novo ídolo: “niu uieve”, “zen-surfismo”, “cantor de boleros”, são apenas alguns dos termos usados pela crítica especializada para classificar o seu trabalho.  Sobre esse período, Lulu diria: "O sucesso não mexeu com a minha cabeça. Eu trabalhei cada degrau da minha carreira. Faço questão do reconhecimento do meu valor". E a música "Advinha o Quê?", foi proibida pela censura. Lulu se sentiu, então lesado e chegou a ver o fantasma do desemprego bater à sua porta, uma vez que a expressão mais forte daquele trabalho não estava podendo ser mostrada e divulgada. "Depois houve um recurso e liberação, mas nesse meio tempo achei que o governo brasileiro estava querendo me deixar com pires na mão", diz Lulu. Ele continua "aprendi que não estou nesse negócio para dar opinião. Não tenho muita vocação para ter uma vida pública, não quero sacrificar minha privacidade para me promover. Tenho cada vez menos vontade de ser objeto da mídia, o que tem sido visto publicamente é o meu trabalho. Cansei de tudo aquilo que envolve um lançamento de disco - dar entrevistas para rádio, televisão, jornal. Não quero passar por isso eternamente. Quando eu falo em encerrar carreira, não estou falando de parar de cômpor ou gravar. Mas a carreira de cantor pop, do 'último romântico', está sim está acabado".

Se o movimento do B-Rock parecia ser genuinamente carioca, Lulu Santos tratou logo de acabar com essa imagem. Atacou de produtor da nova safra paulista produzindo os discos O Melhor dos Iguais, do Premeditando o Breque, e Televisão, o segundo LP dos Titãs. Mas ele não deixou sua carreira de lado, pois em abril de 1984, Lulu estava nos estúdios Eletric Lady em Nova York, mixando o novo LP, Tudo Azul. Gravado em apenas 20 dias, o disco traz algumas surpresas, como a regravação de “Calhambeque”, um dos maiores sucessos da Jovem Guarda, e a participação de Erasmo Carlos e Rita Lee na faixa “Ronca Ronca”, uma homenagem aos roqueiros com mais de 30 anos... confirmando assim, o talento de Lulu para compor músicas de apelo popular Lua-de-Mel, O Último Romântico e Certas Coisas invadiram as rádios. "Esse disco é um inventário das minhas lembranças sentimentais", diria Lulu. Sobre seu processo de composição contava: "Não saio à procura da música. A música é que me pega". No auge da popularidade, com quatro hits estourados nas rádios, Lulu é convidado a participar do Rock in Rio. O desafio é duplo: conseguir marcar presença tocando ao lado de astros como Nina Hagen e Rod Stewart e, ao mesmo tempo, superar os problemas de uma organização voltada exclusivamente para os músicos de fora. “foi a pior experiência de minha vida, uma das coisas mais opressivas por que passei”, diria Lulu, após ser forçado a deixar o palco móvel da cidade do rock – colocado em movimento quando ele se preparava para mais um bis. O saldo, porém, é positivo: o tape da Globo, apresentado dias depois, registra a verdadeira dimensão do sucesso de Lulu, com milhares de pessoas entoando o quase hino “Tempos Modernos”.

Menos baladas, mais rock'n'roll: essa foi a opção do artista para o seu quarto disco, Normal. Foi em 1985, Normal, foi o mais elogiado – e vendido – LP do Lulu. Dessa vez  tudo praticamente sozinho: além de cantar e tocar guitarra, encarrega-se do baixo, dos teclados e dos efeitos eletrônicos, assumindo ainda, pela primeira vez, a assinatuar da produção. "Eu fui me aperfeiçoando nas técnicas e estúdio", contava ele. "Já sei como me expressar com essa maquinaria e usei essa liberdade". O álbum rendeu mais um hit, Sincero. O pop radiofônico que dominava os trabalhos anteriores dá lugar a um som mais pesado e básico. É a face “roqueira” de Lulu, calcada nos anos 60 – as referencias vão dos sons orientais de “Atualmente” à capa de inspiração psicodélica. Normal é ainda o último disco de estúdio do cantor pela WEA – que lançaria uma coletânea de hits, em 87. Nessa mesma época ele comentou:  "saí de casa com 18 anos e fui morar em uma comunidade em Santa Teresa. Não fiquei dentro do lar de classe média mamando na geladeira e contestando papai e mamãe. eu sou o mesmo projeto desde os 12 anos, só que agora estou bem-sucedido. Me acho superjovem aos 32 anos, muito mais do que um babaca de classe média, que só por tocar guitarra se crê dono de alguma coisa". (declaração ao jornal Folha de S.Paulo, em 1985). 

Casa, foi a música mais bem sucedida de Lulu, como disco Lulu, de 1986. foi seu primeiro lançamento pela RCA, retorna a linha anterior de Normal, abrindo espaço, porém, para a inclusão de outros gêneros – como o reggae “Demon” (cantada em inglês) "É um trabalho sem pretensão, descansado", descrevia Lulu. O trabalho incluía uma faixa atípica: um rock bem-humorado que lembrava o Ultraje a Rigor. "É uma paródia do rock paulista com sotaque especial", comentava Lulu. Havia o  rock básico “Ro-que-se-da-ne (Junte as Sílabas e Forme Novas Palavrinhas)”, - vetada pela cesura - uma resposta aos que chamavam sua música de brega.  "Trafego na área do mau gosto, até com escolha", afirmaria mais tarde. Músicas como “Minha Vida”, “Condição” e, principalmente “Casa” colocam Lulu de volta ns paradas. O sucesso é tanto que a gravadora anuncia, no início de 87, a conquista do disco de platina, mas para espanto geral, o cantor recusa a premiação, em pleno Maracanãzinho. Em entrevista nas páginas amarelas da revista Veja, ele declarou que recusou receber o disco de platina em comemoração às 250.000 cópias vendidas por não querer enganar seu público. "O disco de platina era uma mentira. Na realidade, havia vendido até aquela data 174.300 cópias e resolvi dar um basta nessa supervalorização. Desde quando vender muito é sinônimo de qualidade?", perguntou.

Hollywood Rock, três anos depois, Lulu tem a chance de se recuperar do “trauma” do Rock in Rio. Superando as expectativas, ele acaba sendo o responsável pelos shows mais quentes do Festival. Tanto no Rio como em São Paulo, o cantor limita-se a empurrar suar guitarra e correr pelo palco – é o público que canta, de ponta a ponta, todas as música. Os shows foram realizados em 1988, confirmando  carisma de Lulu no palco, conduzindo um coro de milhares de fãs. Por causa da sua relação com o público, ele chegou a ser comparado com Roberto Carlos. "A não ser por uma certa empatia popular, esta comparação me parece esquisita", diria. "Eu tenho uma postura meio incendiária, deito no chão, falo palavrão. É diferente". Ainda em 1988, blues, bossa nova, afoxé: em seu sexto LP, Lulu vai fundo na mistura dos ritmos, já esboçada nos trabalhos anteriores.  Toda Forma de Amor, marca também o fim das parcerias – as letras são todas de Lulu, com exceção de “Ton Ton”, uma canção angolana recolhida por Arthur Maia (baixista da sua banda). O disco trazia uma ousadia: Mojo, uma faixa instrumental em que tocava guitarra sobre sons de sapos e grilos. Um mês após o lançamento, com duas faixas – “Toda Forma de Amor” e “A Cura” – tocando sem parar nas FMs, Lulu tem, pela primeira vez, a oportunidade de se lançar no mercado internacional, alguns meses depois do lançamento, em julho, Lulu se apresentou pela primeira vez no Festival de Montreux. "É uma pena que a língua portuguesa não tenha tanta penetração", disse no palco, durante o show. "O mundo sairia no lucro. Em vez de tanto Mick Jagger, teríamos mais Caetano Veloso". Na volta, inicia uma gigantesca turnê pelo Brasil, incluindo várias capitais do Norte, Nordeste e Sul, fechando com uma série de shows no interior de São Paulo.

O álbum seguinte foi gravado ao vivo. Amor à Arte trazia a inédita “Dinossauros do Rock”, um ataque ao gênero e seus praticantes. Explicando a letra, o cantor diria: "Para mim, funcionários do rock são caras ultrapassados que estão tendo espaço exagerado na mídia como Pink Floyd, Iggy Pop ou George Harrison". 

A briga do rock continuaria com Popsambalanço e Outras Levadas, lançado em 1989, segundo Lulu, era necessário injetar novas misturas no gênero: "Sou um reprocessador e acho que a revitalização do rock passa pela abertura e influências. Brasileiro tem o direito à pluralidade, já que convive com uma gama variada de ritmos e tem sucesso a tudo que vem de fora". Assim ele mostrou que não estava aqui para ser confinado num escaninho estanque. Sem abrir mão de seus pops ganchudos ou de sua certeira guitarra - elogiada por 11 de dez músicos brasucas - ele fez bossa nova (na leitura de "Samba dos animais", de Jorge Mautner e Nelson Jacobina), bebeu da influência de outro Jorge, Benjor, em "Brumário" (antes da superxposição do sambistapop carioca), sambou em "Pop coração" (parceria com Nelson Motta), flertou com as sonoridades caribenhas. O resultado? Um saboroso trabalho, repleto de hits potenciais, mas que foi praticamente ignorado pelas rádios e teve desempenho nas lojas abaixo do esperado.  

Bossa nova, samba e blues compunham a mistura de ritmos de Honolulu, que teve como hit “Papo Cabeça”. O álbum foi lançado em 1990, quando o rock nacional atravessava uma crise de vendas e era chamado de ultrapassado pela imprensa. "Eu acho normal que isso aconteça", diria Lulu. "O que acho estranho é imaginar que um artista, só porque tem muitos anos de carreira, vai deixar de fazer coisas legais. Não acontece com o Caetano". 

Uma sonoridade mais suja, com guitarras distorcidas, foi a novidade de Mondocane, o disco de 1992. Engenhoso e balançante exercício de sincretismo rítmico e estilístico, passou mais em branco ainda. Boa parte da mídia e da indústria do disco tentaram enfim enterrar Lulu Santos. Rádios ignoraram uma das suas mais redondas e grudantes baladas - "Apenas mais uma de amor" - e na imprensa poucos reconheceram o pop lapidado, às vezes pesado, repleto de referências em faixas como "Cicatriz", "Ecos do passado", "Fevereiro", "Máquinas macias", "Realimentação". Talvez sem saber, o próprio anteviu numa das canções: "Foi mal". As músicas como Um Vício, Foi Mal e Apenas mais uma de Amor foram apresentadas no Hollywood Rock em janeiro.

Em 1994 Lulu se rendeu ao sampler e, junto com o DJ Marcelo "Memê" Mansur, lançou o disco Assim Caminha a Humanidade, cuja faixa título serviu durante três anos como tema de Malhação Deu início a uma nova fase na careira de Lulu Santos. Ele passou a investir na dance music, auxiliado pelo produtor e DJ Marcelo Mansur, o Memê. O primeiro resultado dessa associação foi o sucesso Tim Medley, que reunia hits de Tim Maia (Do Leme ao Pontal e Rodésia) sobre uma batida disco. "Esse disco me reinaugurava como artista", diria Lulu. "Estou falando uma linguagem que é utilizada hoje em dia pelas rádios. É a mesma coisa que você atualizar o seu guarda-roupa", declarou em 1997.

A dance music seria a tônica dos dois discos seguintes, com a parceria de Memê: Eu e Memê, Memê e Eu e Anti Ciclone Tropical, em 1996 - que emplacaria o hit Dancin'Days, antigo sucesso das Frenéticas. “Desde adolescente, sempre gstei de música de boate, que é soul, funk. Música negra é feita pra dançar. E há três anos escuto basicamente rap e black music. Não tenho paciência para ouvir música de branco. Claro que isso tem influenciado o meu trabalho, que só agora vem adquirindo característica de pista de dança. Antes, com exceção de “Condição”, minhas músicas eram muito populares e animadas.” Nessa época Lulu declarou que só pretendia gravar mais um disco: um acústico que resumiria seus quinze anos de carreira: "Gostaria de parar de ter que lançar discos periódicos, gravar clipes, fazer shows, fazer sucesso. Meus quinze minutos de fama já se alongaram por demais. Não quero virar paródia de mim mesmo".

Após grande sucesso de público no Rio de Janeiro, no final de 1997, onde mais de duas mil pessoas marcaram presença show de lançamento do CD Liga Lá. O cd Liga Lá é um projeto diferente na carreira do cantor. Ao lado do co-produtor e guitarrista Marcelo Sussekindi, reúne clássicos de pop e da MPB brasileira em levadas techno, junjle ou drum’n bass. Nesse empreitada Lulu é acompanhado com o percussionista Ramiro Mussoto, os teclados de Alex de Souza e Sacha Amback, o baterista Marcelo Costa e o baixista Dunga. “Hyperconectividade” abre o disco com um Lulu típico, elétrico, agitado, nervoso, com guitarra, mas sempre, com o, perdão pelo trocadilho, hiper, pop. O disco foi gravado no bem-servido estúdio Mega, que fica plantado no alto de uma ladeira do Humaitá, zona sul do Rio. Numa única escapadela, Lulu pegou (ou melhor, fez) a ponte aérea e foi gravar "Tempo espaço" em São Paulo, uma canção em 3D graças ao arranjo de orquestra assinado por Rogério Duprat, que seria o nosso George Martin, não fosse ele o nosso Rogério Duprat. Flutuam pela música violinos, violoncelos, flautas, trompetes, etc., dando a ela um clima psicodélico, sixties, mas com o pé aqui e agora. Bacana também é “De Mi”, uma música de Charly Garcia, talentoso músico argentino, que Lulu só veio conhecer dia desses por conta de uma coletânea emprestada pelo seu percussionista, Ramiro Mussotto. O resultado não é um brasileño cantando portunhol beirando o brega. O resultado é o fino, trip hop com curry, batidas de drum 'n'bass em slow motion, cítara e ecos dub. Falando em dêbê, é nessa revolucionária batida a versão de "Ando meio desligado", dos Mutantes. "Parece que a música foi feita para soar assim originalmente", conta Lulu. Ei, rapaz, você tá aí? Conta mais. E uma outra regravação do disco, "Fé cega, faca amolada"? "O melhor de uma canção tão conhecida é desconstruí-la", diz ele. Deu pra sacar. O original de Milton e Fernando Brant virou uma criatura futurista, meio techno, meio eurodisco, I feel lave, Giorgio Moroder, coisas assim. Quando ela acaba, fica no ar uma expressão para saborear: techno pop. O Ramiro foi citado em algum lugar aí em cima. Mais detalhes no cartão de visitas do moço, a faixa "La danza del Tezcatlipoca rojo", gravada ao vivo num momento solo pero na frente de milhares de pessoas. Berimbau, percurssão, drum'n' bass, primitivo e tecnolõgico. Techno, Lõgico. omo pop também é "Kryptonita", um balanço doce e vicente, "Eu sou outro você", com seu ar radiofônico, e até mesmo "Chico Brito", um samba de Wilson Batista que Lulu aprendeu com Nélson Jacobina sem ter ouvido a gravação original de Paulinho da Viola (o que só aconteceu recentemente). Tudo Certo? Mais ou menos. "Quetzalcoatl” nasceu do incerto. "é um groove coletivo que surgiu durante um sound check em Nova Iguaçu", lembra Lulu. Um groove coletivo que mistura Jazz, funk e ambient music e poderia muito bem estar na trilha de um daqueles filmes black dos anos 70. Dessa época também poderia ter vindo "Vôo de coração", com a participação de seu compositor Ritchie, companheiro do ancestral Vímana. "Tempo / Espaço contínuo", o epílogo, fecha a tampa indo além da canção original e virando um tema com vida própria, uma leitura extended e instrumental vagando no seu próprio espaço. é como se fosse uma tela branca à espera de tintas pessoais.

Lulu dá uma nova guinada em sua carreira e volta ao som básico do rock em um trio com Dunga e Marcelo Costa, com o nome de Trio Jacaré  - “Lulu Santos e Power Trio”, isso aconteceu em junho de 1998, meses depois de ter lançado seu disco Liga Lá. (veja anúncio)

Lulu Santos, "Time is on my side", costuma cantar Mick Jagger, numa das músicas mais antigas dos Rolling Stones, esses eternos garotões. Lulu Santos pode fazer coro. O tempo também está ao seu lado. Calendário, seu novo disco, é exatamente sobre isso, sobre (a passagem do) tempo, sobre reencontros, sobre idas e vindas, sobre legados, sobre descobertas, sobre novidades e até mesmo sobre surfe. "Saber surfar o tempo é saber viver", diz Lulu Santos, mestre na arte de pegar ondas, atravessar ressacas e nunca morrer na praia. Como o Surfista Prateado, Lulu segue viajando por diversos universos (musicais), alguns conhecidos, outros inexplorados, tendo sua guitarra como prancha e sua mente como guia. A trajetória até Calendário levou seis meses e três dias até ser completada. Durante esse tempo, os L se reencontraram. Lulu voltou a trabalhar com o produtor Liminha, com quem tinha feito O Ritmo do Momento, lançado há quinze anos. "Continuamos na mesma voltagem e cada um ganhou experiência", garante Lulu, que contou no disco com o teclado de Fábio Fonseca, a bateria de Bodão, os sintetizadores de Alex de Souza, o piano de William Magalhães e o sax de PC. Com a equipe certa e o timing certo, os resultados começaram a surgir. Fogo de Palha foi a única canção do disco que nasceu no estúdio, de parto natural e espontâneo, Lulu juntando palavras com melodia e ritmo, e depois dando formas finais à música com a ajuda de Limnha. O resultado ficou tipicamente Lulu: pop, assoviável, simples e ao mesmo tempo rico em pequenos detalhes. O recheio? O desejo e a razão que se revezam, quase religiosamente, tal qual a luz e a escuridão, com diz a letra. Mala & Cia. foi, talvez, a canção que reaproximou Lulu e Liminha. Ela foi feita pelo primeiro para um show concebido pelo segundo, que juntou uma banda all star especialmente para a apresentação em um festival. "É um samba pop", resume Lulu. O batuque também está presente em Brasil Legal, uma incursão pelo universo da lounge music. Hi-Fi, Cuba Libre e lembranças de uma época de inocência e otimismo. "É uma coisa jocosa, propositadamente antiquada, meio anos 50, sobre o bem-estar que se vivia com clareza no Brasil daquela época", explica Lulu. Já Bolado tem batidas mais pulsantes e embalagem luxuosa (violinos, viola e celo), num arranjo de cordas idealizado por Lulu e orquestrado sob a condução de Léo Ortiz. Há também Sábado à Noite, uma música feita por Lulu para o Cidade Negra, que a transformou num hit, de tons alegres e vibrantes. A inspiração para a letra da música veio de uma noite em que Lulu subia a serra para um final de semana de descanso. Era, claro, sábado à noite. "Eu estava passando por um lugar e quase pude sentir a eletricidade das pessoas, se arrumando, botando a melhor roupa, o melhor penteado, para sair. Isso só acontece num sábado à noite", conta Lulu. Como era de se esperar, a versão de Lulu é diametralmente oposta à do Cidade Negra. Mais sombria, reflexiva, hipnótica, quase um trip-hop. Durante a gravação de Calendário, Lulu deu uma entrevista em que dizia que solos de guitarra eram como o latim, linguagem morta. Curiosamente, é Shani, um instrumental, conduzido pela guitarra de Lulu, que fecha o disco. "É a guitarra tocando a melodia. E, de certa forma, é também uma crítica à minha própria forma de tocar guitarra. Sou mais de ritmo do que de solos. O mercado está inflacionado por solos. Isso foi feito em "diz ele. "Mas, tem uma coisa. Realmente, solos de guitarra são uma linguagem morta, como o latim, mas sem o latim, a gente não abriria a boca". Lulu sabe o que está falando. Afinal, o tempo está a seu lado.

No final de 2000, depois de tantos dos seus contemporâneos de Rock Brasil  (e também muitos dos que vieram antes e depois dele) terem lançado seus Acústicos é que Lulu Santos resolveu sair com o seu Lulu Acústico. "De fato, não houve tanta resistência. Digamos que a carta foi chorada", diz, enigmaticamente o cantor, guitarrista e compositor. Gravado no Pólo de Cinema e Vídeo do Rio de Janeiro nos dias 28 e 29 de junho, para a MTV - o "Acústico MTV". O disco – duplo ou em dois volumes separados, como não poderia deixar de ser, para que coubessem as releituras dos 23 hits de seus 15 discos anteriores e mais quatro inéditas: Made in Brazil, Deusa da Ilusão, Janela Indiscreta, O Retorno do Maia Intergalático e Esta Canção.Acompanhado com um time de músicos ótimos: Christiaan Oyens (violões, bandolim, xilofone e vocais), Alex de Souza (harmonium e teclados), André Rodrigues (baixo acústico, baixolão e vocal), PC (sax, flautas e vocais), Armando Marçal (percussão) e Xocolate (bateria). Para Lulu, se os arranjos das músicas do Acústico não soam muito diferentes das originais, a sonoridade com certeza é outra. "Fora o xilofone e o metalofone e as dobras que estes fazem com flauta e violão, criando uma terceira sonoridade, por exemplo, está o harmonium, que achei uma sacada legal. O negócio era achar um som original." Por vezes, mais notadamente na inédita Janela Indiscreta, a coisa resvalou para o easy listening dos bons tempos da Rádio Tupi FM. "Eu mesmo tenho ouvido muito esse tipo de música. Em especial, Enoch Light, que é bem percussivo", diz. Ele entrega o segredo de como deu a cara exotique para a Janela: "Ela tem de estrutura uma bateria eletrônica indiana super low-fi, movida a pilha, que toca um padrão de tabla.

A primeira música do trabalho do Lulu Acústico é Made in Brazil, uma espécie de Arrombou a Festa muito particular, em que, depois de citar uma série de artistas e bandas, ele proclama: "Passou de dois mil, ninguém faz igual a brasileiro pop, rock, reggae, hiphop do Brasil." "Não serão os japoneses que o farão, pois não?", provoca Lulu, para dizer que o sentido da letra é mesmo o mais óbvio, rodrigueanamente ululante. "Interessa-me mais o pop-reggae-hip-hop do Brasil. O outro, a rigor, nem sei bem a quantas anda. Acho a nossa versão mais adequada para nós, vide as vendas. Compare-se Charlie Brown Jr. com... sei lá... Oasis", explica. Outra inédita com cara de rádio é O Retorno do Maia Intergalático, um "tema para um desenho japonês que não existe, politicamente correto". "O refrão eu usava para chatear o Memê (produtor, com quem Lulu dividiu o disco Eu e Memê, Memê e Eu, de 1995). Dizia ‘vamos gravar essa’ e ele ficava irritado. Um belo dia, bolindo com ela em casa, dei uma solução – ahem – final."  participações especiais. Só tem uma: a de Gabriel o Pensador em Astronauta, parceria com Lulu, gravada no mais recente disco do rapper, Nádegas a Declarar. Mas não foi nada intencional, desculpa-se o dono da festa. "Tivemos só cinco semanas para inventar a parada. Adoraria ter chamado o Marcos Valle, mas simplesmente não deu tempo. O Gabo era uma coisa que, além de eu adorar aquilo ("deuses e deusas que se abraçam e beijam no Céu"),  estava na mão." É Marcos, pena que não vai ter um Volume 2...

É isso, Lulu sempre mostrando diferenciações que se pode fazer com a música brasileira, "colocando um pouco aqui", "aperfeiçoando ali", direcionando sempre suas músicas num só caminho: a contemplação e a admiração de todos! E comprovando de que música brasileira existe e "das boas"!

 

 

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