Capital Inicial
|
|
UMA HISTÓRIA
DO ROCK NACIONAL
Brasília, maio
de 1983. Um grupo de jovens é preso por usar pulseiras de tachas e alfinetes,
sob a alegação destes acessórios serem armas em potencial. A resposta veio no
editorial do "Fan Zine", em seu segundo número, escrito por um jovem
que assinava apenas "Dinho".
O "Fan Zine" trazia outros assuntos, como a "Discografia básica
da nova música", que incluía Sex Pistols, The Clash, The Damned. Ramones,
Siouxie and the Banshees, P.I.L., Adam and the ants, Joy Division, UK Subs e
Dead Kennedys.
Naquelas páginas, às vezes escritas a mão, com colagens de outras publicações,
lia-se um pequeno panorama do punk rock de Brasília (com letras do Aborto Elétrico,
XXX e Plebe Rude), quadrinhos, poesias e textos de diversos colaboradores (Hermano
Vianna, Marcelo Rubens Paiva, Guilherme Isnard, entre outros).
A postura deste grupo que expunha seus pensamentos através da música, de
fanzines e de sua atitude, pode ser caracterizada pela música "Geração
Coca-Cola", de Renato Russo, como fez Jamari França em artigo publicado no
Jornal do Brasil, em 12 de novembro de 1984, quando reproduziu os versos da canção:
"Depois de 20 anos de escola / não é difícil aprender / todas as manhas
deste jogo sujo / não é assim que tem que ser? / vamos fazer nosso dever de
casa / aí então vocês vão ver / suas crianças derrubando reis / fazer comédia
no cinema com suas leis. / Somos os filhos da revolução / somos burgueses sem
religião / somos o futuro da nação / Geração Coca-Cola".
O Capital Inicial surgiu em 1982, formado pelos irmãos Fê (bateria) e Flávio
Lemos (baixo), - ex-integrantes do Aborto Elétrico, ao lado de Renato Russo -,
e Loro Jones (guitarra), oriundo da banda Blitz 64. Em 1983, Dinho Ouro-Preto,
após um estágio como baixista da banda "dado e o reino animal"
(assim mesmo, com letras minúsculas), onde também tocavam Dado Villa Lobos e
Marcelo Bonfá, entra para os vocais.
Em julho estréiam em Brasília, tocando em seguida em São Paulo (SESC Pompéia)
e no Rio de Janeiro (Circo Voador).
Aliás, esta foi uma das características marcantes do início da carreira: as
constantes viagens e apresentações nos principais palcos do underground do
rock brasileiro.
Em 1984, o ritmo cada vez maior de viagens indica a necessidade de estarem mais
próximos do seu principal mercado, as regiões Sudeste e Sul. No final do ano
assinam seu primeiro contrato fonográfico, com a CBS (atual Sony), e se mudam
para São Paulo no início de 1985.
Logo em seguida lançam seu primeiro registro em vinil, o compacto duplo
"Descendo o Rio Nilo/Leve Desespero". Ainda neste ano integram o
elenco da trilha sonora do primeiro "filme-rock" nacional,
"Areias Escaldantes", de Francisco de Paula, ao lado de Ultraje a
Rigor, Titãs, Lobão e os Ronaldos, Ira!, Metrô, Lulu Santos e May East.
O primeiro LP, "Capital Inicial", já pela Polygram, foi lançado em
1986 e recebeu ótimas críticas. "Um rock limpo, vigoroso, dançante e
sobretudo competente, a quilômetros de distância da mesmice que assaltou a música
pop brasileira nos últimos tempos", assim o jornalista Mário Nery abre a
crítica ao disco no caderno Ilustrada, da Folha de S.Paulo, em 29 de julho de
1986. O álbum trazia músicas como "Música Urbana", "Psicopata",
"Fátima", "Veraneio Vascaína" (censurada pela Polícia
Federal), "Leve Desespero" entre outras, e levou o Capital Inicial ao
seu primeiro Disco de Ouro.
Em 1987, contando com o tecladista Bozzo Barretti em sua formação, o Capital
inicial lança seu segundo disco, "Independência", emplacando
"Prova", "Independência", a regravação de "Descendo
o Rio Nilo", e conquista o segundo Disco de Ouro. Neste ano, é convidados
para abrir os shows da turnê do cantor inglês Sting em São Paulo
(Estacionamento do Anhembi), Rio de Janeiro (Maracanã), Belo Horizonte (Estádio
Independência), Brasília (Estádio Mané Garrincha) e Porto Alegre (Estádio
Beira Rio).
"Você Não Precisa Entender" chega às lojas de todo o país em 1988,
com mais hits: "A Portas Fechadas", "Pedra na Mão" e
"Fogo".
1989 marca o lançamento de "Todos os Lados", com destaque para as
faixas "Todos os Lados", "Mickey Mouse em Moscou" e
"Belos e Malditos". Em 1990 participam do festival Hollywood Rock,
realizado em São Paulo e no Rio de Janeiro.
"Eletricidade", lançado em 1991, marca o início de mudanças no
Capital Inicial, começando pela gravadora. O álbum, lançado pela BMG, trazia
uma versão para "The Passenger", de Iggy Pop, batizada de "O
Passageiro", e composições como "Kamikaze" e "Todas as
Noites". Neste mesmo ano, participam da segunda edição do festival Rock
in Rio.
Em 1992, Bozzo Barretti deixa o grupo, e em 1993, divergências musicais e
pessoais levam o vocalista Dinho Ouro Preto a seguir carreira solo. Enquanto
isso, o Capital Inicial, agora com o santista Murilo Lima (ex-banda Rúcula) nos
vocais, lança "Rua 47" (94) e "Ao Vivo" (96), o primeiro
pela Qualé Cumpadi Records, gravadora independente que a banda monta, e o
segundo pela Rede Brasil Discos, atual Alpha Discos. Durante os próximos 5 anos
a banda praticamente desaparece da mídia, levando muitos a acreditar que a
banda tinha acabado. Mas a verdade é que a banda nunca parou de excursionar e
fazer shows, e se manteve ativa numa época de baixa do rock brasileiro.
São Paulo, março de 1998. Amadurecidos, com o respaldo do lançamento, pela
Polygram, do CD "O Melhor do Capital Inicial", da constante execução
de suas músicas pelas maiores emissoras de rádio e, principalmente, com o
apoio dos fãs - que mantiveram o Capital Inicial vivo -, seus quatro
integrantes originais decidem voltar aos palcos.
Dinho Ouro Preto, Loro Jones, Fê e Flávio Lemos voltam à estrada com um novo
show, uma comemoração aos 15 anos da banda e aos 20 anos do nascimento do rock
candango. O repertório traz sucessos, faixas pouco conhecidas e composições
de bandas que fizeram parte da cena de Brasília nos anos 80, como Plebe Rude,
Legião Urbana e Finis Africae.
Em Julho do mesmo ano a banda assina com a gravadora Abril Music, e em Setembro
ruma para Nashville no Tennesse, EUA, onde gravam "Atrás dos Olhos".
Este disco é produzido por David Z., que entre outros trabalhou com artistas
como Prince, Billy Idol e Fine Young Cannibals. As músicas mais executadas
desse disco foram "O Mundo" de Pit Passarel, ex-guitarrista da banda
Viper e amigo da banda, "1999" e "Eu Vou Estar". Todas essas
músicas tiveram videoclipes com grande repercussão junto ao público da MTV,
sendo que "O Mundo" concorreu a cinco prêmios na edição de 99 do
MTV Awards Brasil.
Este mesmo ano de 98 assiste ainda o lançamento de mais duas coletâneas pela
Universal (ex - Polygram): um CD da série Millenium, com 20 músicas pinçadas
dos quatro primeiros discos, e um CD de canções do grupo remixadas por
produtores e DJs famosos do Brasil. Infelizmente esta mesma gravadora reluta
ainda em relançar os discos originais, apesar do evidente prejuízo que tal
atitude traz à banda, e a insatisfação dos fãs.
O ano de 1999 é dedicado a turnê brasileira, e ao longo dos shows a banda, além
dos antigos fãs, encontra um novo público, adolescentes que não conhecem seus
primeiros discos. Então surge a idéia de fazer um disco ao vivo, juntando
novos e antigos sucessos. Rapidamente esta idéia se transforma no projeto de um
disco Acústico, em parceria com a MTV.
O último ano do século 20 começa com a banda se preparando para a gravação
do "Capital Inicial - Acústico MTV", que acaba ocorrendo em Março. O
disco é lançado dia 26 de Maio, e a primeira tiragem rapidamente se esgota nas
principais lojas do Brasil. A primeira música escolhida para tocar nas rádios,
"Tudo Que Vai", de Alvin L. e Dado Villa-Lobos, é amplamente
executada em todo o país, e a banda vê reconhecido o seu empenho em fazer um
disco acústico de rock simples, despojado, mas com a mesma atitude dos seus
melhores discos. A história continua!