Crítica da Razão Pura
(Machado de Oliveira, Cristina G.)
Que podemos saber? Que devemos fazer? Que nos é lícito esperar? – Eis as 3 questões fundamentais a que pretende Kant com o seu sistema, dar uma solução definitiva.
Que podemos saber? A crítica negativista de Hume afigurou-se aos olhos do pensador alemão como uma vitória do ceticismo sobre o dogmatismo impotente. O edifício da ciência abalado desde os seus fundamentos ameaçava total ruína. Kant, a quem não satisfaziam nem as respostas do racionalismo de Leibniz nem as do empirismo de Locke, abalança-se à grande empresa de reconstruir a ciência sobre novos alicerces. Ele acusa os céticos e os dogmáticos de descurarem o problema fundamental da filosofia – a determinação dos limites naturais do conhecimento, a crítica das faculdades cognoscitivas. A sua solução constitui o criticismo transcendental. Criticismo, por ser o exame, a crise das faculdades cognicitivas, transcendental, por ter como fim a determinação dos elementos a priori do conhecimento, que precedem qualquer experiência.
Uma das mais importantes questões que dominam o pensamento de Kant é o problema do conhecimento humano, a questão do saber.
Na CRP(Crítica da Razão Pura) ele distingue duas formas básicas do ato de conhecer:
Conhecimento empírico ( a posteriori ) – aquele que se refere aos dados fornecidos pelos sentidos, isto é, que é posterior à experiência.
Conhecimento puro ( a priori ) – aquele que não depende de quaisquer dados dos sentidos, ou seja, que é anterior à experiência. Nasce puramente de uma operação racional. É uma afirmação universal. Além disso, é uma afirmação que, para ser válida, não depende de nenhuma condição específica. Trata-se de uma afirmação necessária.
O conhecimento puro, portanto, conduz a juízos universais e necessários, enquanto que o conhecimento empírico não possui essas características.
Os juízos, por sua vez, são classificados em 3 espécies: analíticos, sintéticos a posteriori e a priori.
a)Juízos analíticos, nos quais o predicado exprime uma noção já contida no sujeito – juízos necessariamente verdadeiros, mas de pouca utilidade para o progresso da ciência, por não serem extensivos, mas apenas explicativos do saber. Os juízos analíticos são a priori, independem da experiência. A relação entre sujeito e predicado é pensada por identidade e não contradição. Exemplo: 1. O quadrado tem quatro lados, 2. Todo solteiro não é casado, 3.Todos os corpos são extensos. Penso o predicado já implicitamente no conceito de sujeito e negá-lo tornaria o juízo internamente contraditório. Serve apenas para tornar mais claro, para explicitar melhor aquilo que já se conhece do sujeito. Não dependendo da experiência sensorial, é universal e necessário. Mas, a rigor é pouco útil, no sentido de que não conduz a conhecimentos novos.
b) Juízos sintéticos a posteriori – cujo predicado não está contido na idéia do sujeito, mas lhe é atribuído em virtude de uma experiência. Particulares e contingentes, os juízos a posteriori não têm nenhum alcance científico. Nesses juízos acrescenta-se ao sujeito algo de novo, que é o predicado. Assim, os juízos sintéticos enriquecem nossas informações e ampliam os conhecimentos. Exemplo: 1.Os corpos se movimentam, 2. Todos os corpos são pesados. Está diretamente ligado a nossa experiência sensorial. Tem uma validade sempre condicionada ao tempo e ao espaço em que se deu a experiência. Não produz, portanto, conhecimentos universais e necessários.
c) Juízos sintéticos a priori – sintéticos, porque não se achando a noção do predicado encerrada na compreensão do sujeito, a união dos dois termos se faz por uma verdadeira síntese mental; a priori, por serem universais e necessários e como tais não poderem provir da experiência singular e contigente. A esta última categoria de juízos pertencem as proposições científicas. Explicar-lhes a origem e o valor será pois, explicar a possibilidade da ciência. Segundo Kant a matemática e a física são disciplinas científicas por trabalharem com juízos sintéticos a priori. Mas como se formam tais juízos? Estes se fundamentam nos dados captados pelos sentidos e na organização desses dados, seguindo certas categorias apriorísticas do nosso entendimento. O conhecimento, portanto, é o resultado de uma síntese entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido. É impossível conhecermos as coisas em si mesmas ( o ser em si). Só conhecemos as coisas tal como as percebemos ( o ser para nós ).
A contribuição inovadora de Kant foi ter estabelecido além dos juízos sintéticos a posteriori, a existência de juízos sintéticos a priori, que dizem respeito à possibilidade e estrutura da experiência e são universais e necessários ( por ex. "Tudo o que acontece tem sua causa") Da existência desse tipo de juízo dependeria a possibilidade não só da ciência, mas também da metafísica como ciência.
O ponto até onde podemos avançar independentemente de toda a experiência, no conhecimento a priori, é mostrado pelo brilhante exemplo da matemática. Verdades assim são verdadeiras antes da experiência; não dependem da experiência passada, presente ou futura. Portanto, são verdades absolutas e necessárias; é inconcebível que venham a ser falsas algum dia.
O papel que Kant atribuiu ao sujeito representou para a filosofia uma revolução comparável à de Copérnico na astronomia.
Antes de Kant, afirmava-se que a função de nossa mente era assimilar a realidade do mundo nessa operação, alguns filósofos só consideravam importante a atividade mental do sujeito ( racionalismo dogmático ), enquanto outros ressaltaram o papel determinante do objeto real exterior ( empirismo ).
Através de seu racionalismo crítico, Kant tentou formular a síntese entre sujeito e objeto, entre empirismo e racionalismo dogmático, mostrando que, ao conhecermos a realidade do mundo, participamos de sua construção mental, ou seja; das coisas conhecemos a priori só o que nós mesmos colocamos nelas.
O estudo das condições a priori do conhecimento foi denominado por Kant "transcendental", que nada tem a ver com o "transcendente", mas com aquelas condições que, de parte do sujeito, contribuem constitutivamente para a possibilidade da experiência.
Um princípio é transcendental enquanto enuncia uma condição geral a priori da experiência, considerada simplesmente como experiência e sem outra determinação particular. É metafísico se enuncia uma regra a priori que permita estender, sem novo recurso à experiência, o conhecimento de um objeto cujo conceito é já dado por este. Assim, o princípio a priori segundo o qual toda mudança de uma substância deve ter uma causa é transcendental; e o princípio segundo o qual toda mudança de uma substância corporal deve ter uma causa exterior é metafísico, porque supõe o conceito empírico de corpo enquanto objeto móvel no espaço.
A metafísica, depois de Kant, propôs um problema novo: o das relações do sujeito e do objeto, do pensamento e do ser. É esta a questão fundamental do nosso século.
Mediante a cooperação recíproca das faculdades entendimento e sensibilidade o sujeito produz a experiência, que é um conhecimento real e empírico constituído por uma conexão de percepções operada pelo entendimento. Assim, a experiência envolve dados empíricos a elementos a priori. Uma faculdade intermediária às duas anteriores, a imaginação, através da produção de imagens puras chamadas esquemas ( ex. O número) e graças a uma afinidade com aquelas, realiza a síntese das percepções e permite a aplicação dos conceitos do entendimento a esses produtos da sensibilidade. A sensibilidade apresenta-nos dados indeterminados, a imaginação os sintetiza sob o número 5 e o entendimento os identifica como sendo 5 maças.
O conhecimento consuma-se no momento em que percepções e conceitos são relacionados ou reunidos sob a forma de afirmações ou negação num juízo.
Como o juízo é a expressão do pensamento, a crítica deve começar por seu estudo. Kant conclui que somente o juízo sintético a priori é científico. A ciência, portanto, não provém da experiência, mas de algo pressuposto ao espírito, algo a priori. Explicar a origem e o valor desse juízo é, ao mesmo tempo, justificar a ciência. Como os temas de estudo da metafísica ( mundo, alma, Deus ) transcendem o mundo do sensível, nada do que lhes diz respeito pode ser provado e, portanto, a metafísica, como ciência, é impossível. A razão humana não pode conhecer os seres como são em si, mas somente o fenômeno, isto é, as aparências, aquilo que aparece. A ciência não pode penetrar no númeno, no núcleo fundamental dos seres; permanecer no fenômeno. Está necessariamente limitada ao domínio da experiência espaço-temporal.
O processo a que, em decorrência, submeteu a metafísica resultou numa autolimitação da própria razão. Foi graças à consciência que a razão tomou dos seus próprios limites que ela se tornou crítica. E foi em conseqüência dessa consciência que Kant reservou ao entendimento o papel de faculdade de conhecimentos; e, por outro lado, reservou à razão duas funções novas: uma, tornando as idéias metafísicas instrumentos metodológicos de avaliação do progresso da experiência, chamando-as com isso "idéias regulativas"; outra, negando o caráter contraditório das idéias cosmológicas, por exemplo de liberdade e necessidade entre si, pela atribuição de uma dupla significação ao conceito de objeto: como fenômeno e como coisa em si, tornando com isso possível a aplicação daquelas idéias à prática moral.
O que a CRP realmente conseguira? Havia destruído o mundo ingênuo da ciência e o limitara, senão em grau, com certeza em alcance – limitando-o também a um mundo confessadamente de mera superfície e aparência, além do qual ele só podia resultar em ridículas "antinomias"; com isso, a ciência estava salva!
Bibliografia:
CRP, Prefácio à 1ª edição CRP, Prefácio à 2ª edição
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia. -
DURANT, Will. A História da Filosofia, in Os Pensadores
FRANÇA, Leonel. Noções de História da Filosofia. -
LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da Filosofia.
ROHDEN, Valério.O criticismo kantiano. -