IMPACTOS ECONÔMICOS, SOCIAIS, CULTURAIS E AMBIENTAIS CAUSADOS PELA INTRODUÇÃO DE ACÁCIA E EUCALIPTO NA NOSSA REGIÃO*

por Roque Oliveira

Este assunto deveria ser melhor estudado e analisado, tanto pelas autoridades municipais como pelos produtores que estão sendo iludidos e induzidos a entrar confiantes em uma atividade que não conhecem. Até o momento não há contraponto, apenas a versão milagrosa "do oito em oitenta" pregado pelas empresas que exploram a atividade. Alguém já parou para se perguntar porquê só agora essas empresas descobriram que aqui as terras são acessíveis, que ficam próximas de Rio Grande, com boas chuvas, etc. ? E os empregos? Falando bem a verdade, vai aumentar ou diminuir? Por que será que regiões como Vale do Caí, Vale do Taquari, regiões de acessos rodoviário, ferroviário e fluvial, que foram grandes produtoras de acácia, estão mudando para produções de pecuária, soja e cítricos? Certamente quem têm essas respostas, não tem o interesse em divulgá-las. Aliás, durante a Expointer, conversava com um ex-plantador de acácia que me dizia, que se Deus desse a ele poder absoluto para fazer uma única coisa, essa coisa seria criar um vírus ou bactéria que em pouco tempo acabasse com as acácias, da mesma forma que ela acabou com suas terras. E o campo dele fica no município de Portão, solo de qualidade bem superior ao de Herval. Imagine o estrago que fará a acácia em nossa região, onde o solo predominante, por natureza é raso e pobre em matéria orgânica, que espontaneamente crescem capins, chircas, carquejas, macegas, etc., além de árvores de pequeno porte adaptadas a esse tipo de terreno. Se essa região fosse apta a receber grandes florestas, com certeza a natureza já teria se encarregado de floresta-la. Se culturas como milho, feijão, cebola e outras desse porte, esgotam o solo em pouco tempo, imagine uma lavoura de acácia.. Se fizermos o cálculo de quantos pés de milho são necessários para dar a mesma massa de um único pé de acácia em ponto de corte, com o resultado do cálculo vamos entender porque o agricultor de Portão queria acabar com as acácias. Com eucalipto não é diferente, basta ver que no norte do estado e regiões de lavouras, os agricultores plantam eucaliptos nas áreas de banhados para que seque na volta, facilitando o preparo do solo. Um técnico de uma empresa dessas que cultivam madeira, numa entrevista a uma emissora de rádio durante a Expointer, quis comparar nosso estado com um país como a Finlândia, dizendo que a Finlândia se desenvolveu a partir do reflorestamento e que lá as árvores levam oitenta anos para dar corte e aqui apenas oito. Mas não quis dizer que a exploração de florestas na Finlândia representa apenas oito por cento do PIB, que a Finlândia ganha mais dinheiro explorando madeira nos países pobres do que em seu próprio país. Não disse também que lá as florestas crescem espontaneamente, e que só é permitido o plantio de árvores aonde a floresta foi retirada e não onde nunca existiu. Se no hemisfério Sul a vegetação cresce mais rápido que no hemisfério Norte é porque aqui o solo vem sendo agredido a menos tempo. É conhecido no mundo inteiro que o cultivo de árvores exóticas, aumenta a pobreza, a miséria e a fome, enfraquece a terra, não impede a erosão, faz secar as águas, pois, a madeira cultivada tem um ciclo curto de preços altos e um ciclo longo de preços baixos ou muito baixos. O interesse das empresas é que aqui as terras e a mão-de-obra são baratas, a madeira cresce três vezes mais rápido e principalmente porque não temos uma legislação séria de proteção do meio ambiente como nos países desenvolvidos e, em nível local, não se tem nenhuma política de desenvolvimento sustentável, deixando a população à deriva. Obs.: na Finlândia, os donos de terras recebem subsídio do governo para manterem as florestas, pois além dos valores sociais, financeiros e ambientais, elas "abrigam os espíritos". Se com a nossa velha lida campeira, que ao longo de todos os anos temos: parições de terneiros e de cordeiros, apartes, marcações, assinalações, esquilas, domas, alambrados, lavouras, etc. e ainda assim faltam empregos em nosso município, imagine como ficará com esse "novo modelo". Depois do mato plantado, o gerente da empresa parceira, assina um chequezinho minguado e diz ao peão: "Volte daqui a oito anos com machado e motoserra". É verdade que no primeiro ano é possível fazer uma safra de culturas de colheita manual entre as pequenas árvores, mas depois seguir criando gado no meio do mato é ilusão, pois, o capim só crescerá pelas beiradas. -------------------------------------------------------------------------------- * Publicado originalmente no Jornal O Herval em setembro de 2004.

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