HERVAL: BREVE HISTÓRICO

O município de Herval fica situado na região sul do estado, próximo a Pelotas, dentro do denominado Pampa gaúcho, no qual se encontram mais de 3 mil espécies diferentes de plantas e de um enorme número de espécies animais que são típicas deste tipo de vegetação baixa e formada por coxilhas, cerros e campo limpo. A mesma riqueza de biodiversidade que está para ser dizimada pelo plantio indiscriminado e criminoso de árvores exóticas. Por aqui vivem cerca de 8 mil pessoas e a maior parte das riquezas são produzidas através da atividade agropecuária. O município historicamente vem sofrendo com as garras afiadas do latifúndio. É verdade que a concentração de terras já sofreu uma significativa diminuição, especialmente na última década, o que se deve preponderantemente a dois fatores: a implantação de mais de 10 assentamentos no município; a emancipação do município vizinho de Pedras Altas, que acabou retirando de Herval os “mais importantes” latifúndios. Mas também é verdade que a cultura latifundista permanece muito viva neste canto do mundo. As pessoas, mesmo às de esquerda, raramente chegam a vislumbrar uma saída transformadora para a organização social do município, que seja capaz de promover a humanização dos homens e das mulheres – o que supõe um modelo de desenvolvimento econômico coerente com este sonho de humanização. O modelo de gente preponderante por aqui tem girado ora pelo esforço por se parecer com o “patrão”, ora pela tentativa de importar o modelo de desenvolvimento da metade norte do Estado – este é o caso do povo assentado –, modelo que em grande parte é responsável pela produção de um grande número de sem terra. Como as organizações democráticas e populares, não se desafiam a apresentar um modelo coerente e consistente para o desenvolvimento político, econômico, social, cultural etc. do município, os conservadores de plantão seguem dando às cartas. Por exemplo, aproveitaram-se da chegada dos assentamentos para controlarem a maior fatia do comércio praticado em torno da vida do assentamento. Sua rapinagem vai da venda de produtos agropecuários e materiais para a infra-estrutura dos lotes, até a intermediação da venda de produtos dos assentados. Assim, tradicionais produtores de terra do município não apenas vão reestruturando sua atividade econômica e política, como adquirem o status de “homens do agronegócio”. Veja bem, não estou sugerindo que antigos proprietários de terras ociosas tenham se transformado em prósperos comerciantes. Não é bem isso. Minha intenção é demonstrar que a fragilidade das organizações populares de esquerda (e aqui estou me referindo ao partido político – assim mesmo no singular; à coordenação do movimento social e sindical etc.), muito tem contribuído para que a “renda da terra” permaneça nas mãos dos latifúndiários e dos setores que o sustentam; mesmo depois da derrubada de várias cercas. É claro que a organização dos latifundiários não pode ser desprezada. O latifúndio – ou a cultura latifundista – continua vivo e forte, tanto que ele teve força suficiente para estender seus braços rumo a outras direções, na busca do seu sustento, como é o caso recente do plantio indiscriminado e criminoso de árvores exóticas, referido anteriormente. Insisto, no entanto, que os “grandes colaboradores” do latifúndio são, contraditoriamente, seus maiores opositores. Ou seja, o latifúndio tem se nutrido, e muito, da debilidade da coordenação dos grupos que a ele se opõem. Uma coordenação pautada por uma oposição meramente verbal e verbalizante, que não se esforça para diminuir a distância entre o que diz e o que faz. Uma oposição que abdicou do seu dever histórico de “preparar a terra pra um mundo novo”. Que abriu mão dá difícil tarefa de construir um projeto político que seja paupável, e ao mesmo tempo palatável por todos e todas que se acham envolvidos em seu processo. Uma oposição, muitas vezes, sem decência nem competência para conduzir a reforma agrária para além da conquista de um pedaço de terra, transformando-a, portanto, num canteiro onde possa germinar um novo homem e uma nova mulher. Mas a história é longa, espero poder contá-la com mais detalhes numa outra oportunidade.
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