Realidade escrava
                                                                                                            Robson Belchior
  
   Leio o livro e todas as personagens fogem e come�am a entender a hist�ria. A hist�ria do porque de estarem ali presas.
      Pronto. Terminei de ler, elas me aplaudem por eu Ter observado e entendido. Agora elas padeceram porque eu fechei o livro. Acabou a viagem; adeus livro! Agora seu esp�rito � meu.
Adaptado da poesia �O Livro�- ROM�
      Em suas m�os as personagens ganham vida, saltam do livro permitindo-se serem observadas, entendidas mostrando uma reconstitui��o real dos acontecimentos e fatos, onde todas as coisas tem forma, cor, cheiro; um verdadeiro convite ao leitor � uma viagem pelas estradas empoeiradas do passado em busca do verdadeiro esp�rito hist�rico.
      O cotidiano e as mentalidades contemplam, transformam e edificam a nova �tica te�rica- hist�rica. Gra�as a pesquisadores inquietos, as rodas da historiografia atual come�am a girar noutros caminhos, a nossa hist�ria come�a a tomar um rumo bem diferente do que se conhecia at� hoje.
      As an�lises feitas sobre as transforma��es de curta e longa dura��o s�o respons�veis por uma melhor compreens�o das v�rias formas de resistir, das rela��es de conv�vio e negocia��es na hora de trabalhar, de morar, de amar. Em fim, por essa teia de fatos e acontecimentos fervorosos chamada cotidiano.
      Hoje podemos falar em uma micro hist�ria voltada para a composi��o de uma macro hist�ria e n�o somente de uma an�lise dos fatos sociais, pol�ticos e econ�micos, das datas comemorativas e celebrativas, dos Martins e suas Bandeiras como durante muito tempo pensou e contribuiu a historiografia tradicional.

     Para Emilia Viotti o importante para nova hist�ria �� explicar por que as coisas est�o acontecendo da forma como est�o acontecendo em determinada sociedade. � evidente que h� um elemento de subjetividade nesta avalia��o. Mas � poss�vel controlar a subjetividade com m�todo. A subjetividade n�o invalida o conhecimento hist�rico.�

      Um exemplo bem claro s�o os conceitos sobre o per�odo escravocrata onde v�rias �verdades� ca�ram por terra, ru�ram frente as novas descobertas de nossos pesquisadores.
      Para analisarmos a escravid�o � preciso antes de tudo sabermos que mentalidade tinham os senhores e que mentalidade tinham os homens escravizados? Quais eram os valores da �poca? Para dessa forma n�o cometermos o erro de julgarmos segundo os nossos valores. Precisamos tamb�m entender em que contexto se situam os valores e quais as transforma��es os geraram transformando-os em verdades incontest�veis. Percebemos claramente um movimento lento e continuo de constru��o de identidade onde se torna imposs�vel entender essa realidade se n�o enveredarmos nas trilhas aqui apontadas, se n�o nos utilizarmos da subjetividade para nos aproximarmos da mentalidade �pica.
      Entre os principais trabalhos que fazem o movimento de reconstru��o hist�rica gostaria de destacar:
� Emilia Viotti da Costa e seu livro �Coroas de Gl�ria, L�grimas de Sangue.� Onde analisa a partir do conceito de crise o fim do processo escravista se valendo da macro e micro- hist�ria
�A no��o de direito que os escravos t�m �que trato no livro- tamb�m � uma no��o que se altera com o tempo. O que falta na nova hist�ria � essa especificidade do tempo hist�rico. O escravo sempre existiu, mas o sonho de liberdade �que ele sempre teve- mudou.�

� Jo�o Jos� Reis em entrevista cedida a Cl�udio Cordovil -Jornal do Brasil- fala sobre a colet�nea �Liberdade por um fio: a hist�ria dos quilombos no Brasil� organizada por ele e por Fl�vio dos Santos Gomes onde discutem e dismistificam a id�ia que se tem sobre os Quilombos. Como por exemplo: que muitos Quilombos eram formados por agrupamentos de cinco ou mais escravos, que muitos Quilombos mantinham rela��es hostis com as fazendas e seus senhores.

�...Pelo Quilombo circulavam muitas outras pessoas al�m de escravos. Havia �ndios, desertores, gente em problemas com a justi�a. Era um aglomerado de exclu�dos.
... O que propomos hoje � que os quilombolas tinham a sua pr�pria vis�o pol�tica que n�o pode ser examinada fora de seu contexto. A partir de nossas vis�es de liberdade.�
J�nia Ferreira Furtado e seu livro �As ra�zes da fam�lia mineira� estudo que prioriza a hist�ria da mulher e da fam�lia colonial brasileira.

�Ao lan�ar seu olhar por tr�s das r�tulas e portas, captou a atua��o dessas mulheres tanto dentro dos lares, quanto nas ruas, dividindo fun��es, buscando alternativas de ganhos e sobreviv�ncia. Esse dinamismo feminino sugeriu que as desempenharam pap�is muito mais importantes no desenvolvimento s�cio-econ�mico e cultural da col�nia do que se pensara at� ent�o. As rela��es consensuais foram analisadas a partir de seus mecanismos de tens�o, das rusgas entre maridos e esposas, das dificuldades de domesticar o desejo, das solu��es familiares originais, empecilhos sempre presentes �s tentativas de enquadramento da vida conjugal�

Embora todas as contribui��es das novas e importantes an�lises sobre as rela��es entre senhores e escravos; brancos, negros e mulatos no per�odo escravocrata tendo por base a compreens�o �pica atrav�s do cotidiano e das mentalidades tenham total import�ncia e valor ainda � uma realidade distante de nossas crian�as do ensino fundamental, n�o conseguindo assim saltar as barreiras do ensino superior acad�mico. Mas, nem tudo est� perdido lentamente podemos apontar mesmo que distante algumas fagulhas que muito em breve h�o de incendiar a mente de nossos jovens despertando-os para as quest�es culturais e raciais que envolvem nosso pa�s.
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