TODA ESCOLA
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Sou um rio
                                          
Oí, eu sou um rio. Alguém que passasse e me ouvisse diria; “tá doido, isso está próximo de esgoto”. Não, não e não. Eu fui um rio – num passado não muito distante – de águas transparentes e cristalinas. Como você podem ver sobrou isso.
Antes, não agora, as pessoas banhavam-se em mim, minhas margens eram ocupadas por várias muitas bastantes pessoas. Nelas, as pessoas deitavam e ficavam horas. Gramas, havia gramas por todos lados. Nas margens, gramas verdes verdes. Agora, até sofá pode-se encontrar. De vez em quando aparece boiando alguns presuntos em decomposição.
Nasci por entre pedras, atrás delas, havia muitas árvores: pequenas, grandes. Muita folhagem.
Eu lembro que ali, embaixo delas, sempre apareciam casais para degustar a sombra, é claro que eles não saboreavam só a sombra, comiam as frutas também.
Eu ficava logo embaixo, não muito longe dali. Nasci assim. Pingava, pingava por entre as pedras; foi assim, pingando que nasci. E essa água ia reta reta e reta.
De repente, tornou-se algo largo, fundo e eu apareci, sou o rio.
Veio o homem.
Correndo atrás do lucro, ele jogou fora a água, o verde e a natureza. Não era mais necessário ter às margens, gramas, beleza. E elas foram-se, foram-se, foram-se... pô, fiquei, fui ficando assim: fedorento, ando com meu estomago sem peixes e ainda virado. A fome por mais dinheiro tornou-se uma doença, epidemia. Dinheiro pra cá, dinheiro pra lá; e eu que me feda.
Jogam em mim de tudo. Todas as fábricas abrem suas sujeiras em mim e seus donos dizem: “É preciso gerar empregos”. E eu pergunto, claro, sou perguntador:
- Emprego? Pra quê, pra quem, as pessoas ganham quase nada, e o que ganham, dá para quase comer. Eu aqui fedendo, como eu me banho?
         Agora, andam dizendo que tratarão de mim, pegarão dinheiro lá fora – no FMI -, para que eu renasça.
Sei não.
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