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| Estamos cabeludos de saber que quando um negócio não é rentável o empresário muda de ramo. Vejam vocês o que comigo aconteceu outro dia quando viajava para São Paulo. Como todos nós sabemos, o trem que vai de Mogi a São Paulo transporta todo mundo. Uns que pedem esmolas, outros que rezam, mais outros que vendem cotonetes, doces, bolachas, iogurtes, brincos, canetas, cruzadinhas, balas e chicles, sem contar aqueles que fumam uma maconha danada, enfim, acabamos chegando no Brás viajando. Tive que resolver uns problemas em São Paulo e fui de trem. Até aí tudo velho. Uma senhora, dona Joaquina, não sei por que tanta franqueza resolveu contar-me parte de sua vida. Disse-me que estava cansada de trabalhar por isso resolveu pedir esmolas. A mulher resolveu contar-me. Ela trabalhava numa casa de família como ela mesma define. Ela ganhava 185 reais por mês e vale transporte. Tinha que limpar uma casa enorme, segundo ela. Fazer almoço. Podia comer somente um bife. E tomar somente uma xicrinha de café por dia. Os filhos da patroa eram pra lá de chatos. Ela disse que eram uns burrinhos. Pois bem: como o ramo em que ela trabalhava não era rentável resolveu mudar de atividade, foi desenvolver suas habilidades em outra freguesia. Tinha talento para fazer coisas mais ousadas. Segundo ela. Não queria aborrecer-se. Não queria limpar mais casas. Estava decidida a mudar de vida. Fez pesquisas para ter certeza em que ramo iria aplicar seu talento. Pesquisou, pesquisou. E concluiu que pediria esmolas. Era boa em matemática. Aliás, a viagem neste trem é uma verdadeira epopéia. Fez os cálculos. Falava-me com emoção com certo tino empresarial. Até a linguagem era mercantil: lucro, rentabilidade, investimentos, aplicações. A dona já tinha a postura de um grande empreendedor. Vocês precisavam ter ouvido isso e não ler isto. Muito bem: eis o resultado. Ela pede cinco centavos a cada passageiro. Durante uma hora ela recolhe de trezentos passageiros. São brasileiros que vão todos os dias trabalhar em São Paulo. Gente boa. Ela faz isso todos os dias. Ela “trabalha” oito horas por dia. Não tem carteira assinada. No final do mês, todos os meses, ela fatura 2.400,00 reais. Pergunta: quantos dias ela “trabalha”? |