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| TODA ESCOLA |
| Construção Passava, caminhava pela calçada. Na Benjamim Constant. Na esquina, quando passava perto de uma obra, caiu um corpo logo à frente. Bateu BUM TEC. Eu corri. Cheguei perto do corpo e ele estrebuchava como um cachorro atropelado... já era. O celular grudado na calça, peguei-o e liguei para a Santa Casa. Disse que um homem morria. As pessoas se amontoavam ao redor dele e falavam e especulavam. Teve um que chegou a dizer: “pulou, suicídio”. Outro: “pela cara, não parece”. Chegou alguém da obra e perguntou: - Caiu agora? - Sim. Eu liguei para a Santa Casa para que eles, lá, tenham misericórdia. Ficamos, fiquei. Passou-se trinta e cinco minutos e nada. Depois de cinqüenta minutos apareceu. Pra mim, José já estava morto. Todos chamavam-no, José. O sorveteiro vendia picolé. Levaram-no. Como eu liguei, fui junto, o encarregado ficou na obra e subiu para pedir aos... “toquem a obra”. Chegamos. Melhor que... Entupido de gente, e eu pago todos os impostos: diretos e indiretos. Sou eu, nós que sustentamos os deputados, os senadores de Brasília, pagamos pensão, Renan, lembram, lembrem. Imaginem, tinha gente quebrada, com febre, torta, triste, chorando. O Brasil estava na minha frente. Gemeu. José gemeu. “Ta vivo. AJUDEM, TÁ VIVO”. “Espere”, alguém disse. Nesta hora, não existe rosto. O não, não tem nome, é despessoalizado. - Passou da hora de matar todos os picaretas deste país. “Que foi?” Lá, sentada estava ela, lia. Calça jeans, camiseta branca, cabelos noites, boca pequena, olhos grandes, verdes. Brilhava e lia. Baixa. Parecia que não estava ali. Lia Edgar Poe. Pensei. Aliás, leitura propícia para o lugar. Lia Vinicius, sorria. Que poema? Será por quê? Fiquei do lado de José, já estava há quinze minutos. Ele gemeu de novo. Saiu um médico. “Quem caiu do prédio, está vivo?” - Aqui, está morrendo. Levem-no rápido. Fizeram uma ficha. Entraram com ele quase andando. José, José: tu tás... perdido. A fila continuava e a recepção continuava com aquela cara de salário mínimo atrasado. Só chegava gente. - Quem veio, com o peão? - Eu. - Morreu, pegue o óbito na outra porta. |