TODA ESCOLA
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Na ortopedia da Kaneji Kodama lendo Edgar Allan Poe, “O caso Valdemar”
                                                                       Pedro Luiz da Silva

Sempre quando saio, levo comigo um livro, nunca sei o tempo que aguardarei. De preferência, levo um de conto.
Hoje, saí e fui desfrutar do serviço público de saúde, você leitora, claro, pode imaginar o quanto é excitante poder gozar desta relação – contribuinte e saúde pública.
Levei comigo Poe. Aliás, coerente com o lugar e a atmosfera com  a qual eu me defrontaria. Eu encaminhei-me para lá. Poderia ter levado Kafka, porém na hora saí agarrado a Edgar.
Meu destino era a Santa Casa, lá marcaria alguns exames. Ando com uma dor fina no ombro esquerdo, bem na dobra superior do ombro. Ela é fina, entretanto quando surge doe de tal maneira que sinto fisgar o calcanhar e às vezes chega a doer até o joelho. Aí a dor é funda, parece que me raspam o osso com uma lâmina nova, afiada.
Cheguei no meu automóvel verde, deixei-o numa rua não muito distante da Santa Casa e fui fazer minha caminhada. Parei o automóvel numa rua curta, asfaltada. Era uma rua com lixo nas calçadas. Descendo do Fusca vi três carrinheiros que pegavam restos das riquezas humanas que pudessem transformar no deus visível.
Fechei meu automóvel, no entanto, confesso que fiz isso com dificuldade. A chave custou a entrar na fechadura e depois que estava lá dentro agarrou e foi terrível tirá-la. Fiz um pouco de força e ela saiu.
Atravessei a rua e fui.
Precisava marcar alguns exames. Fui em uma porta, mas disseram-me que ali não era. Teria que ir à outra porta que fica na outra rua paralela, perto dali. Pois bem, saí e fui aonde me indicaram.
Cheguei na recepção e uma moça, jovem, morena, olhos escuros, dentes brancos e educada, me recebeu, sorriu, viu e disse:
- O raios-X é na porta de vidro ao lado, os exames de sangue, fezes e urina é no laboratório ao lado da funerária e a ortopedia é na Kaneji.
Bom, como você pode já imaginar, atenta leitora, fui à porta de vidro que fica ao lado, fora do prédio.
Lá falei com uma senhora sobre a marcação do dia em que faria a chapa do ombro esquerdo. A senhora que me atendeu disse que ela não marcava, era ali, entretanto ela não podia marcar, quem marcava era o posto de saúde. Ah! O posto de saúde é o lugar onde estive na terça-feira, hoje é quarta-feira, lá me deram as tais guias.
Então deveria voltar ao posto e lá, marcar. Para que depois eles marcassem. Ficou assim dito.
Dali fui para o laboratório. Lá fui atendido por um rapaz que quis saber o que eu queria.
- Eu quero agendar para amanhã exame de sangue e entregar as coletas de urina e fezes.
Ele pegou os papeis que eu tinha nas mãos e anotou no verso algumas informações, me deu dois frascos de plásticos para as coletas e disse-me:
- O senhor deve voltar no dia 20 de outubro de 2005 com as coletas definidas e preparado para o exame de sangue. O senhor precisa chegar 15 minutos antecipados, o atendimento começa às 8 horas em ponto. Se o senhor chegar depois das 8 não poderemos atendê-lo.
Dali saí. Nada mais tinha, ali, a fazer.
Agora teria que ir à ortopedia.
Caminhei pela rua do laboratório até chegar a Kaneji Kodama. Kaneji Kodama é um ser humano de origem japonesa que dá nome à rua. O que ele fez por merecer essa lembrança eu sinceramente não sei. Andei uns quatro ou três minutos e cheguei a Kaneji. Dobrei a direita, andei 63 metros, entrei à direita e já estava quase dentro da ortopedia, andei mais um pouco e pronto, dentro.
Cheguei na recepção. Lá estava sentada uma senhora. Na olhada que dei me pareceu triste, talvez não tivesse tomado o café com leite e nem mastigado um pãozinho com manteiga. Ou ganhasse mal. Vejam, isso que falo são hipóteses. Me atendeu como se estivesse me fazendo um favor. Talvez estivesse. Vai saber. Cabelos pretos, curtos, pescoço pequeno com um celular na mão, comecei a falar com ela, ela foi falar ao celular. Era mais importante falar com alguém ao celular do que me atender. Afinal, quem sou eu? Professor de literatura e língua portuguesa da rede pública estadual.
Pegou minha ficha escreveu outra, me deu a minha de volta. Disse-me:
- Sente ali e espere.
Sentei.
Abri o maravilhoso Edgar Allan Poe. Pus-me a lê-lo. Foi sensacional. Tudo estava obscuro. Lia “O caso Valdemar”. Ele estava à beira da morte em um hospital. Valdemar não falava nada claro, era uma confusão o que ele dizia. Gemia alguma coisa, denunciava que estava morrendo e que morreria logo. Ficava nisso. No final da história Valdemar quebra-se todo não mão do personagem principal deixando somente um Mau cheiro horroroso.
Sentado na cadeira da recepção, à espera, perguntei a um rapaz do lado que tinha o pé direito engessado se ele estava ali há muito tempo. Ele informou-me que tinha chegado ali às 11 horas e 40 minutos, já era 12 horas e 45 minutos.
O balcão da recepção localiza-se entre duas salas. A sala onde eu me encontrava tinha umas 20 cadeiras pretas em fileiras de cinco cadeiras parafusadas num ferro, atrás da recepcionista outra sala igual do mesmo tamanho e com a mesma disposição. Ah! Onde eu estava tinha uma televisão grudada numa armação de ferro parafusada na parede. Era de 20 polegadas e estava desligada, ainda bem.
Resolvi perguntar ao jovem do pé engessado como era  atendimento naquela unidade de saúde.
- A recepcionista triste nos chama e vamos para a outra sala atrás dela aguardar nova chamada.
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