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Qual saxofonista nunca ouviu
falar no Selmer Mark VI, “o melhor sax do mundo”?
Recentemente estive
procurando sites sérios na Internet que falassem sobre
os saxofones Selmer, principalmente sobre o Mark VI.
No Orkut (www.orkut.com)
encontrei uma comunidade de fãs deste modelo. Neste
grupo em questão, li um post de um cara
afirmando que o Mark VI é o melhor sax do mundo e coisa
e tal, que a Selmer lançou o Reference 54 tentando
imitar o MK VI, mas este além de ser bem mais caro nem
chega aos pés do mesmo. Neste post existiam várias
mensagens de pessoas concordando e falando as maiores
escrabruras do mundo.
Após minha busca, que foi
praticamente infrutífera, decidi escrever uma matéria
falando sobre o tão falado MK VI. Uma matéria que
mostrasse a verdade sobre ele, tentando ser imparcial e
analisando os fatos como eles são, sem me deixar levar
pelo emocional e pelo inconsciente coletivo.
Desde que me iniciei no
mundo do saxofone, ouço falar no MK VI como o melhor sax do mundo. Eu mesmo, durante muito tempo, sonhei em ter
um. Dizia para mim mesmo “vou juntar dinheiro e um dia
terei um MK VI”! Quando alguém me perguntava qual era
o melhor sax, lá vinha eu com um discurso pronto sobre
o famoso MK VI - a lenda, embora nunca tivesse visto um
de perto. O tempo foi passando, fui me interessando e
lendo sobre o assunto, ouvindo opiniões de músicos
profissionais, e assim fui vendo
o que realmente existe por trás desta cortina de fumaça.
Como afirmar que um saxofone
é o melhor do mundo? Quais parâmetros foram usados
para chegar a tal conclusão? Eis a questão!
Uma
coisa é certa: MK VI é religião! Não há como falar
sobre ele sem incomodar meio mundo!! Mas mesmo assim
irei seguir em frente.
Para
entender um pouco sobre a fama do MK VI, é preciso
retornar no tempo.
O
fato é que quando a companhia francesa Selmer lançou o
modelo Mark VI (em 1954), ele chegou como uma
tempestade. Ele trouxe grandes inovações e acabou
virando padrão, todas as outras marcas copiaram suas idéias.
Isso passou a acontecer um pouco antes do MK VI, na
verdade com o modelo Balanced Action. Foi a Selmer que
introduziu, com o Balanced Action, o conceito de todas
as chaves do lado direito do corpo do sax, uma mudança
radical no design da chave dos agudos, criou chaves mais
anatômicas, a colocação da chave de Fa alternativa,
rotacionou a campana em 14 graus facilitando o
acionamento das chaves, enfim, foi a Selmer a responsável
pelo design do saxofone moderno que conhecemos hoje.
Com
o Balanced Acation, o Super Balanced Action e com o Mark
VI a Selmer conquistou o topo da montanha, e parecia que
ninguém poderia fazer saxofones melhores do que os
dela. Isto foi verdade até meados dos anos 70, quando a
Selmer parece ter tomado o rumo errado da estrada.
Seu
novo modelo oficial, o Mark VII, deixou a desejar em
comparação aos seus antecessores. Muitos afirmam que o
maquinário usado para fabricação deste modelo estava
obsoleto. Outros dizem que devido à ascensão da
concorrência nos EUA, Selmer se viu obrigado a produzir
um sax mais barato (ex.: a King estava produzindo o
Super 20, a Conn o 6M e o 10M e Buescher o modelo 400,
isto durante o reinado do VI). Mas isto é outra história,
o que importa aqui é compreender o porquê da fama do
VI.
Selmer
com suas inovações transformou o saxofone, isto é
indiscutível! O problema é que com o passar das décadas,
foram surgindo uma série de histórias meio nebulosas,
do tipo “lenda urbana”, que acabaram se tornando
parte da história do VI.
Para
dar um exemplo cito algumas:
-
Que o VI
é o melhor sax do mundo (isto foi “verdade” em
1954, quando o próprio anúncio da Selmer dizia:
“NEW... MARK VI UNQUESTIONABLY SELMER'S GREATEST SAXOPHONE”);
-
Que os VI que
possuem cinco dígitos no número de série são os
melhores;
-
Que o metal se
tornou de qualidade inferior próximo do número de série
150K;
-
Que os melhores
saxofones foram produzidos entre os números de série
de 80K a 90K e/ou 105K a 140K;
E
por aí vai! O interessante é que nunca ninguém
apareceu com um teste feito quer seja por uma entidade séria,
quer seja por entidade obscura, comprovando tais
resultados.... tudo é boato. Como diz na página www.saxpics.com
“... NINGUÉM que eu conheça pegou um paquímetro e
conferiu (referindo-se ao diâmetro interno do tudel
do VI, que segundo diz a lenda teria variado durante sua
produção) – para não mencionar que ninguém fez
um teste específico no metal para determinar densidade,
composição ou qualquer outro dado específico.”
Realmente
existem muitas histórias que são verdades, mas elas se
referem à comparação entre aos VI USA e os franceses,
servindo de base para comparar os dois e como identificá-los,
mas deixarei isto fora desta matéria, pois não é o
objetivo aqui.
Uma
coisa é certa: A maioria dos VIs são ruins, existem
muitos razoáveis e poucos excelentes.
(Só de curiosidade: vale ressaltar que todos os VI são de origem
francesa, eles NUNCA foram fabricados nos EUA. O VI era
completamente fabricado na Europa, apenas eram enviados
para a América onde eram desmontados, sofriam ajustes
para corrigir danos de transporte, eram polidos,
recebiam acabamento, seria ornamentado com gravuras,
remontados e “regulados”.)
Com relação à mensagem
sobre o Reference 54 citada no início desta matéria,
provavelmente o cara que falou isto nunca viu um
Reference pela frente, e se viu, deve ter tocado somente
em um e assim dado o seu parecer (se é que ele sabe
tocar sax!!). Veja o que está escrito em uma página
de um saxofonista profissional que testou TODAS as
marcas mais famosas de saxofones modernos:
“The Reference Alto is one of the best saxes I've ever played. …
I had the lucky chance to play test 10 References
at the Paris factory, and to my surprise they were all
very consistent, but without losing any of their
individual character. … After 30 years
Selmer have finally done it, they’ve got that old MK
VI magic back - and then some! … It has the authority
of a vintage Selmer but with all the intonation problems
resolved.”
Tradução:
“O
Reference alto é um dos melhores saxofones que eu já
toquei... Eu tive a grande chance de testar 10
References na fábrica em Paris, e para minha surpresa
todos foram bastante consistentes, mas sem perder
nenhuma de suas características individuais. ... Após
30 anos a Selmer finalmente conseguiu, eles trouxeram a
velha magia do Mark VI de volta – e algo mais! ... Ele
tem a autoridade de um vintage Selmer, mas com todos os
problemas de entonação resolvidos.”
Se você gastar um pouco do
seu tempo pesquisando sobre o MK VI em páginas
especializadas (desde que esta não seja feita por um
fanático em MK VI, aí vai ser perda de tempo) verá
que o saxofone MK VI nada mais é do que um bom
saxofone. O que existe é muito folclore. O MK VI foi laçado
em 1954, foi um marco para a época, devido às várias
inovações que trouxe. Aproveitaram-se disto para
tornar o MK VI o “melhor sax do mundo” para ganhar
dinheiro. No Saxophone Buyers Guide (Guia do
Comprador de Saxofone) fala sobre este assunto.
Veja
o que está escrito em outra página de um cara que
entende de sax:
Find
a sax that 'sounds' the way you want to sound, don't buy
a Mark VI just because of the name!!!
Most Mark VI's are horrible sounding-very stuffy
and difficult playing horns! Try EVERYTHING out!!! …
Try
everything out before you spend thousands of dollars on
an instrument!!!
Tradução:
“Encontre
um sax que “toque” da maneira que você quer, não
compre um Mark VI somente por causa do nome!!! A maioria
dos Mark VI possuem um som abafado horrível e são difíceis
de tocar! Teste de TUDO!!! ... Teste todos os saxofones
que puder antes de gastar milhares de dólares em um
instrumento!!!”
Numa página muito famosa
que testa saxofones das marcas mais famosas, o sax
eleito o melhor do mundo foi o Julius
Keilwerth SX 90 R. O melhor sax soprano do mundo
foi o curvo da Yanagisawa, e por aí vai.
Você já tocou num destes?
Nem 95% dos saxofonistas. Então como estes afirmam que
o MK VI é o melhor? Só porque fulano de tal falou?
Porquê David Sanborn usa? Só porque possuem um?!!? Não
é por aí!
Desta forma acaba virando
concurso de Miss! Fulana de tal foi eleita a mulher mais
linda do mundo. Para que tal coisa fosse verdade, TODAS
as mulheres do mundo deveriam ser avaliadas. Coisa que
seria impossível. E quando você olha a ganhadora do
concurso, você chega a conclusão de que aquela sua
vizinha é muito mais bonita.
Para que um determinado
saxofone fosse eleito o melhor do mundo, este deveria
ser confrontado com todos os saxofones existentes, tanto
as marcas novas quanto às antigas. Infelizmente isto não
ocorreu até hoje, e provavelmente nunca ocorrerá! O máximo
que chegamos perto disto foi um teste feito por uma loja
de saxofones que possui uma página na internet e que
testou TODAS as principais marcas de saxofones modernos
e avaliou cada um nos mínimos detalhes. Esta é a única
forma de poder fazer uma afirmação do tipo “O sax
XXX é o melhor sax do mundo”!
Eu fiz esta pergunta (Qual
a sua opinião sobre o MK VI, realmente é o melhor sax
do mundo?) a três monstros do sax internacional;
confira abaixo as suas respostas:
Joe
Lovano
I grew up playing the Selmer Balanced Action, for
me that was the best horn Selmer produced... The Mark VI
was never my thing, and all of the Mark VI copies are
sad.... I love my Custom Borgani, It's the first new
horn on the market that really stand's on it's own!!!
Tradução:
“Eu cresci tocando Selmer
Balanced Action, na minha opinião este foi o melhor sax
produzido pela Selmer... O Mark VI nunca foi meu
favorito, e todas as cópias do Mark VI não são
interessantes... Eu adoro o meu Borgani Custom, é o
primeiro sax no mercado que se sustenta por si só.
Benny
Golson
For me the Mark VI was not my favorite model. I
personally preferred the old Balanced Action, and years
later the "A" model, and finally today the
Reference 34, which I consider the ultimate saxophone on
the planet. But this is merely my opinion.
Tradução:
“Para mim o Mark VI nunca foi meu modelo favorito. Eu
pessoalmente preferia o velho Balanced Action, e anos
depois o modelo “A”, e finalmente hoje o Reference
34, o qual eu considero o saxofone definitivo do
planeta. Mas isto é a minha mera opinião”.
David
Sanborn
Saxophones, like many other things in life, are a
matter of taste. I personally like the Selmers
because I like the warmth and projection that they have.
But I know many players who use Keilwerth or King, or
other brands and are very happy with those. It's a
matter of personal taste.
Tradução:
“Saxofones, como muitas outras coisas na vida, é uma
questão de gosto.
Eu pessoalmente gosto dos Selmers por causa do
calor e da projeção que eles possuem.
Mas eu conheço muitos saxofonistas que usam
Keilwerth ou King, ou outras marcas e estão muito
contentes com elas.
É uma questão de gosto pessoal.”
Estas opiniões sim, você
deve levar em conta, de músicos de peso.
De gente que tocou sax a vida inteira e tocou com
músicos do calibre de Art Tatun, John Coltrane, Elvin
Johnes, etc.
O problema é que
todo saxofonista já inicia no sax com esta idéia
pré-concebida do MK VI como o melhor do mundo. O engraçado
é que se você perguntar, quase nenhum saxofonista já
tocou ou muito menos viu um MK VI pela frente.
Dia destes li num famoso fórum
brasileiro sobre saxofones uma mensagem de um cara se
dizendo apaixonado pelo MK VI, que é o sonho de consumo
dele. Que um dia pretende comprar um. Ele estava
perguntando quanto custa um MK VI novo, pois um usado
ele sabe quanto custa!???!! Isto prova que nem o MK VI
ele conhece direito, pois este foi fabricado entre os
anos de 1954 e 75. Logo não existe MK VI novo, somente
em bom estado de conservação ou até mesmo relaqueado
(o que é um crime!!!) Não estou culpando o cara, isso
é normal, eu mesmo fui assim. Apenas dei este exemplo,
pois este não é um caso isolado.
Neste tempo todo eu só
toquei uma vez em um..... não vi nada de mais. Na mesma
ocasião toquei no Super Balanced Action (também da
Selmer e anterior ao MK VI). Se eu tivesse dinheiro na
época tinha levado o SBA, sem sombra de dúvida! Isto
foi na casa do Eduardo Gonçalves, no Rio de Janeiro.
Bom, esta foi a impressão que tive. Talvez o VI que eu
vi não fosse da linhagem que deu fama ao instrumento.
Vai saber! Mas nem por isso saí dizendo por aí que o
VI não está com nada ou até mesmo que o SBA é o
melhor sax do mundo.
Ouvi o Leo Gandelman falar
para o Ivan Meyer no Intensivão do Explicasax, que
houve em Campo grande em 2004, que todos os saxofones
dele são MK VIs, mas que o próximo sax que ele iria
comprar era um SBA. A mecânica deste sax é uma coisa
do outro mundo. Mas porque não se ouve falar dele? Por
quê ninguém fala dos saxofones Conns (os fabricados
entre 1940/50), que possui um som que deixa qualquer VI
para trás? Simples!!! Não falam porquê não conhecem!
Se conhecessem, poderiam dizer, “...mas o Conn tem uma
mecânica muito dura, muito desbalanceada”. Mas para
emitir tal opinião, é preciso testar!
Depois que o cara paga de 12
mil Reais pra cima em um MK VI ele vai admitir que o sax
dele toca tanto quanto um Selmer Bund ou um Weril????
Claro que não!
Não estou generalizando.
Existem MK VI fabulosos aí fora, que possuem um som sem
igual, melhor que qualquer sax novo que você imagine. O
problema é que quem os possui não os vende por nada, e
provavelmente você nunca verá um destes para comprar.
Logo os MK VI que hoje temos aqui no Brasil a venda.....
fique esperto!!! A não ser que estejam a preço de
banana ou que pertençam à linhagem que deu fama ao
instrumento, fique longe!!!
O interessante, é que por
mais que você diga e não entra na cabeça deste povo,
é que saxofone possui alma, possui impressão digital.
Nenhum é igual ao outro! É preciso tocar para somente
assim poder dizer se AQUELE é bom ou ruim. Saxofone não
é igual a coca-cola, que em qualquer bar do mundo terá
o mesmo gosto.
A marca diz muita coisa
sobre um instrumento, mas nunca deveria ser usada como
fator único para gerar o seu preço. De nada adianta
comprar um carro usado só pela marca, uma BMW por exemplo, se
o motor estiver fundido. É rasgar dinheiro! Tome isto
como lição quando for comprar um saxofone,
principalmente um MK VI!!!
Ao fim desta matéria você
pode estar achando que eu fiz uma defesa de tese
tentando derrubar o Mark VI, tirar dele o posto de
melhor sax do mundo. De maneira nenhuma! O que pretendi
com este texto foi provar ao leitor que o melhor sax do
mundo é aquele no qual você consegue tirar o melhor
som, é aquele no qual você se sente bem, seja ele um
Weril, um Yamaha Custom ou mesmo um Selmer Mark VI. O
que você tem que fazer é tocar.... para assim dar um
parecer embasado. Essa foi a moral da história!
Infelizmente aqui no Brasil
vale o ditado que costumo dizer: “Em terra de Weril,
quem tem Mark VI é rei.”
E não se esqueça......
saxofone tem alma!!!
Matéria de:
Leonardo
Agradecimentos:
Lucia
Bibliografia:
saxgourmet.com, saxpics.com
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