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Paraiso
Cinza |
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Mestiços desgarrados,
cujo sol lhes aquece a alma mas não lhes mata a fome. Desorientados
falando português bem embaixo do mundo, ignorados por ele, dependentes
da opinião dele pra se amar.
Palhaços suicidas de uma terra sem dono, índios nús
de fevereiro, embalados pela orquestra negra, batizada de escola.
De samba.
Nas favelas, a escola do crime ensina a matar e lá já
não se aprende mais a ser feliz. Lá a felicidade foi
mudando de conceito e hoje nem sequer é lembrada. È
a antítese trágica da natureza humana. Quando os homens
já não mais se rebelam contra a degradação
e resignam-se derrotados diante dela, pouco ainda há pra se
fazer.
A carne que alimenta os brasileiros famintos é a carne humana,
jogada nas ruelas como oferendas de luxo ao protetor das trevas soberanas,
ofuscando o pôr do sol dos miseráveis. Matar ou morrer
se tornou a mesma coisa, só depende do ângulo oportunista
em que se está. Ou da onde partiu a bala. Se da arma oficial,
vingativa e perversa, ou da arma rancorosa dos que elegeram a solidão
como amiga e deixam seu cano apontado pra testa de quem ousa discordar.
A cor do sangue externo da morte têm sido a mesma cor do sangue
interno da vida. Quando os pretos olhos da sua melancolia já
não brilharem mais, tanto faz aonde vai estar o seu sangue:
nas suas veias gordas ou esgüichado nas paredes, como a marca
póstuma de mais um brasileiro excluído pra sempre da
exclusão perpétua, indo repousar na eternidade seu corpo
belo, definido à base da miséria anabolizante.
Foi apenas mais uma assinatura coagulada da obra-prima confeccionada
pelos nossos antepassados e retocada diariamente por todos nós,
os brasileiros bonzinhos.
A carne mais barata do mercado é a carne negra, alguém
cantou...
Nossa miséria virou ponto turístico, cenário
exótico de documentários internacionais mal-intencionados.
Mídia doentia que se alimenta de esgoto à céu
aberto e do ronco das nossas barrigas.
Nossas mulheres são comparadas à garrafas de cerveja
de quinta, consumidas à noite inteira e vomitadas quando o
sol racha.
País original onde se começa a rebolar ao simples bater
de um tambor. Nação divina dos homofóbicos invisíveis,
missionários exterminadores das madrugadas inconfessáveis.
Exemplo de lado bom da vida:
O apocalipse tupiniquim vai ser asfixiado pela fragrância adocicada
do nosso calor humano.
Nossa difundida alegria de viver vai nos dar o título invejável
de:
“País oficial das focas amestradas.”
Não devemos jamais chorar nossas mágoas e sequer remoer
nossos rancores, como num fado melancólico desbravador de mares.
Se nós já não cobríamos nossas vergonhas
em 1500, como cobrí-las agora, que são imensas? Se somos,
afinal, um lugar de pessoas tão crédulas, quem sabe
Deus um dia confesse que tem passaporte brasileiro e faça chover
no Nordeste, matando a sede do sertão. Favelas virariam palácios,
bandidos seriam monges tibetanos e ao invés de tiros, distribuiriam
orações. No inverno nevaria. Seríamos um País
industrializado, de pessoas limpas, afetivas, alfabetizadas, cultas
e endinheiradas.
Limosines engarrafariam as ruas, sempre cheias de mendigos loiros
vestindo Galliano, Gaultier,Versace ...
As domésticas seriam mudas e cozinhariam usando modelos clássicos.
Vinho francês seria de graça.
Taxi-drivers teriam a cara do Paul Newman aos 20 anos, as garçonetes
teriam o derriére de Jeniffer Lopez e atenderiam nuas.
E se você quisesse, meu amor, Madonna daria uma festa só
pra você. No caso de haver contratempos, ela imploraria.
E de joelhos.
É evidente que cada doido tem sua versão pessoal do
paraíso, mas vocês tem que concordar que a minha não
é assim das piores. Ou é?
Nós, os brasileiros, somos reconhecidamente um povo sonhador
e romântico. Porém, Deus jamais será exclusivamente
nosso. Ou Mexicano. Ou Russo. Ele pertence à todos os seres
humanos. À todos os povos. Especialmente aos que amam, respeitam
e fazem digno o seu país e os seus conterrâneos.
Precisamos continuar a nossa infinita jornada, pois amanhã
será outro. Outro dia, é claro. E daqueles bem animados,
como de hábito. Tome cuidado com balas perdidas, balas achadas,
sei lá. Reze terços pra não chorar. Mas se inevitavelmente
você tiver que derramar um punhado de lágrimas, antes
disso tome uma água de côco, ouça um samba do
Ary e depois se jogue no mar. Quando a paz reinar novamente, volte.
Volte até mesmo como uma sereia clubber, se acabando numa rave
com lagostas e caranguejos doidos.
A charanga tá aquecendo, respeitável povo, o amendoim
tá assando e a lona do circo têm que continuar de pé.
Se faltar nariz ou chapéu pra todo mundo, resta a cara. Ou
a pinta.
Rumo ao picadeiro, povo brasileiro.
Nossos fãs ardorosos não podem se decepcionar. |
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