O Muro
 
 


Um belo dia tive que admitir que estava vivo e me descobri um rapaz fraco e indolente. Procurei então andar como os outros, tentando parecer igual á eles. Levei meus tristes olhos às festas animadas, cobertas de um brilho irreal, onde era difícil escolher entre ficar ou sumir. Minha mente ambicionava o trágico lado da inutilidade humana. Sofria por não ser um bom menino enaltecedor da violência gratuita. Consumia meus dias tentando me tornar um asno juvenil idolatrado por um exército de parasitas ninfomaníacos. Meu sonho maior era diluir meu cérebro e latir como eles, ignorando minha intuição. Como ser sensível num mar de arrogância? Minha ingenuidade original converteu-se em adversária. Cada bom sentimento brotado era agora um empecilho na missão sombria de viver. Acreditei que era preciso comportar-me como a maioria das almas. Evitaria traumas.
Os dias seguiam-se lentos, fosse frio ou fosse chuva, fosse sol ou nuvens fossem. A geada do inverno me apavorava. Tinha eu que me erguer e lutar. O clima se infiltrava no núcleo central dos meus sentimentos, já bastante confusos naquela pouca hora. Posteriormente, usava a neblina pra dissimular o desinteresse crônico dos meus olhos enquanto caminhava. Minha cama já me fazia grande falta. Era a sombra mais fresca do paraíso. Lá se podia sentir alguma paz. Lá eu me sentia seguro. Lá sentia-se saudades de se estar vivo. Fora, as lágrimas nasciam do nada, desagüando melancolia pura nos ângulos imaculados da minha existência. O mundo revelou-se muito feio e enfrentá-lo seria uma guerra injusta. Eu era um estúpido apreciador da beleza e meu poder bélico resumia-se aos surtos da minha mente à procurar coerência no diagnóstico diário do meu ânimo. Eu não passava de um garoto doido, perseguido por acreditar na falta de limites. Os seres humanos amam o limite. O desconhecido é docemente fatal pra algumas entidades vagantes. Melhor mesmo é engessar o mundo e impedí-lo de mudar. Pra isso pode-se contar com alguns religiosos, tiranos da alegria alheia, perpetuamente armados da repúdia á liberdade de expressão, prontos pra queimar na sua fogueira inquisitória os legítimos filhos do Senhor. Poucos atrevem-se a pregar o real afeto entre os homens. Muitas igrejas hoje em dia não passam de sedes de reuniões neonazistas, onde crápulas sujos espalham o ódio enquanto esvaziam o bolso dos trouxas que ouvem suas barbaridades. Quem ama de verdade jamais se sente estimulado a modificar os outros. Ama apenas pelo êxtase insignificante de amar. Pelo lugar privilegiado na viagem ultracósmica de olhar pra alguém explodindo de ternura. Também não é necessário andar enfiado num longo e brega vestido negro, nem mesmo desfilando ternos ordinários agarrado á uma bíblia indefesa pra sentir-se íntimo do Pai Celeste. Fé não é decreto. Ninguém até hoje ganhou o céu na marra. Como tudo nesta trajetória descabida, vai ser preciso merecê-lo.
Então fui eu embora da vila gelada e me percebi invisível à procura de uma tribo mais de acordo com meus segredos só desvendados pela minha esquisitice. Tão perdido quanto antes, meu inevitável mundo permanecia enfiado no inevitável mundo dos outros. Visão pessoal que corroía, olhar ferido que aos outros encantava e a mim causava profunda falta de ar. Doída fobia engasgada, incapaz de ser ouvida. Mudo das horas compridas onde humanos eram pura existência periférica, coadjuvantes de uma vida sem enredo mas capaz de paralisar um tigre caso revelasse sua face. Adaptado racional dos carmas mal impedidos e desconhecedor de suas origens. Sonhador maldito que não se cansa de desprezar o óbvio. Crédulo admirador do futuro, sempre mais encantador do que os cinco sentidos explicitados na visão cristalina do que chamam de realidade. Carrasco de mim, inimigo n.1 da minha glória. Questionador veemente da viagem diária á flor da pele. Auto mutilador da minha jovem carne, incompetente ser diante do que lhe foi proposto pelo Criador.
Decretado o inferno, tudo virou suicídio lento sob a édige da paz instantânea. Diante da nova ordem comecei a experimentar outras visões do mundo, disfarçando a idéia original. Mil e uma maneiras de enxergar a mesma coisa, até escolher a mais deturpada. Aquela cujo efeito diabólico remete ao alívio inconsistente, aquela que precisa ser nutrida sistematicamente pra não lhe deixar aleijado diante da derrota. Escravidão eis você diante de mim, abusando da sua sedução desmedida. Como você é linda, escravidão! Onde foi arranjar todo este charme? Como você se mexe com classe em cima deste salto, me enlouquecendo a carne, fazendo desejá-la mais do que o próprio ar. E como sabe parecer vulgar sem se tornar uma vadia. Você é agora minha única fonte de inspiração. Minha referência. De joelhos concedo ao seu olhar o direito de me esvaziar. Submisso, obedeço sua voz á me ordenar estranhas tarefas. Criado cego, desfilo minha euforia no meio deste quarto, pocilga abarrotada de corpos e pêlos, de pernas e braços, de cheiros e suores, de copos e xícaras, do sêmem mofado e das secreções sólidas. Açougue de carne humana, exposta á base da extorsão, garantia mórbida do prazer imoral e facilitador do mundo bizarro que já entedia até as paredes e choca seus frágeis ouvidos. Carnaval dos condomínios de família à expor sexos mal cheirosos aos cheirosos cidadãos, adoradores do morno sol de domingo, habitués das carnes vermelhas tostadas e devoradas pela voracidade dos que desconhecem o outro lado do rio.
Minha decadência quase atropelou o carrinho do neném feliz, sempre a balançar malditos chocalhos e provocar longos olhares de afeto. Sou desalmado e invejoso dos brinquedos alucinógenos provocadores de carinho, sou faminto de carmelitas descalças comprando sorvete, desejoso sim dos gritos matinais de garotos jogando futebol e um fiel suplicador de tenores negros louvando o Céu nas esquinas.
Estou com vontade de chorar. Todos os números da minha agenda são cúmplices. Quero um novo número hoje. Talvez queira uma nova agenda também. Talvez queira uma nova alma, um novo corpo, uma encarnação futura. Nem ouso querer o que realmente quero porque está por demais distante. Chego a fitar os possíveis participantes da minha vitória mas creio que jamais vou conhecê-los. Essa impotência convencida me concede o direito de matar-me. Minha cabeça lúcida atiça minha ambição, porém os dias modorrentos me impedem de sonhar. Tantos são os que querem ver tremular minha bandeira branca que acabo beijando de língua a boca aberta das ruas. Quando só o tremor dos ossos parece elevar-se, o céu se torna tão íntimo quanto a mais distante das estrelas. Chão gelado, cadeiras quebradas, sangue nos olhos, terra na boca, cuspe na cara, unha arrancada, pele franzida, dedo partido, braço deformado, cabelo raspado, carne mordida, sexo amputado.
Ontem saí caminhando. Andei dez bairros sempre no mesmo ritmo, fazendo o mesmo trajeto incompreensível. Mal consegui encarar os que me cruzavam e me recusava a olhá-los quando estavam nas portas das lojas ou na porta dos bares. Tudo era deles, não era meu. Me considerei menos essencial do que pedófilos, canibais e estupradores.
Resolvi desaparecer em meio ao turbilhão da vida e me isolei. Comprei um carro pequeno e coloquei lá tudo que me pertencia: um diskman, dois Cds da Billie Holiday, uma mala de mão com alguns trapos de grife, um livro do Camus e um óculos de sol. Passei então a seduzir a vida, desejando ser correspondido. Tratei muito bem de mim enquanto admirava as luzes cor de laranja do traçado genial da arquitetura Celeste. Dei crédito ao que antes me parecia desimportante. Me senti um homem mais honesto, mais leal, mais digno. Levei meu carro aos confins do país, enfiei-o na areia da praia e no asfalto fritei seus pneus à procura de visões otimistas da sociedade organizada. Coloquei seu combustível á disposição da minha fome de fascínios humanos e das atitudes nobres dos racionais seres. Meu carro era o sangue das minhas veias, bombando rumo ao inesperado universo das figuras exóticas que ousam subverter a miséria histórica da alma e impõem sua afetividade delirante muitas vêzes contrariando a seita fanática dos seguidores do ego materialista, justificador da barbárie coletiva. Finalmente atropelei meu radicalismo e me ofereci pra sentar no colo da salvação. Me considerei capaz de andar sozinho e resolvi ficar de pé.
E agora? Seria dominado pelos frios habitantes do mundo, sempre dispostos a me reduzir á pó. Como tirar os joelhos do chão de uma hora pra outra? Como enfrentar os lobos da floresta sem o puro leite condensado, injetado na veia pra repunar fantasmas e adoçar a minha pseudo-esquizofrenia noturna onde nada é tudo e coisa alguma faz sentido. Como me jogar de um precipício sem a certeza espiritual dos braços fortes do banquete indutor da alegria e sem estar certo de que vou gozar no ápice da orgia artificial produzida pelas mãos suspeitas da fábrica de felicidade em caixas?
Impossível saber. Só a parceria diária com a minha idéia pessoal de vida poderia sustentar minha esperança. Agora sei que derrubei o muro da inércia incompetente e já sou capaz de assassinar á bala meus mitos psicológicos paralisantes.
Vou continuar enquanto minha fé infantil não cansar da minha cara séria.
 
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