Aniversário
de 119 anos do jovem deputado Excrescêncio de Oliveira,
um típico representante do povo brasileiro. Ocasião
para caixas e mais caixas de champagne e centenas de canapés.
Temos, afinal, um parlamento elegante. Todos sabem.
Senadores e deputados destilavam, entre agudos e graves de uma
bela negra, o veneno puro. Interferência pra voz doída,
que rasgando-se sem pudores, fazia lembrar Billie Holiday entregando
pra Deus.
Uma situação milimetricamente climatizada, tipo
“outono,eterno outono”, favorecendo aquele ar de “Nunca
fomos nem seremos tão felizes”.Uma cumplicidade invejável.
Uma comunhão abençoada de espíritos.
Uma invocação da sublime energia vital de homens
e mulheres de bem, almas destinadas a se misturar com a divindade.
Um ritual hedonista.
Às raias do prazer puro convenciam-se das suas ótimas
intenções.
Chegavam à estupidez de expor detalhes de suas vidas particulares,
sempre fechadas à cadeados de ferro. Confiança cega
em nome da felicidade. Tocavam-se e acariciavam-se, buscando o
êxtase da alma. Pareciam estar prestes a atingir o cume
de alguma viagem espiritual contemplativa...
Ou então já era efeito sombrio do coquetel de champagne
misturado à toneladas de analgésico, poção
disputada à bala naquela altura do balacubacu.
Mas tudo era perdoado ou desprezado em nome do sucesso.
Tímidos e desinibidos confundiam seu repertório.
Inergúmenos repulsivos eram agora celebridades.
Evangélicos e católicos,então, já
oravam na mesma bíblia. Afinal, a noite precisava de um
grande show e seriam eles, os homens de Deus, os responsáveis
pelo espetáculo.
O show chamaria-se “JesusLoveGays”.
Segundo os religiosos, seria uma tentativa derradeira, desesperada
até, de salvar as almas perdidas que
optaram pelo sofrimento.
Argumentavam aos gritos, incisivamente, babando e com os olhos
arregalados que apenas uma simplória oração
não bastaria.
Era preciso de todas as maneiras evocar antes o mal para depois
aniquilá-lo.
E para demonstrar o desvio, submeteriam-se ao enorme sacrifício
de protagonizar um show histórico das “bonecas do
colarinho branco”.
Os criativos evangélicos escalariam Nora Ney arrasada,
implorando afeto, num modelo sado-masoquista roxo, enquanto Célia
Cruz e Björk Gudmundsdottir fariam um dueto nuas, até
se matarem de vez no meio de um estábulo cor de rosa cheio
de azeitonas pretas.
Os católicos jogariam baixo:
Britney Spears recitaria Augusto dos Anjos completamente verde,
tentando desesperadamente arrancar um espeto de carne cravado
no seu pé esquerdo, até morrer solenemente num exótico
caixão negro repleto de sanguessugas anoréxicas,
até ser bruscamente ressucitada pela energia devastadora
do par Xuxa Meneguel e Adriane Galistel, aliás, Galisteu,
que surgiriam apoteóticas conduzindo pessoalmente uma carruagem
encarnada, bem comportadas e totalmente cozidas dentro de um tailler
de tweed bege escuro, “cantando” uma versão
exclusiva em aramaico de
“My Funny Valentine” quando covardemente seriam atacadas
por um enxame de abelhas paraguaias previamente treinadas e enlouqueceriam
até desossarem à unhadas seus modelões, sendo
que restariam apenas as botas brancas cano free-way para entoarem
aos guinchos
“Like a prayer” ,
unidas a um coral de anãs carecas amordaçadas.
Pausa.
O show acabou, o aniversário prossegue.
...Taças e mais taças se tocavam(tintin) e gargalhadas
fluíam como água da fonte.
Ovacionavam-se. Entrega anual do Oscar, me atrevo a dizer.
Alguns ousavam cantar, enquanto o resto estimulava.
Tudo valia, afinal.
Românticos recitavam poemas.
Passos malucos de dança eram flagrados. Chamavam-se, às
gargalhadas, pelos seus apelidos de mau gosto. Quase uma histeria
coletiva instalada naquele ambiente de carpetes altos.
O aniversariante, já nenhum bebê, foi cuidadosamente
levado numa cadeira de rodas modernéééézima
(Ferrari perdia) ao centro do salão.
Aplausos rasgados.
Loucura total.
Taças eram espatifadas no chão.
Os mais exaltados tiravam seus paletós e os jogavam pro
alto. Como marginais doidos ao sereno das calçadas julgavam-se
livres. Como crianças bem fornidas correndo atrás
de uma bola, julgavam-se realizados.
Alguém então exigiu silêncio.
Deputado Excrescêncio vai fazer seu “pequenino”
discurso. Umas três horas, talvez. Brincadeira...
A farra deu, então, um tempo pra que se escutasse na íntegra
as “essenciais” palavras do aniversariante pelancudo.
Alguns sussurros são ouvidos em meio a torturante pausa,
adivinhando a primeira sílaba do blábláblá.
Pois quando ela (a sílaba) foi diabolicamente pronunciada,
um estrondo jamais ouvido na parte baixa das Américas lançou
em segundos o centenário parlamentar às profundezas
do teto, enterrando-o de vez nas alturas.
Pausa.
Diante da pasmaceira geral, antes mesmo do pânico clássico
ou do clássico pânico, a luz, sempre tão fiel,
simplesmente deixou de sê-la. Apagou, sem nenhuma explicação.
Um princípio de caos, então, instalou-se, até
que o líder daquela balbúrdia, eternamente bem ou
eternamente zen, foi obrigado a franzir sua testa estratosférica
e constatar triste que escolheu o pior de todos os dias pra largar
o Lexotan.
Naquela cegueira sem compaixão, o medo massacrava, subvertia
e aniquilava.
Não era tudo.
De repente um eco inoportuno começou a levitar aos poucos
de um poço infinito, fazendo cessar qualquer esperança.
Uma música aparentemente conhecida dos presentes começou
a ser ligeiramente ouvida e foi penetrando o impenetrável
sossego dos eternamente sossegados.
O Hino Nacional Brasileiro, sempre tão belo, foi inundando
seus decibéis nas águas mansas da impunidade. Causou,
com estranheza, um choque frontal no ambiente. Eram litros e litros
de puro desconforto.
Uma pororoca de água com champagne, pra ser mais preciso.
Alguns decidiram, então, escapar daquilo tudo de qualquer
maneira.
Entretanto as patrióticas portas rebelaram-se e fizeram-se
trancafiar.
Diante da mais absoluta escuridão e do cárcere privado,
foi iniciada a rebelião. Gritos e protestos.
Histeria coletiva.
Morte aos subversivos.
Oposição e situação unidas contra
os traidores da Pátria.
Chiliques bizarros já se faziam ver.
Vocês conhecem, claro, os pratos do Niemayer, símbolo
maior da tal instituição acostumada a usar a deformada
democracia brasileira pra justificar sua inutilidade e perpetuar
seus atos contra o povo que os elegeu.
Pois os tais pratarraços deram abrigo, naquele dia, ao
mais trágico acontecimento da estória do Parlamento
Brasileiro. Diante dos olhos incrédulos dos cavalheiros
de gravata e das distintas damas de saia, o impecável,
o inabalável, o intocável ar refrigerado do Congresso
Nacional Brasileiro simplesmente parou.
Pausa.
Belisquem-se.
Mordam-se.
Mutilem-se.
Constatem o drama.
Parece até que pelos canos e tubulações daquele
trambolho devorador de dinheiro público, o pulmão
furioso dos Céus finalmente resolveu soprar o carma daqueles
“vampiros da baixa umidade.”
Quando eles deram-se conta, então, do bafo quente destinado
às suas nucas depiladas, todas as vozes, antes gritadas
ou antes caladas, uniram-se por socorro.
Sem nada enxergar, tentavam em vão encontrar uma saída.
Alguns histéricos tentavam cortar suas gargantas com pedacinhos
de cristal. Inutil.
Debatiam-se com violência, enquanto os mais velhos iam sendo
esmagados pelos mais novos.
Homens e mulheres arrastavam-se pelo chão, como répteis
no cio.
Uma visão deprimente.
Mas eis que a tão desejada luz retornou.
Assim, do nada.
Um milagre, concluiram na hora.
Diante da tal revelação celestial o lugar transformou-se
imediatamente num templo de igreja barata, barulhenta e melodramática.
Aleluia, berravam.
Jogavam, pois, suas mãos enormes pros céus.
Tiraram seus terços e bíblias amassadas dos bolsos
e das bolsas e passaram a orar copiosamente.
Cantavam louvores.
Alguém achou um Cd pirata do Padre Marcelo no cestinho
do banheiro.
Serviu.
“E dá e glória a Deus os filhos do senhor...”
Infelizmente, faltou apenas o exorcismo coletivo. Mas neste caso,
o trabalho espiritual seria árduo demais e demoraria, no
mínimo, três séculos.
Mas voltava sim a esperança daquela gente.
Tudo estava de novo em seu lugar.
Era o fim derradeiro do derradeiro fim.
Não era.
Em meio a um calor tão suave quanto o calor do Norte do
Sudão, todos deram de cara com um bolo esquisitíssimo.
Bolo?
Sim, um imenso bolo. Um bolo gigantesco, colocado lá não
se sabe por quem, não se sabe quando.
A oportunista luz aproveitou-se da distração generalizada
e voltou a sumir. Desta vez de uma maneira ainda mais sombria.
O clima já lembrava o de um campo de concentração
com banheiros de luxo.
De repente a grande negra com sua voz dramática é
iluminada por um canhão de luz e completamente nua surge
crucificada numa das paredes. Assustados, os pobres, quero dizer,
os nobres assustados, quero dizer, os nobres deputados, passaram
a abraçar-se uns aos outros, tentando em vão protegerem-se
daquele quadro de horror.
O canhão de luz volta-se, então, para o bolo sinistro,
de onde começaram a ejetar-se aos magotes todos os cadáveres
produzidos pela violência e a miséria do país.
Jorrava defunto nos salões do Congresso.
Penetras debochados, chegaram sem nenhum convite oficial e nenhuma
recepção calorosa.
Porém, mais e mais, numa proporção impressionante,
eles marchavam carregando com dignidade os seus bafos e os seus
bolores.
O canhão de luz retorna à negra, enquanto eles,
os mortos, circulavam pelo salão cobertos de sangue coagulado.
Escuridão total.
Medo geral.
Trevas absolutas misturadas ao gostinho amargo e indigesto de
corpos decompostos esfregando-se em colarinhos engomados.
Pausa.
Com a luz toda pra si, a negra nua eleva sua voz e então
avisa, com a autoridade de ser o povo ali dentro, que existe um
país enorme abaixo do Equador totalmente em guerra e que
seu povo, especialmente o mais humilde está sendo dizimado
nas barbas das autoridades.
Acrescentou que o direito de ir e vir já não existia
mais que a sombra da morte ronda permanentemente os lares daquela
terra esquecida e abandonada.
Os três deputados que ouviram as palavras da moça
demoraram horas pra concluir que o tal país em guerra se
chamava Brasil. Os cadáveres anônimos, sedentos de
justiça, radicalizaram diante de tanto desprezo. Começaram
a roçar suas fuças ôcas nas fuças carnudas
dos ex-grandes homens. Com ódio mortal e feridos na sua
dignidade resolveram beijar à força as bocas mentoladas
dos arautos defensores da moral.
Enojados, eles passaram a forçar violentamente a porta,
enquanto o calor já beirava os 1000 malditos graus.
Suas excelências e os mortos-vivos (redundância?)
misturavam-se, numa cena explícita de promiscuidade.
Um show medonho e vulgar.
Um lixo.
Pausa.
Ninguém, mas ninguém mesmo percebeu, foi quando
o gigantesco teto recheado tinha acabado de desabar, matando todo
mundo.
Todos viraram pó. Numa bela suíte de frente pro
mar,em alguma paradisíaca cidade do litoral brasileiro,
acabava, na verdade, o terrível pesadelo noturno de um
paranóico senador da República, talvez sob o efeito
de algum benzodiazepínico alucinógeno.
Traumatizado pelos sons e imagens reais que subverteram seu sono
tranquilo, pôs-se rapidamente de pé. Rapidamente,
também, ele colocou o ar refrigerado no máximo e
serviu uma taça de champagne geladíssima, com todas
as luzes acesas.
Deve Ter temido, por alguns instantes, a justiça implacável
de Deus. A única força que poderia intimidá-lo
aqui no nosso(?) país(?), onde nossos(?) líderes(?)
fazem nossas(?) vidas(?) valerem bem menos que uma taça
de champagne.