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Ora, ora, meus olhos me traem ou Deus está na Terra me olhando?
- Me deixa, bicha. Sai pra lá. Vai procurar seu afeto noturno
em outro lugar.
- Nossa, mas como é estressado. E como é belo, também.
É difícil crer no eu vejo. Não é que
ainda existe ingenuidade neste mundo cão? Vai embora. Deixa
a escuridão e o mau cheiro da noite pras ratazanas aqui se
fartarem.
- Eu não tô procurando companhia, não. Eu tô
mal, sim. Eu preciso muito respirar. E sozinho, de preferência.
Depois eu pensei que ninguém passasse por aqui uma hora destas.
- Sei. Nossa, mas que jeans divino!!! Da onde é isso, bofe?
E como veste bem, uau! Posso pegar?
- Sai fora.
- Da onde ela é?
- É Rogan.
- É o quê?
- Este jeans se chama Rogan, veado. É o jeans mais desejado
do mundo. Só achei em Nova York.
- Metida...
- Que foi?
- Nessas circuntâncias o que é que me resta? Hein?
Diga. O quê? Pois eu lhe digo: Me resta sem dó lhe
revelar algo absolutamente estarrecedor. Por isso lhe peço
que mantenha a calma. É grave. Sim, nós e a humanidade
sabemos disso. Mas ainda assim controle-se. Pelo amor dos seus,
controle-se! Nossa estrada da vida é feita também
de enormes adversidades, o que é que se pode fazer? Equilíbrio
é a palavra neste momento. Não me venha com cenas
constrangedoras.Eu me recuso a imaginar de onde me surgem os meios
pra lhe relatar tamanha confidência. Respire fundo. Muita
calma, afinal, pois este lugar não é apropriado pra
destemperos. Chega mais perto que eu vou lhe contar. Não
falei que ia? Só que baixinho, pois eu não quero acordar
os peixes :
Que maldito bafo!
Que maldito bafo!
-Não grita, pôrra!! Mas que bafo é esse? É
o meu? Meu bafo? Só se foi a pizza de...
-Não seja mongo! Pára. Eu estou falando do bafo da
noite, seu estúpido. Bafo é o que define com clareza
a atmosfera quente das madrugadas de verão. É um bafo
denso, meio sólido. Um bafo tarado, pedófilo, sujo,
pervertido, sado-masoquista. Estimulante natural do obscuro lado
das almas
em desespero. Vai me dizer que nestas noites sem brisa viver não
fica bem mais excitante? Honestamente eu seria capaz de qualquer
desatino sob a influência deste bafo alucinógeno.
Nossa, mas como lá em baixo tá escuro! Dá licença,
por favor, eu preciso ver melhor... Sai, tranca, deixa eu ver! Mas
que coragem teria o veado que decidisse se jogar daqui de cima.
O infeliz nem ia enxergar o último leito da sua existência
barata. Como seria solitária esta morte.
- Todas as mortes são solitárias.
- Mas esta tal calça americana, essa tal de Rogan, deve Ter
custado os tubos, não?
- Sei lá. Acho que sim. Acho que foi uns 300 dólares.
- Mas não venha me ofender! Botando o pé na lama com
o jeans mais lindo do mundo? Como ousas ser assim tão fútil?
Olhe bem pra mim.
- Olhe o quê, pôrra?
- Olhe pra mim, divina flor.
- Divina flor? Mas era só o que me faltava.
- O que é que você vê? Diga, vamos.
- Sei lá. Como é que eu vou saber?
- Diz, pôrra.
- Mas que saco.
- Tô esperando, por favor.
- Talvez você não goste, sei lá.
- Eu vou amar!
- Tá bom. Eu vejo um homem bonito. Não se pode negar
que você é bonito. Porém é desprovido
de expressão. Você é bem jovem mas eu te daria
uns 200 anos. Você me parece uma pessoa triste demais e seus
olhos estão mortos. Você é a figura mais desprezível
que eu já vi. Falei.
- Eu tinha um diskman Importado, lindo. Eu sempre trazia ele comigo.
Sempre. Eu amava percorrer as madrugadas ouvindo um Cd da Maysa,
presente querido de uma velha amiga chamada Zô. Ela morreu,
a Zô. Morreu uma hora depois que a mãe dela, uma cadela
vadia, passou a mão no bofe da pobre e ainda carregou o tipinho
pra bem longe dela. Morreu engasgada com um pedaço de carne
bem no meio da cozinha que nem piso tinha mais. Foi sem que ninguém
pudesse fazer nada. Pobre Zô. O Cd arranhou. O diskman eu
troquei por um boquete. Final de noite, solidão que mata.
Agora só me resta sair triste à procura de luz. “Ouça
vá viver a sua vida com outro bem...”
- Tá bom. Tô realmente comovido. Mas agora dá
o fora, some da minha vista. Digamos que seus miniguinchos estão
me fazendo mal. Que voz desagradável! Eu também preciso
exorcizar meus demônios. Hoje eu destruí todo o meu
quarto. Tava me sentindo um cocô. Na minha casa nós
somos um exército de neuróticos. A maldade circula
pelos quatro cantos. Minha mãe é esquizofrênica
e meu pai é um facista ordinário viciado em açúcar.
Ele me chamou de merda enquanto eu aplaudia minha mãe fazendo
o seu número diário da Mary Wilson, a mais linda das
Supremes. Pra que o grupo ficasse completo ela acionou até
a pobre cozinheira, que acabou virando a Florence. A Diana Ross
é a gari da rua, contratada a peso de bijuteria e perfume
barato. Eu adoro aquele show. Ela fica tão alegre, parece
uma garota. E é tão bem feito. Deve ser porque não
é uma simples imitação. Ela realmente pensa
que é a Mary Wilson. Quando ela começou a dublar “Where
Did Our Love Go” o palhaço interrompeu. Falta de respeito.
Arrebentei tudo. Nada ficou inteiro. Merda é ele e suas caldas
repugnantes. Lixo fracassado. Escória desumana. Arrogante,
prepotente. Eles sabem gerar. Eles sabem parir. Depois não
sabem mais nada. Mas não desperdiça aqui o teu repertório,
não. Vai á luta. Afinal, daqui a pouco amanhece e
a sua noite, sempre tão batalhada, vai terminar em nada.
Você não ia suportar esta frustração.
- Eu não suportaria mesmo se por acaso eu tivesse que negar
o quanto você é sábio. É lindo, também.
Lindo e sábio, o que é raro. Afinal, já se
faz bem mais tarde do que deveria se fazer, meu caro. Mas ficar
por aqui agora me parece bem mais estimulante do que mil juras de
amor jogadas ao vento. Digamos que hoje eu fiquei ambiciosa. Muito
ambiciosa. A sua presença exuberante me inspirou. Que o diga
a indiferença eterna das sádicas estrelas e a ausência
que habita cada brecha da minha esperança. Que o digam meus
olhos, teimosos em acrescentar vida ao óbito noturno. Meu
contrato com a miséria humana tem uma cláusula que
me concede duas horas de beleza por ano. Resolvi usá-las
hoje, assistindo um belo filme de arte. Cansei da boca do lixo,
rapaz. Quem pode agüentar tanta decadência? Você
hoje será o meu jantar requintado. O meu banquete de final
de noite.
Que estacionem as limosines...
- Sinto desiludir alguém tão sentimental mas você
perdeu o seu tempo. Pode apostar até a sua coleção
de mini-saias nisso. A vida já foi pra mim bem mais feia
do que essa sua blusa encardida. Te convence: Eu sempre vou preferir
distância de vírus e bactérias.
- Como ousas, nadica de nada?? Uma bunda de cavalo falante, travestido
de top model maníaco-depressivo, circulando numa ponte brega,
no quinto dos infernos, às 5 da manhã, dando uma de
“marginal por um dia”? Há,há,há.
Estás querendo enganar a quem? Por acaso te achas mais limpa
do que eu porque cedes a tua cauda numa jacuzzi de hotel 5 estrelas,
tomando champagne com o pau dentro do ar condicionado? Você
deve gemer bem mais do que eu, cadela! Vai me enganar que não
tava aqui farejando vara, como todas as famintas do pedaço?
- Sinceramente quando eu olho pra você me vem uma vontade
insuportável de arrancar a sua pele e estendê-la por
aí, nos fios de luz, até o quinto dos infernos.
- Ah, tem? Mas será mesmo que ela vai? Faz-me gargalhar da
tua mediocridade. Onde foi parar de repente a tão frágil
criatura rejeitada? Está infeliz, ele, coberto de grifes?
Ó quanta desgraça, mundo cão! Você ficaria
contente mesmo se pudesse ver a decoração
ultraexclusiva do meu quartinho alugado. As baratas eu trouxe de
Londres, enquanto as pulgas são alemãs, de uma loja
divina em Duseldorf. Já o mofo eu preferi comprar em Roma.
Na primavera. Tal qual Vivian Leigh destruída por Warren
Beaty, adquiri o mofo mais lindo que meus cartões de crédito
puderam pagar. Ora, vê se pega já este seu sublime
rabo e vá fazer o povo feliz. Afinal, do que é que
você precisa? Qual é o seu sonho de terapia? Uma bugra
anoréxica de óculos, coberta de teorias chatas, ou
um crioulo enorme e suado bafejando na sua nuca? Francamente, eu
acho que eu o resto do mundo já sabemos a resposta.
- Inacreditável! Eu não consigo entender onde uma
lagartixa analfabeta foi arrebanhar tantas teorias sobre a psicologia
humana. Me parece até que Freud ficaria sem argumentos diante
de tanta sabedoria. Você não sabe nada de mim. Você
não sabe nada de ninguém. Vocês nunca se conformam
com a rejeição. Me tira desta. Você é
uma farsa. É pura imitação.
- Sabia que este rio não é um rio e sim um lago? Não?
Pois eu fiquei cinza quando soube. Como é que não
descobriram antes? E eu, ingênua que sou, saía por
aí, feito uma lôca, chamando o tal lago de rio, quando
o rio, na verdade, não passava de um lago. Ah,não,
mosquitos! Eu sabia, com toda esta umidade. Malditos! Você
tá vendo como eles estão doidos esta noite? Guardas,
prendam estes devoradores!! Pronto, agora decidiram sugar o seu
sangue. E você ainda fica parado? Que passividade! Fique bem
quietinho aí que eu já vou dar um jeito nisso. Aqui
na sua perna tem vários. Mas que perna é essa??? Nossa,
parece até concreto armado! Quer saber? Eu vou é me
perder nisto tudo. Vou mesmo. Eu não estou morta, estou?
Claro que não. Ó noite abençoada com todas
as graças divinas! Obrigado,
Senhor, pela enorme fartura! Venha cá, venha. Eu sei exatamente
o que te faz sorrir. Eu sei o que os homens desejam. Só eu
sei adivinhar os seus muitos segredos. Você procurou a pessoa
certa. Vamos pra lá que...
- Morte. Isso acaba em morte. Eu te mato sem mover um único
músculo, eu posso te garantir. Paradinho aí. Assim
mesmo. Agora te manda. Te afasta de mim. Volta pro fosso, assombração!
Mas eu fico é muito puto com estas merdas. Só pensa
nesta bosta? Vai te curar, lixo de gente. E nem pensa em passar
a mão. Isso dá velório.
- Você acha mesmo que eu ia me importar se um escroto que
nem você me matasse? Quem no mundo vai crer que uma figura
como eu queira permanecer por aqui? A solidão é a
última das alternativas de qualquer comparação.
Mil vêzes a expectativa do desconhecido do que a velha agonia
conhecida. Cada célula do meu corpo
padece de melancolia. Eu estou muito cansado, moço. Por que
você não acende uma vela pra mim? Ajoelhe, então,
e faça uma oração breve. Minha alma dói
e carece de luz. Faça como Jesus Cristo ensinou: “ame
o próximo como a ti”. Tenha compaixão. Minha
mente está confusa. O sol nasce até mesmo pros traidores.
Ele também faz crescer o banquete que alimenta os vermes.
O que você faz parado aí? Covardia é o teu nome.
Você é a merda mais
fedida desta babaquice toda. Vai ficar me olhando? Me arrebenta,
então. Por que não me enche de porrada, como todo
mundo faz? Que que é? Quer me comer, é isso? Ou quer
uma boa chupada? Tira a pôrra do pau pra fora, então.
Anda. Que olhar é esse? Te serve de mim, irmãozinho.
Se eu puder impedir tua dor, farte-se. Já não tenho
serventia alguma. Quer aliviar a tua merda? Quebra meus ossos, agora.
Faça isso, divirta-se um pouco. Não basta? Depois
você
pode jogar meus pedaços por aí. Arranca meus olhos,
quem sabe? Mija, caga e depois goza na minha cara. Ah, tá
triste? Quer afeto? É isso? Aproxime-se, do que é
que você tem medo? Do pecado de todos nós? Bobagem,
criança, não há ninguém aqui. Aqui só
tem eu e você. Olha lá. Não há nada lá.
Absolutamente nada. Só a maldita escuridão. Ó,lua
infiel, poderia dizer a este moço que eu já não
sei mais amar? Venha, chegue mais perto. Minha angustia está
me consumindo. Eu
preciso de um olhar terno. Meu espírito está voraz.
Não me deixe sucumbir como um porco. Não faça
com que eu me sinta uma cadela sem dono, perambulando pelas ruas.
Em nome de Deus, alivie o meu fardo imediatamente! Eu não
posso mais carregá-lo...
- Chama alguém, veado, pelo amor de Deus!! Isso é
sério. Eu não tô passando bem. Você é
doente. Olha aqui, eu não consigo mover as minhas pernas.
Tudo gira, minha cabeça tá latejando. Eu tô
sentindo frio. Muito frio. Eu devo estar com febre. Eu acho que
vou morrer, puto do cão! Eu tô sentindo dores nas juntas,
nos ossos. Taquicardia também. Que sensação
terrível. Eu não queria morrer não. Não
aqui. Não perto de você. Pára de me olhar assim.
Eu acho que vou vomitar...
- Vomita. É só vomitar que tudo isso passa. Na hora.
Como é tolo, francamente! Querido, você ainda não
está preparado pra este mundo feio.
Olha, já dá pra ver o rio! Ou será lago? Sei
lá. Já se pode enxergá-lo. Você sabia
que toda a frustração dos homens acaba literalmente
dentro de pessoas como eu? É, todos os seus detritos são
despejados no nosso leito odiado. Quando todas as chances de glória
são descartadas, é a minha carne que que eles caçam.
Não pra compartilhar seu sucesso, evidentemente. Muito menos
pra pedir nossas lindas mãos em casamento. Mas eu garanto
pra você que eles vão dividir cantando todo o vazio
que eles carregam. Quando eles olham pra mim eles vêem a face
cruel da vida. Nós somos a derrota deles. Nós somos
o seu fracasso. Melhorou?
- O quê?
- Tá melhor, você não tava passando mal?
- Tô. Tô melhor sim. Eu pirei. Enlouqueci mesmo. Você
me assusta. Não há mais lógica, não
há mais coerência alguma.
- Jamais ouve, querido. Jamais ouve.
- Talvez você não acredite, mas eu sei como é
isso tudo que você passa. Eu também me sinto usado.
Claro, não desse jeito, mas me sinto também. Meu problema
não é sexual, eu juro. Isto é problema dos
meus lençóis. Dane-se. No fundo eu não tenho
ambição alguma. Eu queria apenas caminhar no desconhecido.
Tudo no mundo é óbvio demais. Sexo, grana, drogas.
Eu sou óbvio e você também é. Eu só
queria amar. Amar irresponsavelmente. Amar até enlouquecer.
Amar até adoecer. Amar até morrer . Morrer de tanto
amar. Que que é? Tá me olhando assim por quê?
- Esquece. Passado, meu caro. Apenas o velho e bom passado. Bem,
chegou a cósmica claridade da manhã e eu estou me
mandando. Este tal de sol nasce sem avisar e simplesmente acaba
com meus caninos de vampira. Eu acabo virando pó desse jeito.
Sem falar que meu caixão tem ar condicionado. O quê?
Cinco estrelas. Bom, a gente se vê. Ou não se vê.
Tchau.
- Espera. Não me deixa aqui, não. Eu tô doente.
E muito só. Eu te pago um café da manhã. No
hotel que você escolher.
- Não, eu jamais me vendo por tão pouco. O quê?
Me ofereça algo mais convincente.
- Dorme lá em casa. O quarto de hóspedes têm
cama king.
- Adoraria. Se eu tivesse trazido meu babydol grená e as
pantufas dos teletubbies, naturalmente. Fica pra próxima.
- Por favor.
- Como é teimoso. Que coisa. Tá bom. Você tem
bicicleta?
- Meu carro tá logo ali.
- Bicicleta, eu falei. Você tem bicicleta?
- Em casa. Tem um monte lá.
- Meu pai vai fazer um churrasco
na sede da associação dos cobradores
de ônibus. É aniversário da minha
mãe, sabe? 50 anos. Faz seis mêses que eu não
vejo os dois.Topa ir até lá de
bicicleta? Fica na Zona Leste.
Não é assim tão longe.
- Mas é falta de educação chegar sem presente.
- Tem um shopping no caminho.
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