A maldição
 

Marlene era uma dessas mulheres que adentraram o terceiro milênio meio sem vontade. Tão moderninhos os anos 2000, tão fria e imprevisível a vida ficou. As drogas agora são todas sintéticas e nem mesmo música é mais música de verdade. Agora ela é electro, dizem. Não tinha nem internet, a demente. Uma alienígena cafona. Uma falsificação barata de mulher. Uma farsa. Um erro certeiro da natureza. Um embuste. Um desrespeito. Uma imoralidade.
Cansada de guerra, ela conseguiu, aos 45, uma promoção à custa de humilhações e de sapos engolidos, chegando ao ápice de ter que participar de uma peça erótica dirigida por sua chefe de seção, uma lésbica alcoólatra. O papel de Marlene acabou sendo o de uma vagina maníaco-depressiva prestes a ser deflorada por quinze colonos sem terra confinados numa carroça que no final despenca, levando tudo pro quinto dos infernos.
Marlene, dolorida, encerrou seu expediente enquanto negras nuvens engoliam o sol de inverno e caminhou sem vontade junto ao povo tímido, que sonhava encontrar suas camas, suas mulheres e seus homens. Homens? A mísera sequer tinha um. Ninguém, mas ninguém mesmo, se atreveria a esperá-la com uma sopa quentinha, torradinhas fininhas, queijinho branco e um sorriso no rosto. Sua única certeza é que teria que optar, lânguida, entre a tv aberta e os seus pensamentos autodestrutivos, capazes de exterminar toda a sorte de esperança que resta sobre a face da terra. Concluiu, pois, que um coquetel simples de raticida com água sanitária, acrescido de soda cáustica, seria melhor pro seu fígado. Resignada, deitou-se em sua cama estreita, cobriu-se com seu edredom mofado e desmilingui-se até o amanhecer. Durante o sono, a lúdica Marlene viu-se diante do Senhor e de joelhos suplicou-lhe: Meu Deus, eu não suporto mais meus semelhantes. São todos rigorosamente falsos, materialistas e fúteis. Eu os odeio. Mais do que tudo nesta vida eu gostaria que eles desaparesessem.
Nesse momento, então, Marlene sentiu um arrepio na terceira vértebra e sua última visão lógica dentro daquela viagem macabra foi o rosto meigo de Deus se transformar no mármore gelado de Beatriz Segall cegando seus olhos com uma expressão bélica. Beatriz, então, levanta sua sobrancelha direita, gira o pescoço e afasta-se lentamente com seu modelo Dior.
Marlene acordou, tomou café frio sem pão, saiu do prédio incapaz de perceber que as ruas estavam desertas e o ar úmido da manhã parecia mais denso do que de costume. Os carros estavam parados, assim como as lojas estavam fechadas. Caminhou bairros e bairros e nenhuma pessoa apareceu na sua frente. Lembrou-se, então da maldita súplica. Deus de fato existia, e além de existir, realizou seu desejo íntimo de viver sozinha no mundo. Depressiva ela ficou, então. Como alguém poderia viver só? Odiou-se por ter desejado tal sorte e quis matar-se. Foi para casa. Nervosa, queria pensar, queria entender. E sexo? Nunca mais faria?
O hidrante da calçada dá então uma sonora gargalhada.
Morreria, sim, era de fome, de solidão, de sujeira, de medo, de raiva, de dor...AHHHHH!!!!!!!!
Saiu bêbada de um vinho alemão esquecido atrás do fogão e foi-se impulsiva à todos lugares, aos mais ermos, às favelas, aos condomínios de luxo, aos shoppings. Tudo era apenas terra, asfalto, grama, concreto, matéria sem vida, morte sem dó. Jogou-se na sarjeta. Porém, podia ver as estrelas...É, Marlene, Oscar Wilde fica sempre muito bem numa tragédia. Porém o sereno é mais bonito na literatura. Dormiu dois dias e acordou com chuva rala e uma bela ressaca. Arrastou-se em direção á um beco sem saída quando imaginou ter ouvido uma canção aparentemente conhecida do seu repertório inconsciente. Bobagem, seus neurônios e o stress pós apocalíptico estava lhe deixando insana. Como seus bons ouvidos lhe fariam perceber, diante do horror, a diabólica voz que diante de todas as vozes do mundo lhe soaria a mais desafinada? Mundo cão das alucinações inoportunas. A dor atrai mais dor àqueles que não mais a suportam. Sua angústia aumentou quando aquela melodia partiu feito uma flecha em uma direção, mirada pelo vil inimigo que jamais lhe odiou tanto quanto naquele instante. Sorriu, chorou, gritou, suou, andou e parou. Parou e segurou-se no muro, enquanto o mal repetia sua crueldade, imitando uma performance sombria, encenada apenas para lhe fazer sofrer. De onde viria tudo aquilo? Seria real? Se os seres humanos desapareceram por que esta voz ainda resistia e como? Continuou questionando sem perceber que já andava em direção ao canto da sereia que lhe seduzia para o fim absoluto. Cansada Marlene de sapatos furados, mendiga delirante das noites mal dormidas. Breu das ruas, breu da alma que já não entendia o que buscava naquela voz que não parava de cantar. Numa bifurcação, Marlene, intuitiva, foi-se á esquerda em busca das respostas que lhe corroíam as unhas. Uma rua longa, com árvores gigantes, balançando ao vento, enquanto sua alma pedia que o que ela concluiria não fosse, assim, a crua verdade. Mas era. Marlene não estava sozinha no mundo. Na sua frente surgiu, entre as duas últimas árvores, consumido pela vida, seu ex-noivo, Anselmo Luís. Enlouquecida, passou a auto mutilar-se com um pegador de massa achado no lixo. Estranhou sua atitude agressiva e pôs-se a chorar. Perguntou, então, ao pobre, o que diabos ele fazia lá.
- Não sei, saí de casa para comprar pilha e as pessoas tinham sumido. Não sei como vim parar aqui, amore.
Marlene, num instante pessoal de desgraça, lembrou que ele tinha o péssimo gosto de chamá-la de amore. Quis vomitar, mas quis entender, também. Caminhou aos cantos da rua e refletiu. Por que logo aquela figura repulsiva e hedionda? O que significava aquilo tudo? Olhou fixamente pra ele e recebeu um asseno, acrescido de um sorriso estúpido. Verme, pensou. Verme, mil vêzes verme. Foi quando sua memória traiu sua paz e exibiu-lhe o inevitável. Antes de mandar Anselmo Luís pastar teria lhe dito que não deitaria com ele nem mesmo se ele fosse o último.(SILÊNCIO ABSOLUTO).
Ah, castigo de Deus debochado. Não merecia tal praga rogada. Porém resistiria, ela. Masturbaria-se até seu último suspiro. Nem que precisasse enterrar-se na lama negra e em nome de sua honra fazê-lo com os acessórios mais imorais. Usaria o que fosse necessário: guarda-chuva, antena parabólica, volante de ônibus, fios elétricos, paralelepípedos, espremedor de frutas, o sino da igreja, qualquer coisa. Agora, Anselmo, o inseto, jamais. Em nome de Deus. Morreria seca e pálida, mas seus princípios continuariam intactos.
Teve angústia, contorceu-se e arrastou-se até Anselmo, que sorridente lhe recebeu. Morta viva, sussurrou para o tipinho, ao som do vento:
- Que música você estava cantando antes de me ver?
- Música, que música, amore?
- Responde miserável...
- Bem, eu acho que era aquela, aquela que tocava lá no recreativo, lembra? Quando tinha mocotó com vinho. Tempo bom, em amore?
- A música. Por favor, o nome da maldita música.
- Deixa ver, bem...Anselmo então passou a cantarolar sozinho em voz baixa tentando adivinhar o que Marlene lhe indagava com fúria. Com um brilho nos olhos, repleto de paixão, numa grande explosão de alegria, ele finalmente concluiu: Cavalgada, amore.Aquela do Roberto...
Neste instante a sempre equilibrada Marlene subiu na penúltima árvore tal qual um Tarzan desatinado, arrancou o maior de todos os galhos com os próprios dentes e de quatro passou a perseguir Anselmo como um cão furioso disposta a esmagar seu crânio e transformá-lo num pirão nojento. Anselmo, em forma, escapou da já exaurida mulher, que desabou e dormiu, acordando com um sol forte, prenúncio de primavera. Faminta, devorou lixos e lixos e descansou embaixo de uma marquise, coçando as perebas que já lhe consumiam a carne. Dois mêses haviam se passado e ela já se entregava à exaustão, acrescida de uma melancolia crônica. Marlene, persistente Marlene, já não era mais a mesma. Já se anunciavam pra ela dias difíceis. A morte parecia seu caminho mais lógico, diante de tanta provação. Porém, pensar nesta possibilidade às vezes lhe dava alívio. Acreditem.
Noite quente, caminhava na longa avenida quando ouviu música e luzes. Parecia uma festa ou algo parecido. Intrigadíssima, foi atrás daquela visão, quase miragem no deserto pálido da sua existência. No caminho, vasculhou o lixo do poeta junk, seu fornecedor de sedativos. Tomou 50 com meia garrafa de álcool etílico transformando as luzes diante de si nas luzes divinas de Times Square. Súbita felicidade lhe percorria no corpo, enquanto já caminhava mais tranqüila, deleitando-se da face poética do mundo desabitado: sem egoísmo, sem perversidade, sem arrogância, sem preconceito. Mas com a velha e boa solidão. Nem tudo pode ser perfeito, concluiu.
Foi-se, então, atrás das luzes, desvendando aos poucos aquele mistério. Sabia que tudo poderia ser uma armadilha do seu inconsciente perturbado, lhe obrigando a optar entre a vida e a morte. Entre o apocalipse e o renascimento. Em passos lentos já não mais raciocinava. Apenas a sensibilidade se movia à flor de sua pele mal tratada. Mais perto, passou então a visualisar uma pista de dança vazia, estremecida pela música de 11 graus na escala Richter. No centro, um camêlo gigante cuspia fogo pelos olhos, enquanto uma intragável fumaça verde musgo sufocava o ar. Em cima do animal, mulheres ruivas mergulhavam suas tranças gigantescas num óleo denso, de cheiro insuportável. Depois eram todas içadas ao som de uivos histéricos. Quando este ritual terminou, um tornado violento demoliu tudo e fez aparecer, ao fundo, um pequeno bar. Daqueles onde figuras desprovidas de alma adoram encher suas caras. Um lugar sedutor, com um ar contraditório de poesia e miséria, de caos e de prazer, de vida e de morte.
Foi exatamente o que Marlene fez. Jogou-se numa daquelas mesas decadentes e pôs-se a beber como um cão medonho até que um blackout inesperado resumiu o mundo à uma minúscula luz de vela, vinda modestamente de uma porta estreita e carcumida. Marlene rumou pra lá, sem questionar nada, desta vez. Entrou. Á príncipio, ninguém. Marlene, então, viu uma cama de ferro, onde repousava um colchão mofado e rasgado. Atirou-se lá. Quis despir-se, estranhamente, e o fez com muita calma. Já deitada, fechou os olhos enquanto uma música suave inundou seus ouvidos delicados. Quase em êxtase, abriu os olhos e chocou-se: Diante dela, se livrando de sua camiseta branca e justa, coberto de músculos suados e de posse do seu olhar podre, estava nada mais, nada menos, do que Stanley Kowalski. Estimulada pelo arsenal químico que consumiu, entregou sem pudores àquele homem, conhecendo finalmente a glória absoluta da vida.
Acordou no outro dia, no meio da rua, diante de um sol escaldante, o asfalto queimando, carros buzinando, tentando passar.
O mundo finalmente voltou ao normal e ela, enfim, estava feliz. Pegou um taxi até sua casa e foi tomar banho, leve como uma folha de outono. Tirou sua jaqueta imunda, sua calcinha infecta e passou a lavar-se. Cantou qualquer coisa. Agora era finalmente uma mulher normal como todas as outras. Quando Marlene passou a mão na sua genitália, percebeu, então, algo estranho. Parecia um plástico vagabundo colado em seus pentelhos mais remotos. Sujeira, pensou. Tanto tempo na rua. Puxou e notou que havia algo dentro. Um pequeno papel. Rasgou rapidamente o saquinho minúsculo. Havia um bilhete. Abriu e foi obrigada a ler o que seriam as últimas palavras que leria na sua dolce vita:
“ Vou me perder na madrugada
pra te encontrar no meu abraço
depois de toda cavalgada
vou me deitar no seu cansaço...”
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