A Bolsa
Um convidado meu disse recentemente, ao despedir-se:
- Gosto de vir aqui. � um lugar onde posso dizer tudo o que quero, sabendo que n�o passar� adiante!
O elogio, na verdade, cabe muito mais a minha m�e do que a mim.
Um dia - eu tinha, ent�o, uns oito anos - estava a brincar ao lado de uma janela aberta, enquanto a Sra. Silva confiava a minha m�e qualquer coisa de s�rio a respeito de seu filho.
Quando a visitante saiu, percebendo que eu ouvira tudo, chamou-me e disse-me:
- Se a Sra. Silva tivesse deixado a sua bolsa aqui, hoje, ir�amos d�-la a outra pessoa?
- Claro que n�o! respondi prontamente.
E minha m�e prosseguiu:
- Pois a Sra. Silva deixou hoje, aqui, uma coisa muito mais preciosa, visto que nos contou uma hist�ria cuja divulga��o poder� prejudicar a minha gente. Essa  hist�ria n�o � nossa, de modo que n�o podemos transmit�-la a quem quer que seja. Continua a ser dela, ainda que a tenha deixado aqui. Assim, pois, n�o a daremos a ningu�m. Voc� compreende?
Compreendi muito bem. E tenho compreendido, desde ent�o, que uma confid�ncia, ou at� mesmo uma bisbilhotice que um amigo deixa de vez em quando em minha casa, s�o dele, n�o minhas, para as dar a quem quer que seja.
Quando por qualquer motivo, percebo que n�o estou agindo de acordo, imediatamente vem-me a lembran�a a bolsa da Sra. Silva e calo a boca em tempo.

Extra�do do livro "E, para o resto da vida..." de Wallace Leal V. Rodrigues.
A panela
A velha empregada da fam�lia era preta.
Chico, o neto dela - como � costume acontecer quando n�o temos irm�os -, era o meu companheiro constante de brincadeiras e folguedos.
Em tudo quanto faz�amos, a parte de Chico era sempre a mais pesada, secund�ria e passiva.
Ele tinha que dar, e, nunca receber.
Um dia corri para casa, � sa�da da escola porque Chico e eu t�nhamos projetado construir uma vla que fosse do po�o � lavanderia.
Sem darmos por isso, cada um de n�s assumiu logo o seu papel - como de costume.
Chico era o "condenado"a trabalhos for�ados, suando e repetindo esfor�os.
E eu o implac�vel guarda, com uma vara na m�o.
A maneira como eu estava maltratando aquele menino negro era quase digna de um adulto imbu�do de preconceitos de cor.
Foi quando a nossa preta velha chamou-nos:
- Crian�as, venham por a minha panela no fog�o!
Corremos para a cozinha. A panela estava no ch�o e n�s a agarramos com ambas as m�os. Mas com um grito a largamos, perplexos de que ela nos tivesse mandado pegar em uma coisa que - era evidente que sabia - estava extremamente quente.
Em seguida, em graves e brandas palavras, t�o n�tidas e simples que at� hoje as posso escutar, partindo do fundo do tempo, disse-nos assim:
- Ora! Voc�s dois se queimaram. Que coisa mais engra�ada! A cor da pele de voc�s � t�o diferente, mas a dor que est�o sentindo � igual para ambos, n�o � verdade?
Concordamos que sim.
E nunca mais pude esquecer desse epis�dio que, sem d�vida alguma, fez de mim uma pessoa diferente.

Extra�do do livro "E, para o resto da vida..." de Wallace Leal V. Rodrigues.
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