ESPIRITISMO

No Brasil, quase todo mundo tem um lado meio espírita. Afinal, quem, mesmo em segredo, não acalenta o sonho de conversar com seres queridos que já morreram? "As pessoas, em geral, vêm em busca de consolo na hora de enfrentar a morte ou as perdas e aos poucos descobrem um jeito novo de viver", analisa Irene Wenzel Gaviolle, da diretoria da União das Sociedades Espíritas, em São Paulo.

Uma das grandes vertentes religiosas brasileiras, o Espiritismo reúne, segundo dados da Federação Espírita do Brasil, 8 milhões de adeptos. Mas nem todo mundo sabe que essa combinação de religião, filosofia e ciência, nascida no século passado, pelas mãos de um pedagogo francês, de pseudônimo Allan Kardec, oferece muito mais do que consolo. A publicação do Livro dos Espíritos, por Kardec, em 18 de abril de 1857, foi apenas o início de uma fecunda produção intelectual que pretendia dar conta de várias questões humanas e acabou lançando as raízes de um movimento espiritual que atravessou o Atlântico, ajudou a moldar a alma brasileira e, hoje, é exportado do Brasil para outros países.
"O Espiritismo tem exercido enorme influência na cultura brasileira", contou para o Árvore da Vida, por e-mail, o antropólogo David J. Hess, que viveu no Brasil na década de 1980 e escreveu Spirits and Scientists: Ideology, Spiritism and Brazilian Culture. "Exerce um papel de mediador entre as religiões "populares", como o Candomblé e a Umbanda, e o universo médico e científico", conclui.

E tudo começou com um livro publicado no século passado, na França. O Livro dos Espíritos foi resultado de uma série de perguntas que Allan Kardec, cujo verdadeiro nome era Hippolyte Leon Denizard, dirigiu aos Espíritos durante dois anos, por meio de duas jovens médiuns. Apresentado sob a forma de perguntas e respostas, foi um sucesso e mais de vinte edições foram publicadas na época.

Para oferecer a você esse mergulho na doutrina espírita, Árvore da Vida escolheu o mesmo formato. Assim, você navega pelas perguntas que quiser, na ordem que preferir.

Allan Kardec é o pseudônimo de Hyppolyte Leon Denizard Rivail, um pedagogo francês, nascido em Lyon, na França, no ano de 1804, em uma família católica e tradicional, de advogados e juízes.

Se as coisas seguissem o rumo que seus pais imaginavam, o jovem Rivail seguiria o mesmo caminho. Sua inteligência estava muito acima da média e a família decidiu então mandá-lo para o Instituto Pestalozzi, cujos métodos revolucionários de ensino estavam atraindo as crianças das boas famílias européias. Lá, ele descobriu sua paixão: ensinar. Com 14 anos foi convidado para dar aulas e tornou-se um dos discípulos favoritos de Pestalozzi, um dos pais da moderna pedagogia. Já com o diploma de Ciências e Letras na mão, o rapaz mudou-se para Paris e iniciou sua carreira de educador. Publicou vários livros, cujo objetivo era sempre tornar atraentes para as crianças as matérias mais difíceis. Em 1848, quando a mediunidade das irmãs Fox assombrava os Estados Unidos, Rivail tinha construído uma sólida reputação como educador.

Anna Blackwell, que o conheceu pessoalmente e traduziu sua obra para o inglês, descreve Kardec como sendo "de estatura média, compleição forte, com uma cabeça grande, redonda, maciça, feições bem marcadas, olhos pardos, claros, mais parecido com um alemão do que com um francês". Além disso, segundo Anna, ele era "enérgico e perseverante, mas de temperamento calmo, cauteloso e não imaginoso até a frieza, incrédulo por natureza e por educação, grave, lento no falar, modesto nas maneiras, embora não lhe faltasse uma certa dignidade, calma por sinal, resultante da seriedade e da segurança mental que eram traços distintivos de seu caráter".

Hyppolyte Rivail morreu de um aneurisma, em 31 de março de 1869, com 65 anos. Em seu túmulo, no cemitério Père Lachaise, em Paris, está gravada a frase que talvez melhor resuma a filosofia que marcaria os anos finais de sua vida: "Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a Lei".

Allan Kardec inventou o espiritismo?

Sim e não. Os espíritos entraram na vida de Kardec por volta de 1850. Na época, os feitos mediúnicos de duas americanas, que ficaram conhecidas como As Irmãs Fox, faziam sucesso na Europa; e médiuns famosos, como Swedenborg e Andrew Jackson Davis, começavam a criar teorias para explicar os fenômenos que eles presenciavam em si mesmos. Na Europa, a grande moda, importada da América, era reunir pessoas elegantes para consultar as mesas girantes ou falantes, batizadas como ouija. Os participantes da brincadeira, sentados em volta da mesa, assistiam entre espantados e divertidos, desde tentativas mais ou menos desastrosas de formar palavras através de escrita mediúnica, até fenômenos como a própria mesa ser suspensa no ar e começar a girar por influência dos espíritos. Tanta excitação acabaria provocando a curiosidade de vários estudiosos, Kardec inclusive.

Durante dois anos, Allan Kardec investigou exaustivamente o assunto. Por causa dos dons mediúnicos das filhas de um amigo seu, soube que os Espíritos tinham vindo especialmente para dar-lhe as diretrizes de uma importante missão religiosa. Revelaram também que ele havia sido um antigo sacerdote celta e lhe inspiraram o pseudônimo pelo qual ficaria famoso. Foram também eles que inspiraram O Livro dos Espíritos, publicado em 1857 e que se revelou um retumbante sucesso. Mais de vinte edições foram publicadas logo em seguida. Em pouco tempo, Kardec tornou-se a maior autoridade em fenômenos mediúnicos.

Anna Blackwell revela que até o imperador Napoleão III vinha lhe pedir opinião sobre a doutrina. Ao Livro dos Espírito seguiram-se O Livro dos Médiuns, em 1861, O Evangelho Segundo o Espiritismo, em 1864, O Céu e o Inferno, em 1865 e Gênese em 1867, além de outros pequenos tratados. Fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e a Revue Spirite, publicação que existe até hoje.

Allan Kardec não era médium e não se via como criador ou inventor de uma nova religião. Referia-se a si mesmo como o codificador da Doutrina Espírita, nome que, este sim, foi criado por ele, para diferenciar seus ensinamentos das teorias espiritualistas da época.

A doutrina kardecista ficaria conhecida como a vertente francesa ou latina da filosofia espiritualista e só mais tarde tomaria um rumo absolutamente próprio. A mediunidade foi considerada herética pelo papa Pio IX e os cientistas também olharam com desconfiança as idéias filosóficas que Kardec extraía de fenômenos que deveriam ficar restritos à ciência experimental. No epicentro da polêmica estava o conceito de reencarnação.

1