Entendendo o candomblé
O Candomblé chegou às terras do Novo Mundo na alma dos negros arrancados de suas terras na África e trazidos como escravos nos famigerados navios-negreiros. No Brasil, a primeira leva chegou em 1538 e foi alimentada durante séculos. Aqui você navega por aspectos dessa religião antiqüíssima e única.
O candomblé é uma religião de origem africana. Há algumas vertentes dessa religião que, no Brasil, são chamadas de nações. Nações são sítios religiosos africanos, distintos entre si. Entre nós temos as seguintes: Ketu, nação que fala iorubá; Jeje, que fala ewe-fon; e Angola, nação que fala línguas bantus.
No Brasil, a nação mais abrangente é a Ketu, de cultura religiosa iorubá. É originária do oeste africano, mais precisamente da baía do Benin, de onde partiram em maior quantidade os escravos que aqui se fixaram, principalmente nas regiões que hoje são os estados da Bahia e Pernambuco. Em solo africano, o candomblé brasileiro da nação Ketu é conhecido como a tradicional religião iorubá.
A religião tradicional iorubá da cultura iorubá, tanto na África como no Brasil, é uma interação fácil de ser identificada em muitos aspectos. As vestes, os adornos, as músicas, os nomes atribuídos a cada pessoa dentro desse universo estão estreitamente ligados à religião. Hábitos nigerianos, como comer com as mãos, por exemplo, são utilizados naturalmente, mesmo pelos não-religiosos, nas cerimônias iorubás.
CELEBRAÇÃO DAS FORÇAS DA NATUREZA
Esse mundo iorubá nada mais é do que o mundo encantado dos orixás, divindades que, abaixo de Olodumaré, Deus supremo, nos protegem com suas energias provenientes da natureza. Entre os orixás podemos associar Xangô ao fogo e ao trovão; Oyá (Iansã), ao raio e ao vento; Oxum, à água doce dos rios; Oxumarê, ao arco-íris; Nanã é orixá associado à chuva; Ossain, às folhas; Oxóssi é o orixá da floresta, e assim com todos os demais.
A tradicional religião iorubá é um culto à natureza, é a celebração da ecologia, onde o natural se sobrepõe ao artificial porque é de origem divina. Os orixás que protegem os seres humanos, nessa visão religiosa, não são santos distantes dos nossos atos cotidianos. Ao contrário, eles se tornam presentes nas cerimônias religiosas e vêm dançar conosco celebrando a vida, encantando nossa existência com a alegria que sempre caracterizou o africano, numa festa de ritmo e cores. O religioso iorubá vive intensamente o presente em comunhão com os orixás, em paz com sua natureza humana. A meta a ser perseguida não é a perfeição, é a felicidade.
As lendas dos orixás, uma das riquezas da história oral dessa tradição religiosa, nos ensinam, em linguagem simbólica, que no mundo iorubá as pessoas são como os deuses -- simples e sábios na consciência de suas imperfeições. O destino, por exemplo, é um aspecto importante na cultura iorubá. É o que torna a vida das pessoas verdadeiramente palpitante. E cabe a Orunmilá, orixá da sabedoria, comunicar-se conosco, por meio das práticas divinatórias, fazendo interagir ainda mais homens e deuses na festa da vida.
Outra característica fundamental: a religião iorubá não acredita em carma. Ou seja, não se acredita que as pessoas passem por determinados problemas por estarem pagando algo que fizeram em vidas anteriores. Acredita-se que o destino é mutável, o que dá coerência aos rituais do candomblé. Quando fazemos, por exemplo, uma oferenda para modificar alguma situação, estamos, na verdade, interferindo no destino. Essa crença na mutabilidade do destino fica ainda mais evidente em casos de pessoas que são iniciadas no candomblé: é como se elas nascessem novamente, reescrevendo seus destinos pelos orixás.
ORIXÁS
Exu
Difícil definir bem esse orixá. Exu é o guardião
dos templos, das casas, das cidades e das pessoas. Exu também é
vaidoso e viril. Se tratado com consideração, reage mostrando-se
serviçal e prestativo. Esquecer de lhe fazer oferendas, por outro lado,
significa esperar dele um reação à altura. Por essa razão,
Exu talvez seja o mais humano dos Orixás, nem completamente mau, nem
completamente bom. É o intermediário entre os homens e os deuses.
Antes de qualquer outro, Exu é quem deve receber primeiro as oferendas.
Justamente para neutralizar mal-entendidos na relação dos seres
humanos com os deuses e, até mesmo, dos deuses entre si.
Seu instrumento de culto é o ogó (bastão ou cetro em forma de falo para mostrar virilidade e para que ele possa se transportar entre o mundo dos vivos e o mundo dos Orixás).
Os colares em sua reverência são de contas vermelhas e pretas.
Dia da semana, segunda-feira.
Ogum
Ogum foi o filho mais velho de Odudua, o fundador de Ifé. Era um temível
guerreiro que brigava sem cessar contra os reinos vizinhos e, entre suas gloriosas
vitórias, conquistou cidades como Ará, onde entronou o seu filho,
e Ire, usando aí, ele mesmo, o título de Onirê - senhor
da cidade de Irê.
Como orixá, é o deus do ferro e protetor de todos que trabalham com esse metal (ferreiros, agricultores, escultores, mecânicos etc.) e dos militares.
Seus fiéis usam colares de contas de vidro azul-marinho ou verde fosco.Seus instrumentos de culto são dois facões chamados ada.
Seu dia é a terça-feira.
Oxóssi
Orixá rei da nação Ketu, deus da caça e da fartura.
Seu habitat é a floresta. Teve várias esposas, mas a sua predileta
foi Oxum. A curiosidade e a observação são características
de Oxossi, orixá também da alegria, que gosta de agir à
noite, como os caçadores.
Seus instrumentos de culto são o ofá (arco e flecha), lanças, facas e demais objetos de caça.
Seus fiéis usam colares de contas azul-turquesa ou verde fosco.
As quintas-feiras são dedicadas a Oxóssi.
Logun Edé
Este jovem Orixá, filho do Orixá Erinlé e Oxum Iepondá,
nasceu na cidade de Ilexá (ilê-casa; xá-orixá).
Vive seis meses com a mãe, período em que adquire a personalidade
de Oxum, e seis meses com o pai, quando incorpora a característica
de um grande caçador.
Seus instrumentos de culto são o Ofá e o Abebé (leque de metal nobre em formato de folha).
Sua conta é azul turquesa e amarelo-ouro.
O dia de Logun Edé é a quinta-feira.
Obaluaê
Obaluaê, conhecido na África como "Rei Dono da Terra",
ou Omolu, "Filho do Senhor". São esses os nomes geralmente
dados ao deus da varíola e das doenças contagiosas. Além
do poder de curar tais doenças, perigosas até de serem pronunciadas,
é o orixá que cura as enfermidades ósseas. Melhor definindo,
é quem pune os malfeitores e insolentes.
Seu instrumento de culto é o xaxará (feito de talos de folhas de dendezeiro, palhas da costa e búzios).
As pessoas que lhe são consagradas usam dois tipos de colares: um feito de pequenos discos enfiados, chamado de lagdbá, e outro de contas de vidro brancas e pretas, e na cor terracota rajada de preto e branco.
Dia da semana, segunda-feira.
Ossain
Divindade das folhas, Ossain usa seus segredos para o preparo de poções
mágicas. Originário da cidade de Irawo, na Nigéria, é
um orixá que esconde a perna esquerda, lado secreto de sua força.
Sua importância no Candomblé é fundamental e nenhuma cerimônia
pode ser feita sem a sua presença.
Seu instrumento de culto é o opa Ossain (um cetro em forma de um haste de ferro que tem na extremidade superior um pássaro chamado oguê).
As pessoas dedicadas a Ossain usam colares de contas verdes e brancas.
O dia da semana consagrado a este orixá é quinta-feira.
Oxumaré
Divindade simbolizada pelo arco-íris e pela serpente que se liga ao
próprio rabo em contínua renovação, este orixá
é filho de Nanã e fiel amigo de Xangô. Grande Babalaô
(sacerdote de Ifá), Oxumaré representa o crescimento e a prosperidade,
a mobilidade e a atividade. Ser tridimensional, sofre a mutação
entre homem, serpente e arco-íris.
Seu instrumento de culto é uma lança envolvida por uma serpente.
Seus fiéis usam colares de vidro de contas verdes e amarelas ou amarelas e pretas.
Seu dia da semana é terça-feira.
Xangô
Xangô foi o terceiro Alafin de Oyó (Rei de Oyó). Filho
de Oranian e Torosi - a filha de Elempê, rei dos tapás - cresceu
no país de sua mãe, indo instalar-se, mais tarde, em Kossô.
Em seguida, com seu povo, dirigiu-se para Oyó, onde estabeleceu a cidade
que recebeu o nome de Kossô, conservando assim seu título de
Obá Kossô. Do ponto de vista divino, o orixá permanece
filho de Oranian e tem três divindades como esposa - Oyá, Oxum
e Obá. Xangô é viril, atrevido e justiceiro. De personalidade
muito forte, é o senhor dos raios, castiga os mentirosos, os ladrões
e os malfeitores.
O seu instrumento de culto é o oxê (machado de dupla face).
Na Bahia, como na África, seus fiéis usam colares de contas vermelhas e brancas ou marrons e brancas.
Quarta-feira é o dia de Xangô.
Iansã
Iansã (Oyá) é a divindade dos ventos, das tempestades
e do rio Niger, que em Iorubá chama-se "Odo Oyá".
Foi a primeira mulher de Xangô e tinha um temperamento ardente e impetuoso.
Antes de se tornar mulher de Xangô, Iansã (Oyá) viveu
com Ogum. Lamentando não ter filhos, consultou um Babalaô que
a aconselhou fazer oferendas, entre essas um tecido vermelho. Cumprida a obrigação,
tornou-se mãe de nove crianças, o que, em iorubá, se
exprime pela frase "Iyá omo mesan", origem de seu nome Iansã.
Seus instrumentos de culto são uma adaga, que simboliza a sua personalidade guerreira, e o iruexim (rabo de búfalo).
Os filhos de Iansã (Oyá)usam colares de contas de vidro na cor grená.
Seu dia da semana é quarta-feira
Obá
Terceira esposa de Xangô, esta divindade é originária
do rio Oba, na Nigéria. Corpulenta e destemida, a grande guerreira
dança empunhando, na mão direita, sua espada e um escudo, que
lhe serve para cobrir sua orelha esquerda, lembrando os fatos relatados em
uma famosa lenda, que faz referência à sua rivalidade com Oxum,
na disputa por Xangô.
Seus instrumentos de culto são o ada (espada), o escudo e o ofá (arco e flecha).
Os colares para Obá são de contas vermelhas e amarelas.
O dia da semana que lhe é dedicado é a quarta-feira.
Euá
Divindade do rio de mesmo nome localizado em terras iorubás, na Nigéria,
Euá é a deusa da beleza, amiga de Orunmilá, chefe conselheiro
do povo de Ifé e sempre consultado sobre os rumos a serem tomados nas
grandes decisões. Euá se esconde, eventualmente, em florestas
de iko (palha da costa).
Seus instrumentos de culto são uma cabaça e o ofá.
Suas contas são de cor vermelha.
Oxum
Oxum é a divindade do rio de mesmo nome, que corre na Nigéria.
Foi a segunda mulher de Xangô, tendo vivido antes com Ogum, Orunmilá
e Oxóssi. As mulheres que desejam ter filhos ou têm problemas
de gestação apelam para Oxum, pois ela controla a fertilidade
e é a protetora das crianças. É chamada de Iyalodê,
título conferido à pessoa que ocupa o lugar mais importante
entre todas as mulheres em uma cidade da região de origem de Oxum.
Além disso, Oxum é a rainha de todos os rios e exerce seu poder
sobre a água doce, sem a qual não haveria vida na Terra.
Seus instrumentos de culto são o abebé (leque de metal nobre com espelhos) e uma espada.
Para reverenciar esse orixá usa-se, entre outros símbolos e adereços, colares na cor amarelo-ouro.
O dia da semana dedicado a Oxum é o sábado.
Nanã
Nanã Buruku é uma orixá muito antiga e por isso muito
respeitada e reverenciada. É considerada uma das mais antigas divindades
das águas. Não das águas turbulentas de alto mar, como
Iemanjá, nem das águas calmas dos rios, reino de Oxum, mas das
águas paradas dos lagos e dos lamacentos pântanos, que lembram
as águas primordiais que Odudua encontrou no mundo, quando iniciou
a criação deste.
Seu instrumento de culto é o ibiri (cetro de palha da costa, talos de dendezeiro e búzios).
Os filhos de Nanã devem usar colares de cor branca com listras azuis.
Seu dia na semana é a terça-feira.
Iemanjá
O nome Iemanjá vem da tradução do iorubá "Mãe
cujos filhos são peixes". É o orixá dos Egbá,
nação estabelecida entre Ifé e Ibadan, onde existe o
rio que lhe deu o nome. Devido a conflitos entre nações, seus
assentamentos (objetos e símbolos sagrados) foram transportados para
o rio Ogum, que passou a ser a sua morada. Certa vez, Iemanjá, cansada
de sua permanência em Ifé, fugiu. Seu marido Odudua, rei de Ifé,
partiu em sua procura. Para se proteger do cerco dos soldados do rei, Iemanjá
quebrou, a conselho da mãe, Olokun, uma garrafa contendo um preparado
para ser usado em caso de perigo. Na mesma hora formou-se no local um rio
que a levou para Okun (o oceano), casa de Olokun. Iemanjá é
evocada e reverenciada por pescadores e por quem vive em contato com o mar.
Seus instrumentos de culto são o abebé e a espada.
Seus colares são de contas de vidro transparentes.
Dia da semana, domingo.
Oxalá
Divindade maior dos religiosos iorubás, abaixo de Olodumaré.
Oxalá tem o poder de conceder a vida por meio do emi (sopro da vida).
Veste-se e usa contas brancas, inclusive de marfim. O seu alá (pano
branco) cobre e protege não só os que lhe são consagrados,
mas todos os adeptos do Candomblé, ainda que dedicados a outro orixá.
Seu instrumento de culto é o opaxorô (o cetro que tem o poder).
As pessoas consagradas a Oxalá devem usar colares de contas brancas.
Seu dia da semana é a sexta-feira.
Ifá
No Candomblé, cultuar Ifá, também conhecido como Orunmilá,
é fundamental. Divindade da sabedoria para os religiosos iorubás,
nada se faz sem antes consultá-lo. Seu objeto principal é o
opon Ifá, tábua sagrada onde os odus (signos iorubás)
são marcados no pó ierosum (pó de uma árvore sagrada,
corroída naturalmente pelos cupins), constituindo-se numa espécie
de enciclopédia oral das tradições dos religiosos iorubás.
Os porta-vozes de Ifá são os babalaôs, "pais do segredo"
ou sacerdotes de Ifá.
Seu instrumento de culto é o opon Ifá.
O dia da semana que lhe é dedicado é
a sexta-feira.
por Márcia d'Oxum
Fonte: Árvore do Bem