BUDISMO

Assim como Cristo era judeu, Buda era um hindu. No século 6 aC, quando viveu, a vida religiosa da Índia apoiava-se na presença de um mestre, nos seus ensinamentos e na existência de uma comunidade, ou shangha, de discípulos. E, também para Sidarta Gautama, essas eram as Três Jóias do seu Caminho do Meio, nome que traduzia sua convicção de que a verdade não pode ser encontrada nem na negação da vida nem na aceitação total de todos os prazeres. A sabedoria está no meio.
Há algumas perguntas que a gente sempre quer fazer e nunca encontra tempo para pesquisar. Selecionamos algumas para poupar trabalho para você.

Buda era deus?

Buda Sakyamuni, o Buda histórico, viveu seus 80 anos sem nunca considerar-se um ser extraordinário ou sobre-humano. Depois de sua morte, o que se honrava era sua doutrina, o Dharma, e não a pessoa. Os grandes símbolos budistas passam essa idéia. É a doutrina que está simbolizada na roda (porque Buda colocou a roda do dharma em marcha), na árvore (Bodhigaia, onde ele obteve a iluminação), na pedra (onde se sentou e que está vazia porque Buda alcançou o nirvana ou a iluminação) e, finalmente, nas pegadas de seus pés, que sugerem um caminho e dão a idéia daquilo que afinal Buda é, até para nós, ocidentais: um modelo a ser seguido e imitado.

Mas, à medida que o tempo foi passando, mais e mais a figura de Buda tornou-se foco de atenção e atos de culto e devoção começaram a ser organizados. Para guardar as relíquias do corpo do mestre, por exemplo, foram sendo erguidas construções especiais, as stupas. E surgiram lendas inspiradas na figura de Sidarta Gautama, transformando-o, para muitos, em um ser que habita uma outra esfera, diferente da nossa, que tudo conhece e cuja benevolência, pode ajudar todas as criaturas.

O que é Dharma?

Na verdade, o nome do conjunto de ensinamentos de Buda é Dharma (ou Dhamma, em páli) e, não, budismo. Você também pode ouvir a expressão Roda do Dharma, que parece ter nascido de uma historinha: há muito tempo atrás existiam três reis, tão poderosos que o mundo inteiro era seu reino. Sua riqueza era fabulosa, mas o bem mais precioso que possuíam era uma roda, na qual viajavam pelo mundo. Onde quer que a roda preciosa fosse, eles governariam. Segundo o Venerável Geshe Kelsang Gyatso, no livro Introdução ao budismo, os ensinamentos de Buda são comparados a essa roda preciosa, porque onde quer que sejam postos em prática, ajudam as pessoas a controlar suas mentes e alcançar a iluminação.

Mas não é fácil traduzir a palavra dharma. Em geral, usa-se como sinônimo de doutrina, mas inclui: os métodos ou ensinamentos de Buda para alcançar a iluminação; a realidade que é percebida depois da iluminação e as descrições que Buda faz dos mundos mentais e físicos, que também são parte dos ensinamentos. A palavra também significa "proteção" e, em alguns textos, você vai encontrá-la no sentidode "todos os fenômenos do universo".

De modo geral, dharma sempre se refere à doutrina, isto é, à verdade sobre o nosso ser.

Qual é o livro sagrado do budismo?

Buda não deixou uma única palavra por escrito. Logo depois de sua morte, contam que seus quinhentos discípulos reuniram-se em uma caverna para recitar de memória as palavras do mestre. Ananda, seu sobrinho e discípulo, passou a relatar durante meses o que havia ouvido. Suas falas começam sempre com a frase "evam me sutam", que quer dizer ‘assim eu ouvi’, em páli. (Páli é uma língua morta, parecida com o sânscrito, que Buda e seus discípulos falavam.)

Os ensinamentos de Buda são chamados sutras ou discursos. Reunidos, formam a Tripitaka (Os três cestos), que tem esse nome porque reúne três tipos de textos:

Todos esses sutras, cuja primeira versão formou o Cânone Páli Theravada, caminharam com o budismo para longe da Índia e foram sendo acrescidos de comentários e traduzidos para outras línguas.
Cada país possui o Tripitaka em sua própria língua. Carlos Lessa, do Centro de Estudos Budistas do Rio de Janeiro, conta que os ensinamentos de Buda Sakyamuni, durante os 45 anos em que viveu após a iluminação, cobrem 84 mil métodos. Esse colosso de informações forma as escrituras reverenciadas pelos budistas e reunidas na Tripitaka. Se considerarmos os inúmeros comentários sobre esses ensinamentos que foram sendo reunidos ao longo dos séculos, vamos concluir, junto com Carlos Lessa, que é mesmo muito para ler em uma só vida!

O que aconteceu depois da morte de Buda?

Do século 5aC até o século 1, os monges se reuniram muitas vezes em concílios para decidir, afinal, qual iria ser a forma final dos ensinamentos de Buda. Isso, é claro, sempre provoca muitas disputas e, depois do segundo concílio, em 386aC, a sangha (comunidade) original se dividiu em várias tradições que viriam a formar essa teia de muitos caminhos, chegada até nós como Budismo.

Theravada e Mahayana

A tradição Theravada permanecia bastante fiel aos ensinamentos de Buda no século1. Mas, o budismo Mahayana, que significa "o caminho da salvação ao alcance de muitos" já começava a aparecer, propondo uma interpretação não-literal dos ensinamentos e um caminho mais prático e acessível para permitir que todos chegassem à iluminação. Na prática, o Theravada ficou conhecido pelo termo meio pejorativo de Hinayana, ou "pequeno veículo" em muitos países. Isso porque, na época, as escolas mais antigas, tinham um caráter monástico e seguiam uma disciplina espiritual mais rígida, muitas vezes inacessível às pessoas comuns.
A escola Theravada caminhou para a Birmânia, a Tailândia, Camboja, Laos e Paquistão. A tradição Mahayana, segundo o doutor Georges da Silva, autor do livro Budismo, a psicologia do conhecimento, se desenvolveu no norte da Índia, Tibete, Mongólia, na China, na Coréia e, mais tarde, no Japão.

Vajrayana

Os séculos 7 e 8 viram surgir uma nova escola, o budismo esotérico ou tântrico, também conhecido como Vajrayana, "o caminho do diamante". Nan Huai-Chin, no livro Breve História do budismo, diz que, na verdade, o budismo tântrico não é nada novo, mas retoma algumas formas antigas, dos primeiros concílios, e combina com alguns conceitos hindus. Essa escola era mais esotérica e devocional. Outros concílios vieram e, é claro, junto com eles, surgiram disputas. As escolas de pensamento dentro do budismo "são como manchas solares", diz Nan Huai Chin, elas não chegam a prejudicar a luz do sol, mas "no fundo fica um certo desapontamento, como quando sentimos que há uma falha em algo de outro modo perfeito".

O budismo é a religião da Índia?

Não.O budismo surgiu e floresceu na Índia, por volta do século 6aC, a partir dos ensinamentos de Gautama Buda. De lá se espalhou para o Sudeste Asiático, China, Coréia e Japão. Mas, a partir do século 13, começou a desaparecer de sua terra natal.
Ninguém sabe ao certo por que o budismo desapareceu da Ìndia. Alguns dizem que, sendo uma religião tão absolutamente tolerante, acabou sendo assimilada por um hinduísmo revitalizado. Outros atribuem esse declínio ao caráter monástico que o budismo acabou tomando na Índia. Os leigos ficaram meio à margem da vida dos mosteiros e, quando os muçulmanos invadiram a Índia e saquearam e destruíram os mosteiros no século 12, as comunidades não se interessaram em reconstruir o Caminho.
Praticamente extinto na Índia, o budismo percorreu muitos caminhos. E, em cada porto, receberia uma roupagem, como avaliou poeticamente a monja Sinceridade, abadessa do templo da Buddha´s Light no Brasil. Na China, seria Ch´an; no Japão, Zen. Apesar de tudo, o budismo nunca negaria seus princípios, ao contrário, eles seriam repensados, reformulados e a partir deles uma imensa literatura surgiria.

Por Adília Belotti
fonte: Árvore do Bem

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