O TOURO E O PLANO BRANCO
Na
província de Nagano, no Japão, existe um monte conhecido pelo nome de Nunobiki,
que significa pano estendido. Esse nome faz referência a uma faixa clara de
pedra encrustada no escuro rochedo lateral. Conforme a crença popular, essa
faixa, antes de se tornar parte do rochedo, era uma peça de pano branco que se
petrificou para que o povo da localidade jamais esquecesse da história que deu
origem ao nome do monte.
Nessa época a atual província de Nagano ainda se chamava Shimano no Kuni (País
de Shimano) e o monte nem tinha nome. A história tem início no tempo em que no
sopé da montanha vivia uma senhora trabalhadeira, porém, conhecida como a mulher
mais avarenta da região. Para ela, só o dinheiro tinha valor. Relegava a segundo
plano qualquer tipo de relacionamento que não lhe rendesse alguns dividendos.
Seu trabalho consistia em lavar roupas nas cristalinas águas do riacho que
nascia nas encostas do monte. Por causa da pureza da água, eram muitas as
encomendas que recebia de um palácio que ficava nas proximidades. Assim, a
lavadeira nunca parava de trabalhar, sempre pensando em aumentar, cada vez mais,
seu rico dinheirinho.
Perto da sua casa existia um renomado templo budista chamado Zenkoji, cuja fama
atraía peregrinos das mais longínquas províncias do Japão. Todos se dirigiam ao
templo para agradecer rezando pelas graças recebidas. Porém, a lavadeira que
morava quase ao lado jamais tinha entrado no templo, com medo que os monges lhe
pedissem contribuição financeira para ajudar na manutenção daquele local
sagrado.
Além disso, ela tinha certeza que freqüentar o templo era uma grande perda de
tempo, pois deixaria de lavar algumas peças de roupas e conseqüentemente
diminuiria seu ganho.
Na primavera, quando as flores silvestres cobriam o monte, era realizada uma
grande festa em louvor a natureza no templo Zenkoji. Todas as pessoas da aldeia
para lá se deslocavam para reverenciar a chegada da mais bela estação do ano.
Dirigindo-se para o templo, os aldeões passavam na frente da casa da lavadeira e
a convidavam para juntos rezarem. Porém, ela recusava argumentando que não podia
perder aquele belo dia de sol, pois as roupas secariam com maior rapidez e seu
serviço renderia muito mais.
“Tempo é dinheiro não posso desperdiça-lo rezando”, dizia a lavadeira ao mesmo
tempo em que estendia panos brancos no varal. Enquanto ela continuava
trabalhando, passou por lá um touro e uma das peças enroscou no seu enorme
chifre. Apavorada, a mulher gritou exigindo a devolução do pano. O berro foi tão
estridente que assustou o animal que saiu em disparada. Atrás dele, metros e
metros de pano sendo arrastado.
Na tentativa de recuperar a comprida peça de tecido, a lavadeira correu como
nunca. Porém, o touro era mais rápido e ganhou a estrada rapidamente. A mulher
que vinha correndo num tremendo esforço viu que o touro, logo depois, adentrou
no terreno do templo e foi direto para dentro da casa de orações. A lavadeira
chegou ofegante, pois havia feito enorme esforço no encalço do touro. Ao notar
que o touro havia desaparecido perto do altar, caiu sentada de tanta exaustão.
Sua respiração ficou difícil e o coração em inacreditável ritmo acelerado.
A lavadeira queria falar, mas a voz não saia. Ela percebeu então que estava
morrendo. Antes de dar o último suspiro teve a lucidez de perceber que aquela
situação não era apenas por correr atrás do touro. Seu corpo acumulava cansaço
de vários anos de trabalho ininterrupto na ânsia de juntar dinheiro. Pensou
consigo mesma de que adiantou guardar uma fortuna, se naquele momento de morte
seu rico dinheirinho perdeu todo significado.
Conformada com a triste realidade, resolveu entregar a sua alma as mãos de Deus.
Respirou fundo e fechou os olhos em santa serenidade. Pela primeira vez deu
conta que estava dentro do templo. Começou a ouvir vozes entoando um mantra.
Percebeu então que o som das vozes se assemelhava ao barulho das águas
cristalinas do riacho onde ela lavava as roupas. Sem querer estava dando ouvido
as vozes de outras pessoas. O som do mantra entrou pelos seus ouvidos e como um
riacho percorreu dentro dela, lavando sua mente e chegando ao coração.
Ela então tomou consciência de que era hora de deixar um pouco as roupas de lado
e lavar a sua ganância, o egoísmo e a mesquinhez. Ao invés de esfregar os panos
como sempre fazia, esfregou uma mão na outra rezando agradecida aos céus, pela
percepção recebida. Aos poucos sua respiração foi melhorando e finalmente
sentiu-se bem como nunca. Mais tarde, ouvindo os ensinamentos do monge de
Zenkoji, entendeu que o touro foi uma visão divina, como acontece com os “10
quadros do pastoreio”, cujas ilustrações servem para ajudar os iniciados no
caminho da iluminação.
Depois desse dia ela tornou-se uma pessoa gentil e generosa. Com o trabalho que
fazia ajudando a comunidade, ela passou a ser chamada de santa pelo povo da
aldeia.