O MONGE DORMINHOCO E O MACACO RONCADOR - PARTE I:
Havia
um velho templo nas encostas da montanha, pouco freqüentado e por isso quase em
ruínas. Nele viviam tranqüilamente um idoso monge Zen e um macaco preguiçoso
igualmente velho. Como a presença de fiéis era coisa rara, o monge e o macaco
dormiam praticamente o dia inteiro. A única coisa que perturbava a tranqüilidade
daquele local sagrado era o ronco da barriga do macaco. Por roncar tão alto, o
monge deu ao macaco o nome de Torá, que em japonês significa Tigre.
Numa bela tarde primaveril o monge foi surpreendido e despertado com o macaco
falando como gente:
-
Monge acorde, a filha do milionário da aldeia morreu e cometeram uma grande
injustiça com o nosso templo.
- O que? Estão culpando o templo pela mortte da pobre mocinha rica?
- Não é nada disso. A injustiça está no faato de que chamaram o Monge de Alta
Classe da capital para encomendar a alma da moça.
- Ora Tora-san, se o pai da defunta é um mmilionário não é de se estranhar que
chame um monge de sua classe social. Não vejo motivo porque iria me chamar, se
sou um pobre monge de um templo pobre.
- Aí é que está a questão, Velho Monge. Esssa era a grande oportunidade para
mudarmos essa situação de penúria. O milionário poderá nos ajudar, reformando o
templo e abastecendo fartamente nossa dispensa, que aliás há muito tempo está
vazia.
- Meu bom Tora-san, para que mudar se semppre vivemos assim. Nossa vida tem sido
boa e tranqüila, dormimos quase o dia inteiro ao som das cigarras e pássaros.
Vamos continuar desfrutando dessa calmaria Zen que a natureza nos oferece.
O macaco explicou ao bom monge que já não agüentava ouvir a própria barriga
roncando de fome. Como já estava velho gostaria de ter pelo menos um moti
(bolinho da sorte, feito de arroz glutinoso) assado para comer diariamente, pois
tinha pouco tempo de vida e temia morrer de barriga vazia.
- Realmente já estamos velhos e você semprre foi um fiel companheiro. Disse o
monge.
- Então, em nome da nossa velha amizade deeixe-me tentar um truque para melhorar
a situação deste templo. Se depender do senhor, vamos ficar dormindo até morrer.
Dormir é bom, mas com a barriga cheia.
- E o que posso fazer pelo meu bom amigo?
- Durante o enterro vou fazer o omikoshi ((santuário onde transportavam pessoas
falecidas) flutuar. Creio que vão chamá-lo para trazer o omikoshi de volta para
o chão. Peço que ao invés de rezar como faz normalmente, fique repetindo a
frase: “Namu Saru-Tora yaya, moti suki yaya, yakimoti yaya, kanemoti yaya, mote
kuru yaya.
O monge achou a idéia completamente maluca, mas resolver participar da
brincadeira em atenção ao velho companheiro que provavelmente pela idade, estava
começando a caducar. Tão caduco estava que já falava como gente, ao invés de
permanecer na privilegiada condição de macaco.
O FÉRETRO
Ricas coroas de flores enfeitavam o caminho entre a casa do milionário e o
cemitério. O féretro saiu do palacete tendo a frente o Monge de Alta Classe, que
trajava um pomposo hábito de seda importada da China. Atrás vinha o omikoshi em
formato de pagode carregado pelos serviçais e seguido pelo choroso pai
milionário.
No meio do trajeto o macaco usando um chapéu em forma de cone começou a dançar
na frente do féretro. Os discípulos do Monge de Alta Classe, que tocavam um
suzuri, tamborete para dar ritmo à procissão, não contendo o riso caíram na
gargalhada. Feito infeliz, apesar do bom humor. Saíram completamente do ritmo e
destrambelharam a seriedade dos passos pausados do nobre enterro.
A
procissão mais parecia a dança awaodori. Os participantes iam de uma margem a
outra da estrada, serpenteando ao compasso bem humorado do tamborim. O Monge de
Alta Classe, com sua compostura impecável ralhou os acompanhantes:
- Olha o respeito! Parem com isso ou sereii obrigado a invocar o castigo divino.
Dito e feito. O omikoshi desprendeu-se das mãos dos serviçais e começou a subir
flutuando. Um zelador teimoso chegou a subir dependurado por alguns metros do
solo, mas acabou despencando em cima do Monge de Alta Classe.
Estabeleceu-se a maior confusão. Ninguém acreditava no que os olhos viam. Já
haviam ouvido falar em cobra com oito cabeças, dragões que voam em dias de
chuvas, visita de carruagens celeste e histórias de seres sobrenaturais. Porém,
omikoshi de defunto flutuante não havia registro em nenhum momento da história
japonesa.