MOMOTARÔ - PARTE II:
Depois de surgir
de um pêssego, Momotarô cresceu e se tornou um robusto menino, cuja força não
encontrava páreo na vizinhança. Naquela época, contavam que surgiu numa das
ilhas do Mar de Seto seres demoníacos que os japoneses chamavam de Oni. Esses
indivíduos saqueavam e raptavam as donzelas, causando temor e sofrimento ao povo
da região.
Sensibilizado com o sofrimento dos velhinhos, ele se prontificou para ir
enfrentá-los. A velhinha preparou uma porção de bolinhos de milhete (kibidango)
para ele levar de lanche na épica viagem. Logo depois, Momotarô partiu para sua
aventura.
Logo na saída da aldeia, Momotarô encontrou um cachorro que cheirando a bolsa,
latiu cantando mais ou menos assim:
Momotarô-san, Momotarô-san,
okoshi ni tsuketa kibidangô,
watashi-ni shitotsu kurenai ka?
É
incrível porque no Japão, até os cachorros cantam em japonês ! Trocando em
miúdos, o cão pediu, cantando, um bolinho de milhete e Momotarô atendeu-o na
condição de que o cachorro o acompanhasse na captura dos demônios. Essa condição
era imposta porque Momotarô considerava os kibidango que sua mãe fazia, modéstia
à parte, os melhores do Japão. Aliás, na história toda, ele faz um comercial
danado dos kibidango da sua mãe, respondendo, cantando, a cada bicho que
encontrava pelo caminho. Assim, os dois seguiram a jornada e depararam mais na
frente com um faisão, que fez o mesmo pedido do cachorro. Momotarô concordou
prontamente, exigindo que a ave se juntasse a eles na jornada. Os três
encontraram depois com um macaco, que também concordou em ajudar Momotaro em
troca de um bolinho. Estava formado o Grupo Caça Demônios comandado pelo garoto
que nasceu do pêssego.
De barco chegaram à ilha e deram de cara com um grande portão rodeado por uma
enorme muralha de pedras. Momotarô bateu com o cabo de sua espada, exigindo que
os oni que estavam de sentinela, abrissem imediatamente o portão. Os sentinelas
ficaram surpresos, pois até então ninguém se atrevera a desembarcar naquela
malfadada ilha. Os oni começaram a imaginar que deveria ser alguém muito forte
para tal ousadia. Nisso o faisão sobrevoou a muralha e num vôo rasante atacou os
guardas, que fugiram apavorados para dentro do forte. O macaco por sua vez
escalou o muro, pulou para dentro e abriu o portão, permitindo a entrada de
Momotarô e do cachorro.
No
centro do forte, Momotarô encontrou os oni em meio a uma barulhenta festança,
bêbados feito gambá.
- Ouçam, disse o valente jovem. Eu sou Mommotaro, o que come kibidangô e vim para
puní-los pelos tormentos que vocês tem infringido aos meus compatriotas!
A frase era uma senha de ataque, do tipo “torá, torá, torá !”, assim o cão, o
macaco e o faisão lançaram-se num ataque quase suicida (kamiquase), sobre os
mostrengos embriagados. Momotarô e seus amigos possuíam agora, cada um, a força
de mil homens, pois haviam comido “os melhores bolinhos de milhete do Japão”, o
famoso Nippon iti no kibidangô. Conforme os japoneses, mais eficiente que o
espinafre do Popeye.
O faisão bicava cabeças e os olhos dos demônios, enquanto o macaco lhes
arranhava as costas e mordia as orelhas tal qual Mike Tyson. O cachorro, por sua
vez, dava generosas e insaciáveis dentadas nas pernas e nádegas dos oni.
Confusos os demônios etilicamente cambaliantes, corriam de um lado para outro e
o palco de guerra virou literalmente um pandemônio. Momotarô enfrentava
bravamente com sua espada, os bastões e machados, as armas preferidas dos onis
(não confundir com ovnis). Depois travou uma luta corporal com o chefe deles,
após cortar com sua lâmina o cabo do machado, graças à sua força kibidangoniana,
imobilizou o adversário com a cara no chão. Vendo o chefe derrotado, todos os
onis se renderam.
O chefe ajoelhou-se à frente de Momotaro e chorando pediu clemência: Oh! Grande
comedor de kibidangô, imploro que poupe minha vida ! Nunca mais voltaremos a
molestar os seres nipônicos! E mais, todo tesouro que tenho aqui reunido é seu.
Toma e leva !
Diante dessa proposta irrecusável, Momotaro balançou a cabeça concordando e
poupou a vida dos demônios. O chefe ordenou então, que seus guerreiros
retirassem do depósito todas as relíquias que tinha roubado dos japoneses e
entregassem ao menino herói. A seguir Momotarô lotou uma carroça de relíquias e
triunfante pôs-se a caminho de casa. Foi uma cena tão pomposa quanto os melhores
The End das grandes produções hollywoodianas. Ganharam o caminho de volta, com o
cachorro e o faisão puxando e o macaco empurrando o rico veículo, enquanto
Momotarô, abanando um leque, gritava em grande performance: washoi, washoi,
washoi!
Contam até hoje, que depois deste memorável dia, os onis nunca mais incomodaram
o povo da região de Seto Naikai (Mar Interior de Seto).
Comentário:
Momotarô
está entre as cinco lendas mais populares do Japão juntamente com Urashima Tarô,
Issun Boshi, Kaguya Hime e Hanassaka Jiji. Histórias que surgiram no período
Heian (794-1192) e que refletem nas entrelinhas o aspecto político e social da
época.
Em Momotarô, é visível o incentivo ao patriotismo nipônico nascente do período
Heian, quando iniciou a japonização de todos os elementos culturais que até
então, vinha sendo copiado da China, Esse período também é conhecido como “Era
Palaciana”, onde o luxo estava na ordem do dia na corte. Na época, o arroz tomou
peso de ouro e ao povo foi incentivado o consumo do milhete (kibi). Portanto, ao
que tudo indica, Momotarô já nasceu garoto propaganda no início deste milênio
que se finda.
Quanto aos seres lendários chamados de oni, que aparecem inúmeras vezes em
histórias japonesas, e até em relatos reais da época, e muitas vezes traduzidos
erroneamente como diabos, certamente eram náufragos vikings, que estiveram em
todas as partes do mundo, e também no Japão. Como os japoneses nunca tinham
visto homens brancos, confundiram com seres demoníacos e foram sumariamente
exterminados pelas espadas dos samurais. A data de aparição dos oni, nos relatos
japoneses coincide com a presença devastadora dos normandos nas costas da Europa
Ocidental (800 a 1100). Os vikings estiveram na América do Norte muito antes de
Colombo, navegaram no Mar Cáspio, Mar Negro, Oceano Ártico e Atlântico,
possivelmente também no Pacífico.
Os chifres atribuídos às cabeças louras dos oni, certamente eram os famosos
capacetes dos guerreiros vikings. Os samurais que os enfrentaram sabiam disso,
mas deixaram a imaginação do povo rolar, afinal, isso engrandecia mais ainda os
feitos da classe guerreira japonesa. Tanto que tempos depois, no período
Kamakura (1192 a 1133), os samurais das regiões onde diziam ter existido oni,
começaram a guerrear usando capacete (kabuto) com chifres de bois.
A cor vermelha atribuída à esses seres, certamente fazia referência a pele
branca queimada de sol durante a travessia dos oceanos pelos vikings. as
coincidências não param por aí. São tantas as evidências, que vamos comentando a
medida que os oni forem surgindo neste Zashi do Jornal Nipo-Brasil.