MOMOTARÔ - PARTE I:
Há
muitos, muitos, muitos e muitos anos antes das pessoas pensarem em inseminação
artificial, bebê de proveta e clonagem de ovelha, no Japão, um casal de
velhinhos ao tentar fatiar um enorme pêssego para saborear até o caroço,
surpreendido constatou que no lugar da semente, havia uma criança humana de sexo
masculino, forte e sadia. Embora o objetivo inicial desse fenômeno não fosse
exatamente o que se prega agora, atualmente os clones desse lendário garotinho
são usados na tevê japonesa, em comerciais de iogurtes, fortificantes e
vitaminas.
Tudo
começou quando o velhinho foi à floresta cortar lenhas e a velhinha lavar roupas
no riacho. De repente um som estranho que fazia “donburakô, donburakô, donburakô”
chamou a atenção da anciã. Ao levantar a cabeça, ela viu um
objeto-estranho-não-identificado flutuando correnteza a baixo. Como a tal coisa
estava longe da margem, a velhinha começou a cantarolar uma canção-simpatia
usada no Japão para atrair vaga-lumes: Ati no mizu wa karai yô / koti no mizu wa
amai yô... (A água de lá é salgada, a água de cá é doce...). Logo ela percebeu
que se tratava de um enorme pêssego.
Para provar que fruta também gosta de música, o pessegão veio rolando, rolando,
rolando em direção da velhinha - donburakô, donburakô, donburakô (isso é uma
onomatopéia nipônica, não confundir com Don Buraco, essa é uma outra história).
A anciã mais que depressa o apanhou o pêssego. Como era muito grande precisou
carregá-lo com enorme esforço para casa.
Tão
logo o velhinho retornou da floresta, os dois resolveram saborear a enorme
fruta. O achado iria garantir o rango (goran de trás pra frente) de uma semana.
Quando o velhinho pegou a faca para cortar o pêssego, a fruta dividiu-se em duas
partes e, de dentro dela um garotão pelado, abriu os braços para a fama da
carreira lendária que estava para começar. Era um lindo e saudável menino, tipo
bebê Jonhson de olhos puxadinhos.
A velhinha e o velhinho ficaram pasmos com aquela angelical presença e
sentiram-se extremamente felizes, pois não tinham filhos, e consideraram o
baixinho uma dádiva dos kami (deuses).
O menino recebeu o nome de Momotarô, porque Momo significa pêssego e Taro é um
nome popular entre meninos japoneses. A criança foi tratada com muito carinho
pelos bons velhinhos e crescia à olhos vistos. Cada tigela de kibi (milhete -
uma espécie de milho de grão miúdo) que comia, tornava maior na mesma proporção.
Sendo um comilão assumido e como tudo que comia era revertido em crescimento,
logo tornou-se um robusto menino, cuja força não encontrava páreo na vizinhança.
Naquela época, contavam que surgiu numa das ilhas de Setonaikai (Mar de Seto)
seres demoníacos que os japoneses chamavam de oni. Esses indivíduos saqueavam as
aldeias próximas e raptavam as donzelas, causando temor e sofrimento ao povo da
região. Como os oni eram grandes, fortes e impiedosos, além da aparências
medonhas, com peles vermelhas e outras cores mais, os aldeões ficavam apavorados
só de pensarem que de uma hora para outra, eles invadiriam suas casas. Os
moradores locais, não tinham coragem de combatê-los com medo de levar uma boa
chifrada, pois os tais demônios eram dotados de belos par de cornos nas cabeças
louras e cacheadas.
Certo
dia, Momotarô ajoelhou-se polidamente à frente dos anciões e inclinou a cabeça
em profundo respeito e pediu: “Quero ir a Onigashima (Ilha dos oni) para acabar
de vez com os demônios que tanto atemorizavam o povo. Por favor, deixem-me ir”.
Os velhinhos ficaram preocupados com medo que acontecesse algo ao filho, porém,
como este tinha idéia fixa e insistia tanto que acabaram concordando, afinal “o
ideal de salvar o povo era algo nobre e irrecusável”.
A velhinha preparou uma porção de bolinhos de milhete (kibidangô), e colocou na
bolsa de Momotarô, para ele levar de lanche na épica viagem. Momotarô em traje
impecável partiu animado sob muitas recomendações dos preocupados velhinhos...