MIMINACHI HOICHI
O bom
observador de imagens deve ter notado várias vezes em filmes, ilustrações e nas
histórias em quadrinhos nipônicos que, desde 1320, nas estradas do Japão, monges
andarilhos carregando biwa (instrumento musical de quatro cordas, espécie de
alaúde) tornou-se presença constante. Esses personagens do Japão antigo, monges
cegos que usavam hábitos de peregrinos e iam e vinham de aldeia em aldeia, de
castelo em castelo, para cantar as façanhas dos heróis da grande guerra que na
década de 1180 opôs duas importantes famílias – os Minamoto (clã Guenji) e os
Taira (clã Heike) – ambos da Casa Imperial, numa luta implacável pelo poder. A
guerra ficou conhecida por Guenpei (abreviatura dos nomes das clãs) e só
terminou com o extermínio dos Heike. Conhecidos como monges de alaúde, eles
cantavam os episódios das centenas de manuscritos que contém os relatos épicos,
os Heike Monogatari (Contos de Heike) e, por isso, passaram a ser chamados
também “monges de Heike”, ou Heike-hoshi. Essa forma
oral de transmitir literatura preservou e popularizou a história do Japão em
seus mínimos detalhes. Entre tantos cegos que cruzavam o Japão na época levando
sua arte, um monge de nome Hoichi (leia-se Roiti) que morava no Templo Amida em
Shimonoseki, no extremo sudoeste da Ilha de Honshu, ficou particularmente
famoso, porque ele próprio tornou-se personagem de uma história fantástica. O
cego Hoichi era um Heike-hoshi bastante conhecido por cativar os ouvintes com
sua cantoria narrativa. Tal era seu talento que todos que o ouviam, ficavam
visivelmente emocionados durante a apresentação. Certa ocasião, ele tornou-se
hóspede de um templo nas proximidades do local onde em 1185 foi travada a
batalha de Dannourá, o combate final, onde os Heike comandados pelo famoso
Minamoto no Yoshitsune dizimaram os Taira e provocaram o suicídio do Imperador
Antoku,
o menino. O
monge que hospedou o cego Hoichi gostava muito dos clássicos japoneses de forma
que logo se tornaram grandes amigos. Certa ocasião, o monge teve que viajar à
cidade vizinha para realizar um culto e o cego Hoichi ficou sozinho no templo.
Naquela noite, quando Hoichi foi ao jardim para se deliciar com o perfume das
flores, ouviu passos de alguém que vinha em sua direção. Pelo modo firme de
pisar e pelo farfalhar da armadura, Hoichi logo deduziu que se tratava de um
guerreiro. Realmente o homem se apresentou como tal e contou que um daimyô
(senhor feudal) de passagem pela região, estava acampado nas proximidades e
gostaria de ouvir a arte de Hoichi. Honrado com o convite, Hoichi, acompanhou o
guerreiro por uma estrada íngreme. Chegando ao acampamento dos guerreiros, tocou
seu biwa e cantou a noite toda. Durante as apresentações, o cego percebeu que
haviam no local várias pessoas que bebiam e conversavam animadamente. Hoichi foi
muito elogiado, inclusive por uma mulher de linguagem nobre e todos pediram que
voltasse nas próximas seis noites, com o que ele concordou plenamente. O
comandante dos guerreiros prometeu-lhe rica recompensa pelas apresentações,
porém, pediu sigilo absoluto, pois estavam em manobra de guerra e era importante
permanecerem no anonimato. Na noite seguinte, conforme prometera, Hoichi,
acompanhou novamente o guerreiro e fez nova apresentação no acampamento do
batalhão. Enquanto isso, o monge do templo voltou da curta viagem e estranhou a
ausência de Hoichi. Este só retornou ao aposento na manhã seguinte. Por mais que
o monge anfitrião interrogasse, ficou sem saber por onde o cego andara, pois
este se manteve fiel à promessa de sigilo absoluto feito aos samurais. Na outra
noite, o monge anfitrião desconfiado de que algo estranho estava acontecendo com
seu amigo, ordenou que um jovem discípulo seguisse o cego, caso ele deixasse o
templo. No mesmo horário das noites anteriores, Hoichi saiu sorrateiramente e
seguiu por uma trilha íngreme e desapareceu. O discípulo que o perdera de vista
na escuridão, procurou por Hoichi nas casas da aldeia mas não conseguiu
encontrá-lo. Cansado e sem entender como um cego conseguiu andar tão rápido, o
menino resolveu retornar ao templo pelo atalho à beira-mar. Quando caminhava por
um lugar ermo, de repente ouviu o som do biwa trazido pelo vento.
Embora com muito medo, o aprendiz de monge dirigiu-se em direção de onde vinha
aquele som. Depois de andar por entre capins, avistou um clarão onde estava
sentado o cego Hoichi. O noviço correu em direção da fogueira e ao chegar perto,
parou subitamente, todo arrepiado de medo. Com olhos estalados percebeu que
estava dentro do cemitério abandonado, onde durante a guerra, os aldeões haviam
enterrado os guerreiros Heike que apareceram boiando depois da batalha de
Dannourá no estreito de Shimonoseki. Sentado entre os túmulos, Hoichi tocava seu
biwa e cantava num esforço sobre-humano os textos do Heike Monoga-tari. Ao seu
redor, vários hinotama (bola de fogo, espírito desencarnado, fantasma
fluorescente) sobrevoavam formando um redemoinho macabro. Refletindo a passagem
circundante dos fogos fátuos, a brilhante careca do cego Hoichi mudava de cor e
tonalidades, enquanto o suor escorria pela sua face visivelmente exausta. Num
primeiro momento, petrificado de medo, o noviço não conseguia se mover. Depois,
apelando para Buda, rezou como nunca havia feito e ganhou coragem para sai
correndo apavorado em direção ao templo.