HANASAKA JIJI, O VELHINHO DA PRIMAVERA - PARTE II,

Um bom velhinho, Hanasaka jiji - uma versão oriental do bonachão Papai Noel - havia encontrado um cachorro com poderes especiais, que havia lhe mostrado o local onde tinha sido enterrado um tesouro. Presenciando tudo isso, o vizinho ganancioso raptou o cão Shirô e o obrigou a lhe indicar outra fortuna escondida. Não conseguindo, o invejoso terminou por matar Shirô.
Mas as façanhas do cachorro continuaram a acontecer. No local onde foi enterrado, nasceu um grande pinheiro, que serviu de matéria prima para um mágico pilão de fazer moti. Mais uma vez, o ganancioso vizinho tentou se apoderar do pilão, mas novamente não conseguiu reproduzir seus poderes. Danado da vida, o velho malvado retalhou o pilão com o machado e fez uma bela fogueira.
                                         
Quando o velhinho bondoso ficou sabendo do ocorrido, desolado recolheu as cinzas numa caixinha de madeira e voltou para casa arrasado. Ao chegar em casa, mostrou para a velhinha o que sobrou do pilão que guardava a memória de Shirô, pois o moti também é shiroi (branco). Nesse instante uma brisa carregou as cinzas da superfície da caixinha para o quintal. As cinzas pousaram em galhos secos e de cada pozinho nasceu uma flor de cerejeira. Todas as árvores do quintal floresceram e as árvores secas ficaram esplendorosas.
                                           A notícia correu pela aldeia e caiu nos ouvidos de uma tropa de nobres samurais que escoltavam o mandatário da região (daimyo), que passava pelas proximidades. O poderoso Daimyo mandou chamar o velhinho e ordenou que mostrasse sua magia.
                                           Preocupado que o milagre das flores não se repetisse, o bondoso velhinho subiu numa árvore seca e espalhou a cinza pelos galhos evocando Konohana Sakuya Hime - a deusa Floração, que conforme a lenda, por onde ela passa, as flores desabrocham. Novamente como pôr encanto, as árvores secas ficaram cheias de flores de cerejeira. O Daimyo e os samurais ficaram admirados e até emocionados por poderem apreciar a flor de cerejeira fora da estação. Pois conforme a tradição japonesa, a cerejeira é a flor dos guerreiros.
                                           Como recompensa pelo belo espetáculo, presentearam o velhinho com ricos kimonos e moedas de ouro. O ancião voltou para casa feliz da vida e algumas moedas a mais para sua coleção.
                                            O vizinho invejoso, ao saber do ocorrido, apanhou as cinzas que restaram no quintal e se posicionou junto a algumas árvores na beira da estrada, por onde passaria os nobres samurais no retorno ao castelo. Quando a tropa aproximou, ele chamou a atenção dos guerreiros gritando e cantando todo alegrinho:
                                            - Eu sou o Velhinho da Primavera, aquele qque faz galhos secos florescerem! La-ri-la-ri la!
                                            O nobre senhor da região desceu da montaria e quis apreciar mais uma vez a floração das cerejeiras que tanto amava:
                                            - Que aldeia fantástica, todos aqui sabem a mágica da deusa Konohana Sakuya Hime. Dizendo isso, o nobre senhor ordenou que o velhinho executasse o espetáculo.
                                            O ganancioso velhinho começou a espalhar as cinzas pelos galhos, porém nada aconteceu.
                                            - O que está esperando homem? Quero ver ass flores de sakurá (cerejeira)!
                                            Desesperado o ancião gritava :
                                            - Floresce cerejeira. Floresce cerejeira. Ajude-me deusa da Floração. Mas nada de flores desabrocharem. Então o velho despejou todas as cinzas sobre os galhos para ver se funcionava. O exagero teve dramática conseqüência. As cinzas caíram nos olhos do Daimyo e dos samurais.
                                            - Velho insolente, além de impostor é um aatrevido. Prendam-no!
Conta a lenda que o velho ganancioso pediu perdão de joelhos ao governador e jurou que não praticaria mais coisas desonestas nem cobiçaria o que à outros pertenciam. Concluiu que o espírito de Shirô estava-lhe castigando, pela maldade por ele praticada e ficou muito arrependido da sua maneira de agir.
O governador ficou comovido com lágrimas do ancião e depois de repreendê-lo duramente, deixou-o seguir seu caminho, pois conforme a sabedoria popular japonesa, o castigo dos mortos é bem pior que o castigo dos vivos.


 

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