HANASAKA JIJJI, O VELHINHO DA PRIMAVERA: - PARTE I
Você
já ouviu falar em Papai Noel não é mesmo? Pois bem, Papai Noel é o “Velhinho do
Natal”. Assim como ele, nas lendas japonesas existe o “Velhinho da Primavera”
que é o Hanasaka Jiji, literalmente significa Velhinho Floração, um personagem
que todos os nipônicos conhecem e gostam. Sempre que a vida de uma pessoa está
triste e solitária como galhos secos de uma árvore, os japoneses exclamam: Ah!
preciso da ajuda do Velhinho da Primavera, quero florir minha vida.
Tudo começou do seguinte modo: há muitos e muitos anos, viviam numa pequena
aldeia, um casal de velhinhos, pobre e sem filhos. Para amenizar a solidão,
tratavam Shirô como se fosse um filho. Shirô, era uma cachorro branco e tinha
esse nome óbvio, porque shirô em japonês significa branco.
Certo dia, quando o velhinho trabalhava em sua horta, Shiro começou a latir e a
cavar insistentemente um determinado local, como quem indica a existência de
ossos ali enterrados. O velhinho então resolveu dar uma mãozinha e cavou o local
indicado. Buraco feito, para surpresa do ancião, haviam moedas de ouro, que uma
vez desenterradas, brilharam com grande intensidade.
O velhinho encheu uma cesta com o reluzente achado e levou para casa feliz da
vida. Do dia para a noite o casal ficou rico e consideraram o achado uma dádiva
Divina. Pois com o avanço da idade, a labuta diária na roça havia se tornado
muito pesada e o rico achado veio então a calhar. Nem é preciso dizer que com
essa nova situação financeira da família, o esperto Shirô passou à comer do bom
e do melhor e levar uma vida nada canina.
Acontece que na casa vizinha morava outro casal de velhinhos, com fama de
gananciosos. Quando este segundo casal percebeu a considerável melhora no padrão
de vida dos vizinhos, e um cãozinho idiota sendo tratado como rei, não tiveram
dúvidas. Concluiram que o faro do quadrúpede detectava fortunas.
Dirigindo-se para a casa ao lado, o velho ganancioso foi logo pedindo o cachorro
emprestado. Alegou que todos eram filhos de Deus, portanto todos tinham também o
direito de ficar ricos, inclusive ele e sua mulher. Diante do velho argumento, o
bondoso velhinho concordou plenamente em emprestar o animal de estimação.
Acontece que Shiro não queria acompanhar o vizinho. Então, este amarrou uma
corda no seu pescoço e levou-o arrastando para a roça.
Lá chegando, como o cachorro não indicava lugar nenhum, o velho malvado o
arrastou por toda horta. Num sufoco terrível, Shiro se debatia, esperneava,
grunhia e fazia das patas freios de mãos e pés. Mesmo assim, o impiedoso homem
continuava puxado a corda com toda sua força.
- Seu cachorro teimoso, mostre-me onde temm ouro ou lhe mostro o que é bom pra
tosse.
Existem situações que nem cachorro agüenta. Por isso revoltado, Shirô latiu
contra o tirano com todo ar de seus pulmões. Porém, cego pela ganância, o latido
soou como música nos ouvidos do malvado. Pois ele entendeu que Shirô estava
indicando o local do tesouro
Com os olhos estalados de ambição, o vizinho começou a cavar feito um doido.
Depois de muito esforço e suor, só encontrou pedras e cacos de telhas na
escavação. Quando já estava a ponto de desistir, viu algo que brilhou em meio as
terras. O ganancioso então, certo de que fosse ouro, atirou-se de corpo e alma
ao fundo do buraco. Cavou apressadamente com as mão o restante das terras. Nisso
o buraco cedeu aos seus pés, e o velho do vizinho se viu atolado em monte de
fezes. O coitado havia encontrado um antigo e soterrado fosso.
Em meio a toda aquela melequeira ele entendeu então, porque dizem que “nem tudo
que reluz é ouro”.
Shirô deu boas gargalhadas como fazem os cachorros da lendas. Porém, ao sair
enfurecido do fosso, o velho malvado com a enxada deu um golpe fatal na cabeça
do cachorro.
Notificado do ocorrido, o velhinho bondoso, sentiu-se culpado pôr ter emprestado
seu estimado cão a um vizinho de má fama. Ao recolher o cadáver, pediu perdão a
Shirô, pois filho não se empresta. Chorando, o casal enterrou o pobre cachorro
no canteiro principal do jardim de seu quintal. Sobre a cova do bichinho plantou
uma semente de pinheiro.
Diariamente o casal de velhinhos chorava na sepultura do filho (cachorro) e as
lágrimas regavam a terra. Assim, como que pôr magia, o pinheiro cresceu
rigorosamente, tornando-se em pouco tempo uma enorme árvore.
Então, o velho, consultando seu coração, disse à mulher:
- Minha velha, essa arvore é um milagre doo nosso Shirô. Creio com muita fé que
seu espírito está dentro desse tronco.
A velhinha, que concordava com o ponto de vista do marido, sugeriu:
- Shiro gostava tanto de moti, que tal fazzer deste tronco um ussu (pilão) assim
o espírito de Shiro ficará sempre perto de seu prato predileto.
Certo de que Shiro iria aprovar a idéia, resolveram cortar a árvore e fazer um
belo pilão. Quando foram testar o pilão socando nele o arroz glutinoso, a cada
batida do malhete, mais e mais aumentava a quantidade de moti, e com apenas um
punhado de arroz, fizeram uma montanha de bolinhos.
O casal vizinho que a tudo assistiu do buraco da cerca, veio imediatamente pedir
emprestado o pilão. Sem ter coragem de dizer não, mais uma vez o bondoso
velhinho atendeu o pedido. Ao chegar em casa, a dupla gananciosa, começou a
socar o arroz no pilão, esperando o milagre da multiplicação de moti. Mas para
surpresa e desgosto da dupla gananciosa, o arroz transformou-se numa tremenda
meleca de mal cheiro. O pior de tudo é que a sujeira não parava de aumentar e a
cozinha transformou-se numa lagoa de imundices.