"A beleza � uma forma da genialidade-ali�s, � superior � genialidade na medida em que n�o precisa de coment�rio. Ela � um dos grandes fatos do mundo, assim como a luz do Sol, ou a primavera, ou a miragem na �gua escura daquela concha de prata que chamamos de lua. N�o pode ser interrogada, � soberana por direito divino."
... " - Porque considero que influir sobre uma pessoa � transmitir-lhe um pouco de sua pr�pria alma; esta pessoa deixa de pensar por si mesma, deixa de sentir as suas paix�es naturais. Suas virtude n�o s�o mais suas. Seus pecados, se hou- ver qualquer coisa semelhante a pecados, ser�o empretados. Ela tornar-se-� eco de uma m�sica estranha, autora de uma pe�a que n�o se comp�s para ela. O fim da vida � o desenvolvimento da personalidade. Realizar a sua pr�pria natureza- eis o que todos procuramos fazer. Os homens hoje, amedrontam-se deles mesmos. Esqueceram-se dos maiores de todos os deveres, do dever que cada um deve a si pr�prio. Naturalmente s�o caridosos. Nutrem o pobre e vestem os andrajosos, mas deixam as suas almas famintas e andam nus. A coragem nos abandonou; � poss�vel que nunca a posu�ssemos! O terror da sociedade, que � a base de toda moral, o terror de Deus, que � o segredo da religi�o- eis as duas coisas que nos governam."
"...Estou h� quase dois anos na pris�o. Durante esse tempo, meu temperamento me fez passar por momentos de selvagem desespero,de entrega total ao sofrimento, que era contristadora at� para quem a observava, por uma raiva terr�vel e impotente, por sentimentos de amargura e rancor, por uma ang�stia que me fazia solu�ar, um sofrimento que n�o encontrava palavras para expressar-se, um arrependimento mudo, um pesar silencioso. Passei por todos os est�gios poss�veis do sofrimento. Entendo melhor que o pr�prio Wordsworth o que ele quis dizer quando escreveu: " O sofrimento � algo permanente, misterioso e sombrio e tem a natureza do infinito".
Quando as trevas come�aram a cair sobre a Terra, Jos� de Arimat�ia acendeu uma tocha de pinheiro e desceu da colina para o vale. Tinha o que fazer em casa. E, ajoelhando-se sobre as pedras do Vale da Desola��o, viu um jovem que estava nu e chorava. Seus cabelos eram da cor do mel e o corpo t�o branco como uma flor; mas ferira o corpo nos espinhos e sobre os cabelos pusera cinza � guisa de coroa. E Jos�, que possu�a grandes virtudes, disse ao jovem que se encontrava nu e chorava: - N�o me admira que o teu sentimento seja t�o grande, porque, realmente, Ele foi um homem justo. E o jovem respondeu: - N�o � por Ele que choro, mas por mim mmesmo. Eu tamb�m mudei a �gua em vinho, curei o leproso e restitu� a vista do cego. Andei sobre as �guas e das profundezas dos sepulcros expulsei os dem�nios. Alimentei os famintos no deserto onde n�o havia comida; ergui os mortos dos leitos ex�guos e � minha ordem, diante de imensa multid�o, uma figueira seca novamente frutificou. Tudo que esse homem realizou eu tamb�m realizei e, todavia, n�o me crucificaram.
...
O casaco escarlate n�o usou, pois tinha
De sangue e vinho o jeito;
E sangue e vinho em suas m�os havia quando
Prisioneiro foi feito,
Deitado junto � mulher morta que ele amava
E matara em seu leito.
Ao caminhar em meio aos julgadores, roupa
Cinza e gasta vestia;
Tinha um bon� de cr�quete, e seu passo l�pido
E alegre parecia;
Mas nunca em minha vida algu�m olhar
T�o angustiado o dia.
Eu nunca vi na vida que tivesse
Tanta ang�stia no olhar,
Ao contemplar a tenda azul que os prisioneiros
De c�u usam chamar,
E as nuvens � deriva, que iam com as velas
Cor de prata pelo ar.
Num pavilh�o ao lado, andei com outras almas
Tamb�m a padecer,
Imaginando se seu erro fora grave
Ou um erro qualquer,
Quando algu�m sussurou baixinho atr�s de mim:
"O homem tem que pender".
Cristo! As pr�prias paredes da pris�o eu vi
Girando ao meu redor,
E o c�u sobre a cabe�a transformou-se em elmo
De um a�o abrasador;
E, embora eu fosse alma a sofrer, j� nem sequer
Sentia a minha dor.
Sabia qual o pensamento perseguido
Que lhe estugava o andar,
E porque demonstrava, ao ver radiante o dia,
Tanta ang�stia no olhar;
O homem matara a coisa amada, e ora devia
Com a morte pagar.
Apesar disso-escutem bem-todos os homens
Matam a coisa amada;
Com o galanteio alguns o fazem, enquanto outros
Com a face amargurada;
Os covardes o fazem com um beijo,
Os bravos, com a espada!
Um assassina o seu amor na juventude,
Outro, quando anci�o;
Com as m�os da Lux�ria este estrangula, aquele
Empresta do Ouro a m�o;
Os mais gentis usam a faca, porque frios
Os mortos logo est�o.
Este ama pouco tempo, aquele ama demais;
H� comprar, e h� vender;
Uns fazem o ato em pranto, enquanto que um suspiro
Outros n�o d�o sequer.
Todo homem mata a coisa amada!- Nem por isso
Todo homem vai morrer.
Fonte:A Balada do C�rcere de Reading.Oscar Wilde.
Tradu��o:Paulo Viziolo. Ed. Nova Alexandria.
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