Poesias de Hermann Hesse



Antiga imagem de Buda
em ruínas num barranco
de bosque japonês


Amolecido e gasto entre oferendas
de muitas chuvas e geadas, verdes
de limo as faces e as pálpebras grossas
caídas-fitas em silêncio a meta:
o des-ser voluntário e o vir-a-se
no Todo em transmutação sem limites.
Teu gesto desfigurado ainda lembra
a nobreza de tua real missão,
e já procura, em humo e lodo e terra,
em forma livre, a própria perfeição:
será amanhã raiz, folha em sussuroo,
água a espelhar a pureza do céu,
crespidão de capim ou alga ou hera
-imagens do que é vário no Uno eterno.





O Ancião e as Mãos




Penosamente ele faz o percurso
da sua longa noite:
espera, escuta e vela.
Diante dele sobre a coberta repousam
ambas as mãos: direita e a esquerda
hirtas, nodosas, cansadas serventes
-e ele ri
baixo, para não as acordar.

Infatigáveis mais que a maioria
trabalharam bastante,
quando em pleno vigor.
Muito haveria ainda por fazer,
mas as obedientes companheiras
quereriam agora descansar e retornar ao pó.
Para serventes,
estão cansadas e ressecadas.

Baixo, para não as acordar,
o senhor ri-se delas:
a longa caminhada da existência
parece agora curta, embora longo
o percurso de uma noite...E mãos de criança,
mãos de adolescente, mãos de adulto,
no entardecer, no fim,
olham-se assim.

Andares- Antologia Poética. Hermann Hesse.
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