Poesias Fernando Pessoa
Alberto Caeiro GUARDADOR DE REBANHOS
(1911-1912) I Eu nunca guardei rebanhos, Mas � como se os guardasse. Minha alma � como um pastor, Conhece o vento e o sol E anda pela m�o das Esta��es A seguir e a olhar. Toda a paz da natureza sem gente Vem sentar-se a meu lado. Mas eu fico triste como um p�r de sol Para a nossa imagina��o, Quando esfria no fundo da plan�cie E se sente a noite entrada Como uma borboleta pela janela. (...)

Ricardo Reis Nada fica de nada.Nada somos. Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos Da irrespir�vel treva que nos pese Da humilde terra imposta, Cad�veres adiados que procriam. Leis feitas, est�tuas vistas, odes findas- Tudo tem cova sua. Se n�s, carnes A que um t�mido sol d� sangue, temos Poente, por que n�o elas? Somos contos contando contos, nada.

�lvaro de Campos BARROW-ON-FURNES Sou vil, sou reles, como toda a gente, N�o tenho ideais, mas n�o os tem ningu�m. Quem diz que os tem � como eu, mas mente. Quem diz que busca � porque n�o os tem. � como a imagina��o que eu amo bem. Meu baixo ser por�m n�o mo consente. Passo, fantasma do meu ser presente, �brio, por intervalos, de um Al�m. Como todos n�o creio no que creio. Talvez possa morrer por esse ideal. Mas, enquanto n�o morro, falo e leio. Justificar-me? Sou quem todos s�o... Modificar-me? Para meu igual?... -Acaba l� com isso, � cora��o!
Bernardo Soares O Livro do Desassossego Pass�vamos, jovens ainda, sob as �rvores altas e o vago sussuro da floresta. Nas clareias, subitamente surgidas do acaso do caminho, o luar fazia-as lagos e as margens, emaranhadas de ramos, eram mais noite que a mesma noite. A bri- sa vaga dos grandes bosques respirava com som entre o arvoredo. Fal�vamos das coisas imposs�veis; e as nossas vozes eram parte da noite, do luar e da flores- ta. Ouv�amo-las como se fossem de outros. N�o era bem sem caminhos a floresta incerta. Havia atalhos que, sem querer, conhec�amos, e os nossos passos ondeavam neles entre os mosqueamentos da sombras e o palhetar vago do luar duro e frio. Fal�vamos das coisas imposs�veis e toda paisagem real era imposs�vel tamb�m.
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