Retrato de Fernando Pessoa no Café Irmãos Unidos-Almada Negreiros

Heterônimos

"Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:´Navegar é preciso;viver não é preciso.´
Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou:Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como a minha.
Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo de nossa Raça."


Fernando Pessoa*


* Nota publicada pela primeira vez na primeira edição do volume Fernando Pessoa-Obra Poética, volume único, Companhia Aguilar Editora, 1965 (Org., introdução e notas de Maria Alice Galhoz)




Fernando Pessoa inventou os seus heterônimos ainda cedo. Estava ele em Durban, África do Sul, quando os heterônimos Charles Robert Anon e H.M.F. Lecher são criados.
Mas, é no dia 8 de março de 1914 que os heterônimos começam a ter realmente força. Nesse dia, Fernando Pessoa escreve, de uma só vez, os 49 poemas de "O Guardador de Rebanhos", de Alberto Caeiro.
A explicação, segundo o próprio Fernando Pessoa:" Em 8 de março de 1914, acerquei-me de uma cômoda alta e, tomando de papel, comecei a escrever de pé como escrevo sempre que posso. E escrevi trimta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não consegui definir...E o que se deu a seguir foi o aparecimento em mim, a quem dei logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre".
Logo depois viria Álvaro de Campos e, em junho do mesmo ano, Ricardo Reis.
Álvaro de Campos e Ricardo Reis eram discipulos de Alberto Caeiro, assim como o próprio Fernando Pessoa o seria. Cada um porém, segue os ensinamentos de Caeiro com visão própria.


Alberto Caeiro(1889 a 1915)

Conforme Fernando Pessoa, ele "nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão, nem educação quase alguma, só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Morreu tuberculoso".
A poesia de Alberto caeiro é escrita com linguagem simples e vocabulário limitado, como seria a poesia de alguém criado no campo e com pouca instrução. Ama a natureza. Os seus versos são livres(sem métrica regular) e brancos (sem rimas).É considerado um agnóstico, isto é, as explicações devem ter uma evidência lógica para que ele as aceite. Parece uma atitude adversa de Fernando Pessoa, que trabalhava com astrologia e aceitava as Doutrinas Teosóficas.




Ricardo Reis (1887 a 1935?)

Fernando Pessoa conta que " Ricardo Reis nasceu no Porto. Educado em Colégio de Jesuítas, é médico e vive no Brasil desde 1919, pois expatriou-se espontâneamente por ser monárquico. É latinista por educação alheia e um semi-helenista por educação própria".
Segue o seu mestre, Alberto Caeiro, através do mesmo amor pela natureza. Sua linguagem é clássica e o voabulário, erudito. Seus poemas são metrificados; usa o paganismo recorrendo aos deuses gregos em seus poemas.




Álvaro de Campos

"Nasceu em Tavira e teve uma educação vulgar de Liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro Mecânica e depois Naval.Numa de suas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Agora está aqui em Lisboa em inatividade".
Álvaro de Campos passou por três fases distintas em sua poesia. Na primeira, foi influenciado pelo Simbolismo e usa métrica e rima em sua poesia. É nessa fase que escreve o Opiário .
A segunda, tem um caráter de Futurismo, adotando um estiulo febril, entre as máquinas e a agitação da cidade, do que resultam poemas como Ode Triunfal. Por fim, amargurado, reflete de forma pessimista e desiludida sobre a existência, em poemas como Tabacaria. Seus versos são longos, próximos à prosa. Tanto Campos quanto Reis ainda estavam "vivos" quando Fernando Pessoa morreu em 1935.




Bernardo Soares

Bernardo não é considerado bem como um heterônimo de Fernando Pessoa, mas como ele próprio mesmo diz, um semi-heterônimo. No último ano de sua vida ele assim o define:"É um semiheterônimo, porque, não sendo a personalidade dele a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela".
Na Introdução da Edição do Livro do Desassossego(Cia. das Letras), Richard Zenith, pesquisador de Fernando Pessoa diz que"Pessoa inventou o Livro do Desassossego, que nunca existiu proprimente falando, e que nunca poderá existir. O que temos aqui não é um livro mas a sua subversão e negação, o livro em potência, o livro em plena ruína, o livro-sonho, o livro-desespero, o antilivro, além de qualquer literatura. O que nestas páginas é o gênio de Pessoa no seu auge".
O "Livro" nasceu antes de Caieiro, Campos e Reis, e esteve em preparação durante toda a vida de Fernando Pessoa.
Segundo conta o próprio Fernando Pessoa, Bernando Soares morava na Rua dos Douradores onde trabalhava num escritório como ajudante de guarda-livros e onde também morava, num modesto andar alugado, onde escrevia nas horas vagas. Fora isso, pouco se sabe de sua origem.


Fonte de Pesquisa:Livro do Desassossego-Introdução de Richard Zenith.Editora Cia. da Letras.
Coleção Help!-Sistema de Consulta Interativa. O Estado de São Paulo.

Hosted by www.Geocities.ws

1