
Ao fazer 18 anos, a gaúcha Camila Kappel não ganhou um carro, como é costume entre as famílias de classe média alta. Seus pais, o empresário Luiz Carlos e a cirurgiã-dentista Elaine, preferiram dar-lhe algo mais útil – uma cama de casal, acompanhada da autorização para dormir em casa com o namorado. Foi um presente e tanto. Em plena explosão de hormônios natural na idade. Camila livrou-se das cenas de alto risco de namorar dentro de um automóvel. Também não precisa mais queimar a mesada inteira em diárias de motel. Três anos depois, ela e o eleito, Leonardo Lopes, sentem-se à vontade na casa. Tanta liberdade e conforto teve um preço. “Justo”, na opinião dos dois jovens. Nos fins de semana, quando normalmente se aloja no quarto da namorada, Leonardo costuma ajudá-la a varrer o chão e lavar a louça do almoço e também se arrisca em empreitadas gastronômicas. A família atesta que o rapaz é mestre no preparo de espaguete à bolonhesa.
Esse comportamento acolhedor das famílias não é exatamente original. Já ocorria em São Paulo e no Rio de Janeiro, embora não de maneira representativa. A novidade é que, por um punhado de motivos, se tornou um fenômeno cada vez mais comum. Uma pesquisa exclusiva do Ibope para ÉPOCA mostra que 34% dos adolescentes brasileiros de classe média têm autorização dos pais para fazer sexo em casa. Esses dados querem dizer que, se isso não acontece em sua casa, ocorre na de seu vizinho, quem sabe na dos primos. A diferença mais notável, informa a pesquisa do Ibope, em que foram entrevistadas 795 pessoas em todo o Brasil, envolve os usos e costumes de cada região deste país imenso e tão desigual. No Sul, onde vive a família Kappel, esse namoro doméstico é maior – 35% dos adolescentes têm essa permissão. No Nordeste, o índice é o menor – apenas 11%. Nas grandes cidades, a incidência é duas vezes maior que no interior. Há uma diferença de postura entre classes sociais, também. Nas famílias de classes D e E, que levam um cotidiano no limite da subsistência, a cifra fica em 14%. Até porque não há nessas casas o mínimo de espaço para a privacidade dos filhos. Somando-se jovens de todas as origens, chega-se a uma média nacional espantosa: 25% têm autorização dos pais para manter intimidades no quarto ao lado. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), considera-se a adolescência a faixa da vida que se inicia aos 10 e vai até os 20. Até por motivos legais os jovens ouvidos nesta reportagem são maiores de 18 anos. Mas foi possível apurar que essa liberdade doméstica ocorre a partir dos 16 e se acentua depois dos 18 anos.
Os gaúchos Luiz Carlos e Elaine foram adolescentes na década de 70, quando os movimentos jovens conseguiram uma série de conquistas, na base do desafio aos padrões estabelecidos. A liberação sexual, instaurada graças à pílula anticoncepcional, foi uma delas. Hoje no papel de pais, os jovens daquele tempo são mais liberais em relação à vida sexual dos filhos. “Não queríamos reproduzir o tipo de criação que tivemos”, justifica Luiz Carlos.
“O adolescente não tem um lugar confortável para namorar. Experimenta sempre relações sexuais rápidas e tensas”, diz o psicólogo Mauricio Torselli, orientador do Instituto Kaplan, uma ONG voltada para a orientação a adolescentes. “Se a aceitação por parte dos pais é verdadeira, sem constrangimentos de um dos lados, transar em casa é bom para uma vida sexual sadia.” Quem já passou pela experiência quando jovem admite que dormir com a namorada na casa dos pais – ou dos pais dela – só é agradável quando a família anfitriã cultiva uma relação natural e descontraída com um assunto tão delicado como o sexo. O teste decisivo ocorre no café da manhã, quando todos se encontram de dentes escovados e cara lavada. Os comentários e olhares dos adultos são determinantes para o bem-estar – ou para o constrangimento – dos jovens.
A floricultora Maria da Glória Martins, de 43 anos, assistiu bem de longe à efervescência revolucionária dos anos 70. Nascida na pequena Canhotinho, no agreste pernambucano, teve uma adolescência tipicamente conservadora. Os pais sempre proibiram seus namoros. Para sair de casa, precisava da companhia de um adulto conhecido. Ela e o marido, o bancário Nelson Martins, deram aos filhos Antônio Carlos Neto, de 18 anos, e Camila, de 20, um tratamento bem diferente do que tiveram. “Encaro com muita naturalidade meus filhos transarem em casa. Aliás, prefiro assim”, diz Maria da Glória. A decisão dela e do marido, moradores do Recife, não é vista com a mesma tranqüilidade pelos parentes e vizinhos. “Em minha própria família sou considerada uma libertina”, ironiza.
Há quatro anos Camila, estudante de biomedicina na Universidade Federal de Pernambuco, engatou um namoro com Jaime Escobar, de 22 anos. Ela acha totalmente saudável a convivência em casa. “Meus pais sempre perceberam que a proibição não evita nada”, diz. Nos primeiros meses de namoro, a porta do quarto da garota ficava sempre aberta. Nessa fase o casal ainda não mantinha relações. Só depois de vários meses, quando ela disse aos pais que não era mais virgem, aos 17 anos, a porta passou a ser fechada. Para Camila, as vantagens disso são muitas. “Rola uma intimidade maior e dá para conhecer o suficiente para saber se a gente quer ficar junto com a pessoa.”
As famílias que adotam a novidade precisam rever alguns códigos de convivência. Um hóspede freqüente dentro de casa fatalmente alterará a rotina doméstica. A mãe não se sentirá à vontade para caminhar de camisola entre o quarto e a cozinha, porque pode esbarrar com o namorado da filha abrindo a porta da geladeira. A princípio, os irmãos vão querer fiscalizar a intimidade da maninha. Isso pode trazer complicações, pois é no momento em que se inicia na sexualidade que o adolescente passa a construir sua privacidade e a cultivar segredos diante dos pais.
Quando o adolescente entra na fase do “ficar”, mesmo sem fazer sexo, ele desenvolve uma vida independente, que não conta para ninguém, a não ser para os amigos mais próximos. Começa aí um processo de distanciamento dos pais. Depois da fase inicial da adolescência, a partir dos 16 anos, já com uma certa independência construída, ele se torna menos inseguro e constrangido. Até se sentir à vontade para tratar da questão em família. É quando costuma surgir a dúvida dos pais: permitir ou não que os filhos transem em casa.
No dia em que o administrador de empresas Pedro Pena, de 45 anos, e sua mulher, Marina, de 43, perceberam que o filho Bruno tinha dormido no quarto com a namorada, o tempo fechou na casa de dois andares no bairro da Freguesia do Ó, em São Paulo. Pedro esbravejou: “O que os pais dela vão dizer? É muita responsabilidade!” Marina botou panos quentes. Prometeu conversar com Kátia, de 17 anos, a namorada do filho Bruno, de 18. “Eu não quero que eles passem o mesmo que eu e Pedro passamos. Imagine que nossa primeira vez foi na área de serviço de minha casa. Pode até ter sido emocionante, mas foi muito mais constrangedor”, diz Marina. “Eles vão fazer isso de qualquer forma. Aqui, pelo menos, correm muito menos riscos.”
Além de falar com a mãe de Kátia, que hoje sabe de tudo, Marina teve uma conversa franca com a nora sobre camisinha e métodos anticoncepcionais. As duas viraram grandes amigas. “Nada mais confortável que estar em um lugar cercado por pessoas em quem você confia”, diz Kátia, que já contabiliza dois anos e meio de namoro. “Motel é legal, mas você só vai para uma finalidade. Em casa, a gente deita, conversa, às vezes rola alguma coisa, às vezes não. Com essa convivência, nossa vida melhorou muito.”
Num apartamento de três quartos no bairro do Paraíso, na Zona Sul de São Paulo, a situação é um pouco diferente. Lá, há dois anos, o militar da reserva Ubirajara Dias Fernandes e a dona-de-casa Adelaide Augusta, ambos de 54 anos, tomaram juntos a decisão de autorizar a filha caçula, Daniela, hoje com 20 anos, a dormir em casa com o namorado, Tomás Schibik, de 18. “Foi uma conquista dela”, explica a mãe. Apesar do sinal verde dos pais, Daniela garante que em seu quarto o máximo que acontece são algumas carícias, beijos e um ou outro amasso. “Eu não conseguiria transar com Tom sabendo que meus pais estão no quarto ao lado. A gente não poderia fazer nenhum barulho”, diz a estudante de jornalismo. “Quando dá vontade, saímos e vamos a um motel ou então esperamos o fim de semana. Eles viajam sempre”, conta ela, sentada no sofá ao lado dos pais.
Daniela herdou uma liberdade conquistada a duras penas pelo irmão e por outras três irmãs mais velhas. Outro aspecto que pesou na decisão do casal Fernandes foi o medo da violência urbana. “Dormimos muito mais tranqüilos sabendo que os dois estão em casa, e não na rua”, reconhece o militar. A pesquisa do Ibope contém esse dado curioso: é mais por medo da violência que por convicções sobre a liberdade sexual dos filhos que muitos pais autorizam o amor em casa. O levantamento demonstra que a falta de segurança nas cidades é a principal justificativa do novo comportamento. Depois disso, vêm a confissão de uma relativa ansiedade para manter controle sobre a vida da meninada e, em terceiro lugar, os pedidos insistentes dos filhos. A preocupação em garantir uma vida sexual saudável vem em quarto lugar.
Boa parte dos pais que hoje tendem a autorizar a vida sexual dos filhos dentro de casa é justo aquela que foi jovem relativamente bem-comportada. O perfil predominante é o de pessoas que tiveram longos namoros, estáveis, que culminaram em casamento – e, geralmente, continuam casadas até hoje. Esperam, com a atitude, que os filhos repitam sua história de vida, apenas com mais conforto. Só que os jovens de agora costumam ir bem mais longe que as gerações passadas. Começam sua vida sexual muito mais cedo e trocam de parceiros com freqüência. Como regra geral, os pais não parecem dispostos a permitir um rodízio de parceiros no quarto dos filhos. A estabilidade do relacionamento é pré-requisito para o uso liberado do quarto. A estudante carioca Juliana Pancha, de 20 anos, e Bruno Queiroz, de 22, por exemplo, só conseguiram o aval para dormir na mesma cama após um ano de namoro.
O que esses pais evitam é o jogo de cena, comum nas famílias em que os namorados não podem dormir juntos em casa — ainda maioria no Brasil: se em 34% dos lares de classe média essa liberdade é comum, em majoritários 66% é mantida uma postura mais conservadora. Muitos pais preferem acreditar naquela desculpa histórica da filha que foi dormir na casa de uma amiga a admitir que ela passou a noite com o namorado. Uma pesquisa feita em 1999 pela professora Tania Zagury, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com quase 1.000 adolescentes entre 14 e 18 anos, mostra bem esse lado obscuro da relação entre pais e filhos. Indica que 21,6% dos pais sabem que os filhos têm vida sexual ativa, mas preferem fingir que nada acontece.
Um dado que estimula a intimidade dos adolescentes em casa é que a atual geração de jovens brasileiros, ao contrário de seus pais, não demonstra a menor pressa de proclamar a independência, morando sozinho para encarar dores e alegrias da vida adulta. Uma pesquisa feita sob encomenda pela MTV descobriu que 82% dos entrevistados com até 30 anos de idade tinham pouca ou nenhuma vontade de sair de casa. Não é uma opção exclusivamente brasileira. O mesmo ocorre na Itália, onde os sociólogos se preocupam com o fenômeno dos vitelloni (bezerrões), que continuam vivendo na casa paterna até cerca dos 30 anos. Isso acontece não só por uma opção de cada pessoa, mas porque o jovem de hoje costuma entrar mais tarde no mercado de trabalho, consome temporadas extras numa vida estudantil prolongada por cursos de pós-graduação e outras atividades preparatórias. Com isso, o mundo moderno acaba produzindo um descompasso: jovens plenamente amadurecidos do ponto de vista biológico se encontram numa posição menos avançada quando se trata da independência.
Na maioria das famílias mantém-se uma postura previsível. De modo geral, a decisão dos pais é bem mais conservadora quando envolve meninas. A pesquisa do Ibope comprova isso. Entre os meninos, 37% têm autorização dos pais para levar a namorada para dormir em casa. Já entre as garotas esse índice é de 9%. “Os rapazes têm toda a aprovação da família ao se iniciar sexualmente, mas, no fundo, a maioria ainda gostaria que a filha se preservasse para o casamento“, diz Tania Zagury. Em muitos casos, a questão não envolve a virgindade, no entanto. O que se quer é evitar que as meninas sejam estimuladas a um comportamento promíscuo – daí o controle sobre os namorados autorizados a dormir. Muitos pais inseguros quanto à opção sexual dos filhos agem de forma inversa no caso dos meninos.
Dar ou não ao filho permissão para usar seu quarto para a intimidade sexual é uma decisão que depende do ambiente de cada família. Pai e mãe devem avaliar os impactos dessa autorização na vida cotidiana da casa. A cantora Beth Carvalho, por exemplo, prefere que a filha Luana, de 21 anos, durma na casa do namorado, a perder a privacidade dentro do próprio apartamento. “Por enquanto, namoro meninos que ela vê como filhos, mas ela diz que posso ter um namorado de 40 anos e isso, entre outras coisas, a deixaria sem liberdade para acordar e andar pela casa de camisola”, explica Luana.
“O acesso à independência e à liberdade é uma conquista, não um presente”, diz a psicóloga Rosely Sayão, diretora de conteúdo da revista Crescer. “Com os pais providenciando até um lugar para os filhos transarem, essa garotada não vai aprender nem sequer a batalhar pela privacidade”, argumenta. “Se o filho não tem um lugar para fazer sexo, que espere. Ou dê um jeito. A justificativa da segurança é um grande engano. O mundo, violento e cheio de riscos, é o mundo onde eles terão de viver. Também faz parte da vida e do amadurecimento encontrar soluções”, enfatiza a psicóloga paulista, mãe de dois filhos já crescidos que nunca foram autorizados a dormir com o namorado em casa.
Um dos mais aplicados estudiosos da sexualidade humana, Sigmund Freud costumava dizer que toda relação sexual envolve pelo menos quatro pessoas. Duas são reais, mas duas se encontram armazenadas no inconsciente – os pais. Quando se ama na casa da própria família, esses dois parceiros da psicanálise continuam imaginários – mas sem dúvida há algo de novo quando se sabe que estão dormindo no quarto ao lado.
Da mesma forma que a primeira noite, que deve ser escolhida por cada jovem, o melhor lugar para a vida sexual dos filhos varia de uma família para outra. Em algumas, a idéia só gera problemas. Noutras ela é absorvida naturalmente, sem incômodo ou constrangimento. Fazer de conta que os filhos são celibatários é que não dá. Nesse mundo de intimidade adolescente e convivência doméstica, a melhor notícia é que a família brasileira parece disposta a discutir o assunto.
Estatística: (em %) Qual a justificativa dos pais?
É mais seguro que na rua - 54
Em casa há mais controle - 37
Por insistência dos filhos - 26
Para garantir uma vida sexual saudável - 15
Não opinou - 6