"Ninguém sabe o que seja a morte... ninguém pode dizer que ela não seja para o homem o maior dos bens" (Sócrates)

 

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A História de Mayã e Lancelot

Era uma vez dois vizinhos

Um dia, um dos vizinhos, atendendo aos pedidos insistentes de sua filha, comprou um lindo gatinho para ela, seu nome era Lancelot.

Quando os filhos do outro vizinho viram o bichinho, também pediram um para o pai, e então, o homem comprou uma Husky Siberiana chamada Mayã.

Papo de vizinhos:

- Mas seu cachorro vai comer o meu gato!

- De jeito nenhum, imagina, ela é apenas um filhote, eles vão crescer juntos e vão ser amigos, entendo de bicho, não tem problema nenhum.

E parece que o dono do cachorro tinha razão, Mayã e Lancelot cresceram juntos e se tornaram grandes amigos.

Era normal ver um no quintal do outro brincando.

E as crianças estavam felizes.

Mas eis que um belo dia, o dono do gato foi passar um final de semana na praia com a família e Lancelot ficou sozinho.

Isso foi numa sexta-feira, quando chegou o domingo, de tardinha, o dono da Mayã e a família tomavam um lanche, quando ela entrou na cozinha trazendo o gato entre os dentes, todo imundo, arrebentado, sujo de terra e, é claro, estava morto.

Quase mataram o pobre cachorro.

- O vizinho estava certo! E agora!? O que vamos fazer!?

- O que nós vamos dizer pra eles?

A primeira providência foi bater no cachorro, escorraçar o animal, para ver se ela aprendia um mínimo de civilidade e boa vizinhança.

Claro, só podia dar nisso! Eu sabia!

Eu avisei! Eu tinha certeza!

Mais algumas horas e os vizinhos iam chegar. E agora?

Todos se olhavam, e o cachorro chorando lá fora, lambia suas pancadas.

- Já pensaram como vão ficar as crianças?

- Calem a boca!

Não se sabe exatamente de quem foi a idéia, mas era infalível que isso um dia ia acabar acontecendo.

- Já sei! Vamos dar um banho no gato, deixar ele bem limpinho, depois a gente seca com o secador da sua mãe e o colocamos na casinha dele no quintal.

Como o gato não estava muito estraçalhado, assim foi feito, até perfume colocaram no falecido. Ficou lindo, parecia vivo, diziam as crianças.

E lá foi colocado, com as perninhas cruzadas, como convém a um gato cardíaco.

Umas três horas depois eles ouvem os vizinhos chegarem, e logo notaram o alarido e os gritos das crianças.

Ai meu Deus... Eles descobriram!

Não deram cinco minutos e o dono do gato foi bater à porta, pálido, lívido, assustado. Parecia que tinha visto um fantasma.

- O que foi? Que cara é essa?

- O gato ... O gato...

- O que tem o gato?

- Morreu! Morreu!

- Todos perguntaram a uma só voz...

Mas como? Ainda hoje à tarde parecia tão bem...

- Como assim? Lancelot morreu na sexta-feira!

- Na sexta-feira?

- É... na sexta, foi antes da gente ir viajar, as crianças o enterraram no fundo do quintal!...?

E agora ele apareceu lá na casinha!!!

Como isso pôde acontecer???

?

  A história termina aqui.

O que aconteceu depois não importa.

O personagem que mais cativou neste caso todo, o protagonista da historia, foi sem dúvida alguma o cachorro.

Imaginem o pobre do animal que, desde sexta-feira, procurava em vão pelo gato, seu amigo de infância.

E depois de muito farejar descobriu o corpo, morto e enterrado.

E o que fez ele?

Mesmo com o coração partido, desenterrou o pobrezinho e veio mostrar para os seus donos.

Provavelmente estivesse até chorando, quando começou a levar pancada de tudo quanto foi lado, e o pior de tudo, sem saber por que.

O cachorro foi o herói, o animal.

O bandido foi o dono, o ser humano.

Tal qual sempre fazemos, não pensamos duas vezes para decifrar as coisas.

Para nós o cachorro foi e continuará sendo irracional, o assassino confesso.

E o homem continuará achando que um banho, um secador de cabelos e um perfume disfarçarão a mentira e a hipocrisia, o animal sempre desconfiado que habita dentro de cada um de nós.

Quantas vezes julgamos os outros pelas aparências, mesmo que tenhamos que maquiar essas aparências como melhor nos convier.

Coitado do cachorro.

Coitado do dono do cachorro.

Coitado dos cachorros que não latem, mas falam.

Coitados de nós, animais racionais.

by...JCR

*The Secrets Of Merlin*

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