Rosa Branca

 

     O garoto de cabelos dourados sentou ignorando o desconforto que essa nova posição trazia. Um respirar fundo foi o único sinal perceptível da dor que comprimia suas costelas mas ele não deitou novamente. Determinado a ignorar  aquela dor chata ele correu os olhos pelo quarto a procura de um pensamento que pudesse distraí-lo da sensação e seus olhos pousaram na única rosa posta em um vaso de vidro na mesinha. "Solitária e fadada a murchar, é como eu" ele analisou acrescentando depois um "péssima idéia, Naruto, você está tentando esquecer seus fantasmas e não pensar neles."

 

Eu respiro tentando encher os pulmões de vida

Mas ainda é difícil deixar qualquer luz entrar

Ainda sinto por dentro toda a dor dessa ferida

Mas o pior é pensar que isso um dia vai cicatrizar

 

    Com um suspiro ele conjeturou sobre a pessoa que teria deixado a flor ali, talvez a Sakura-chan ou o Ikura-sensei. Deu de ombros sentindo as dores do movimento. Ele não tinha muitos amigos ou uma família, era apenas um paria renegado pela sociedade. Tão diferente dELE... Naruto cortou o rumo dos pensamentos tentando não sucumbir à avalanche de emoções que pensar nele invocava. Ele não devia sucumbir à tristeza. Mas naquela cinzenta manhã de outono, preso a uma cama de hospital a mais de duas semanas ele não se sentia muito propenso a ser o bobo alegre.

Ele deixou os olhos rodarem pelo quarto novamente e suspirou. Sozinho. "O que você esperava, Naruto?" ele se censurou pela esperança em ter sido visitado por aquele a quem seu coração chama. Dali a alguns dias estaria curado e ninguém se lembraria que quase morrera para resgatá-lo de sua ambição.

    "Sasuke". O nome se formou em sua cabeça mas seus lábios continuaram cerrados de raiva, de tristeza, de dor.

 

Eu queria manter cada corte em carne viva

A minha dor da eterna exposição

E sair nos jornais e na televisão

Só pra te enlouquecer até você me pedir perdão

 

    O garoto de cabelos dourados levantou da cama devagar, ainda sentido umas finas dores. Ele estava quase curado então era hora de voltar para sua casa vazia e a vila poderia esquecer que ele existia como sempre.

    O portador da raposa observou o sorriso complacente do médico e lhe agradeceu com um  sorriso que em nada lembrava o adolescente hiper-ativo de antes. Droga, ele queria gritar e espernear e chorar sua raiva em lágrimas de sangue até que alguém percebesse sua presença. Havia alguém por trás daquele selo, será que não entendiam? E acima de tudo ele queria um olhar, uma visita, um obrigado. Mas era pedir demais para o intocável Sasuke Uchina, não era?

    O cheiro deprimente de ambiente fechado o recebeu quando chegou em casa e ele entrou acendendo a luz para pousar o olhar na rosa branca sobre a mesa. Ele olhou o cartão com os votos de boas-vindas escritos por Sakura-chan e sorriu. Havia sido ela, então.

 

Eu já ouvi cinqüenta receitas pra te esquecer

Que só me lembram que nada vai resolver

Porque tudo, tudo me traz você

E eu já não tenho pra onde correr

 

    A decepção queimou-lhe as entranhas e mais uma vez ele se esforçou para ignorar e esquecer. Ele tentou pensar em Sakura-chan,  em Ikura-sensei ou em se tornar um Hokage, mas, não adiantava.  Ele não gostava mais da garota loira,  não haviam ameaças que lhe fizessem pensar em proteger depois de tudo aquilo e seu sonho continuava sendo seu distante sonho, agora ajudado por cabelos e olhos de opala.

    O portador da raposa ignorou as recomendações médicas e foi comer ramén. Não é como se os médicos se importassem de verdade com o estado dele... Quando já havia terminado o Kakashi-sensei e a Sakura-chan se aproximaram saudando-o com um sorriso.

- Naruto! Não sabia que já havia saído! - o instrutor do time sete falou animado bagunçando os fios dourados com os dedos.

- Saí hoje. - o garoto respondeu sorrindo amarelo.

- Ninguém nos avisou, se soubéssemos tínhamos ido te buscar... - a menina entrou na conversa um pouco sem graça e sentou-se à mesa também.

- Não tem problema. - Naruto baixou os olhos para esconder a expressão de dor que passava por eles.

 

O que me dá raiva não é o que você fez de errado

Nem seus muitos defeitos nem você ter me deixado

Nem seu jeito fútil de falar da vida alheia

Nem o que eu não vivi aprisionado em sua teia

 

- Ele já está bem. Teve alta há uma semana. - A garota respondeu a pergunta muda que cintilava nos olhos azuis dele.

- Ah. - o garoto-raposa tentou soar desinteressado.

- Você está com raiva? - a garota perguntou temerosa e baixou o olhar se desculpando. - Me desculpe por ter feito você prometer, Naruto-kun, eu entendo se estiver com raiva.

- Está tudo bem, Sakura-chan. - ele se apressou em tranquilizá-la com um sorriso fraco. - Eu não tenho raiva. Não por ele ter procurado Orochimaru ou por ter pensado em me matar. Eu não estou por raiva por isso e mesmo sem  a promessa eu teria ido. Não se culpe.

    O silêncio se seguiu até que a garota se despediu e ele levantou para sair do restaurante.

 

O que me dá raiva são as flores e os dias de sol

São seus beijos e o que eu tinha sonhado pra nós

São seus olhos  e mãos e seu abraço protetor

É o que vai me faltar

O que fazer do meu amor?

 

    Não, ele não estava com raiva pela luta ou pelas dores do seu corpo, mas pela amizade quebrada , pelos planos e sentimentos esmigalhados dentro dele. Ele sentia uma raiva muito grande, até mesmo de si, pelas esperanças e pelo futuro que eles não teriam. E a raiva aumentava porque ele não podia esquecer  o amor, a paixão e o desejo que o jovem Uchina provocava.

    Novamente o garoto-raposa entrou em  sua casa vazia e uma brisa leve bagunçou os cabelos dourados. Confuso, ele divisou a janela aberta do quarto e desceu o olhar mirando uma única rosa vermelha sobre sua cama. O cartão continha uma palavra, só uma, mas que fez toda a raiva, a tristeza e a decepção sumirem. Uma letra desenhada tinha escrito, bela e solitária, Obrigado.

    Uma rosa vermelha pra colorir as rosas brancas de sua vida.

 

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